Surgimento biológico da vida humana

"Atualmente tem-se que, os progressos científicos avançam num ritmo muito mais acelerado que as ciências jurídicas, causando impacto nas normas e nos conceitos anteriormente simplificados. Até bem pouco tempo, os conflitos em torno do nascituro, não passavam de meros questionamentos doutrinários. Hoje considerá-lo pessoa ou não, e principalmente, definir o momento em que lhe são configurados esses direitos é matéria mais que necessária, porque dessa definição dependerá a ciência para designar quais rumos a biologia moderna legalmente percorrerá, sem assim, tornar suas práticas afrontosas à dignidade e a vida humana.

EMBRIÃO HUMANO

Definição
A definição universal de embrião tem sido uma tarefa difícil para as ciências exatas e, em termos filosóficos, é impossível.

Embrião deriva do grego embryon e significa “qualquer coisa que começa, princípio, aquilo que se apresenta primordialmente em estado indefinido ou confuso” ou, simplesmente, o desenvolvimento humano durante os primeiros estágios de desenvolvimento, mais concretamente até ao final da sétima semana de gestação, passando a partir dessa altura a designar-se por feto.

A professora Maria Celeste Cordeiro Leite Santos define como embrião “...o fruto da concepção no período de tempo entre a fecundação e o fim da oitava semana de desenvolvimento...” e “A Comissão Warnock considerou uma fase embrionária a que se refere às seis semanas imediatamente sucessivas à fecundação. Alguns adotaram o termo “pré-embrião´ para os primeiros quatorze dias de desenvolvimento após a fecundação.”

Quanto a esta definição de embrião, forçoso ainda salientar que a Associação Médica Britânica constituiu a chamada Comissão Peel (Peel Comittee Repori of the panel on human artificial insemination), que publicou o Relatório Mary Warnock , cujo § 11.9, “...reconhece o zigoto como parte de um processo de crescimento do embrião. Uma vez iniciado o processo de reprodução não existe um estágio mais importante do que outro. Todos são partes de um processo contínuo...”.

Visão biológica
Do ponto de vista biológico, não há consenso quanto ao conceito de embrião. Em termos genéticos pode dizer-se que, a partir do momento em que há fecundação, esse patrimônio único e o sexo do ser que daí se vai desenvolver estão definidos e são, consequentemente, passíveis de qualquer estudo genético.

Manifestando um ponto de vista estritamente médico, há quem defenda que “uma vez ocorrida a concepção, começou a existência de uma vida humana individual, que é um contínuo progressivo permanente, até que a morte natural ou artificial ocorra”, enquanto outros autores há que, fazendo a ponte entre a genética e a filosofia, afirmam que a vida humana tem início na fertilização.

Visão ontológica
Durante cerca de 2000 anos, os ensinamentos de Aristóteles serviram de base para o entendimento da origem do ser humano individual.

Aristóteles pensava haver uma resposta científica direta quanto à questão do desenvolvimento no feto, de vários tipos de alma ou vida, considerando a vida racional exclusiva dos humanos. Assim, atribuía ao embrião recém-formado um tipo de vida apenas vegetal (alma vegetativa), que passaria a animal (alma sensitiva) para, apenas aos 40 e 90 dias, consoante fosse de homem ou de mulher, o feto ser capaz de adquirir vida racional ou mental. Para Aristóteles, a alma racional só se uniria ao embrião, se e quando esse adquirisse um aspecto humano.

Na Idade Média, Santo Agostinho retomou a questão anterior numa abordagem já claramente cristã, mas apenas para fazer a distinção entre feto animado e não animado; aproveitou, em certa medida, a filosofia Aristotélica, com a diferença de que os seus pressupostos, em vez de empíricos, eram baseados especificamente na idéia religiosa de alma imortal e salva pela fé.

Nesta linha de pensamento, a Igreja Católica tem uma posição inequívoca - a vida (ou alma) do ser humano provém de Deus e a vida humana é sagrada desde o seu início até a morte.

Visão filosófica
A questão mais delicada quanto ao tema em termos filosóficos, é a da definição de “vida humana”. Se, por norma, os problemas éticos relativos ao embrião humano surgem quando se quer definir exatamente o momento em que se inicia a vida humana, para alguns autores será necessário entender “vida humana” no sentido de “vida pessoal”, enquanto outros questionarão ainda “Que ser é o embrião humano?”. Segundo Mary Warnock, talvez um modo de simplificar toda esta questão do início de vida humana ou de pessoa fosse estimar em que estágio de desenvolvimento do embrião este adquire o estatuto de “moralmente” significativo ou, dito de outro modo, a partir de que altura é que se deve começar a tratar um embrião com o mesmo respeito com que se trata qualquer outro ser humano.

H. Tristam Engelhardt Jr. assume uma posição oposta à da Igreja Católica, considerando frontalmente que o embrião não é pessoa desde o momento da concepção e distingue ainda dois conceitos que são, habitualmente, tomados como sinônimos: ser humano e pessoa. Afirmando que “somente as pessoas escrevem ou lêem livros de filosofia”, pensa que para um ente ser considerado pessoa, tem de ser consciente, racional, livre, autônomo e responsável.

Além destas duas posições basicamente opostas sobre o embrião, há outras intermédias, que valorizam o “potencial”, ou o de “pessoa potencial”. Segundo Paul Ricoeur, a expressão “pessoa potencial”, como resposta à clássica questão de “O que é um embrião? permite “escapar ao caráter dicotômico das considerações ético-ontológicas” o que, em linguagem simples, significa apenas que o embrião não é pessoa nem coisa. Desta noção de pessoa potencial pode inferir-se que o embrião não é pessoa - durante as primeiras semanas do seu desenvolvimento não possui sensibilidade, consciência, nem relação com o meio exterior, só à medida que a embriogênese se vai processando é que aquele ser humano vai adquirindo as condições biológicas e ambientais que lhe permitam vir a ser pessoa; por outro lado, o embrião não pode ser reduzido a coisa, pois tem origem humana e tornar-se-á pessoa, se para isso tiver condições favoráveis. A posição de que o embrião deve ser respeitado como pessoa e ser humano potencial desde o momento da concepção foi também adotada pelo Comité Consultatif National d’Éthique pour les Sciences de la Vie et de la Santé francês, que definiu pessoa como “o único animal que se recorda do seu avô”.

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Fonte:
EDILSON FREIRE DA SILVA: “VIDA HUMANA E O CRIME DE ABORTAMENTO” (Dissertação apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Direito na área de Relações Sociais, sob a orientação da Profª Drª Maria Celeste Cordeiro Leite Santos). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2010.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

"Anomalia e crise" em Thomas Kuhn

“O exercício da ciência normal admite a percepção de anomalias, fato ligado à característica de relaxamento das restrições impostas pelo paradigma, conforme explicitado na seção anterior. Portanto, o adjetivo “normal” para designar o período em que a pesquisa acontece de forma persistente e determinada, segundo as indicações do paradigma, não indica uma rotina em que os imprevistos estão afastados. A crise é provocada pela desorientação da ciência normal quando as anomalias resistem ao trabalho do cientista em enquadrá-las nos preceitos ditados pelo paradigma

[...] a ciência normal freqüentemente suprime novidades fundamentais [...] não obstante, na medida em que esses compromissos retêm um elemento de arbitrariedade, a própria natureza da ciência normal assegura que e a novidade não será suprimida por muito tempo. Algumas vezes um problema comum [...] resiste ao ataque violento e reiterado dos membros mais hábeis do grupo [...] em outras ocasiões, uma peça de equipamento, projetada para fins da pesquisa normal, não funciona segundo a maneira antecipada [...] Desta e de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. (KUHN, 2001, p.24-25)

O exercício da ciência normal tem um papel regulador no desenvolvimento da pesquisa científica; ao mesmo tempo é inerente à sua natureza assegurar que a novidade apareça, provocando desequilíbrios. Regular e desequilibrar podem parecer ações paradoxais, entretanto essa combinação constitui-se na força motriz do desenvolvimento científico. Essa aparente contradição revela a presença do cientista como elemento imprescindível deste desenvolvimento. O elemento de arbitrariedade, citado por Kuhn, localiza-se naqueles que assumem o compromisso com a ciência normal, ou seja, os cientistas. O desenvolvimento científico não é determinado apenas pela observação e pela experiência. Elementos, como a história pessoal dos cientistas, ajudam a formular as crenças que a comunidade científica possui em determinada época e constituem os aspectos denominados por Kuhn como “[...] aparentemente arbitrários [...]” (KUHN, 2001, p.23)

Certamente há uma relação estreita e interdependente entre ciência normal e anomalia. Pode-se caracterizar a ciência normal como uma atividade de caráter rígido, estável, que, como já exposto, é regulada e direcionada, exigindo dos cientistas o compromisso em manter a pesquisa no âmbito dos limites impostos pelo paradigma. A anomalia, por sua vez, é elemento implícito na ciência normal. Entretanto, ela é, também, um fator de perturbação, de instabilidade que se instala no exercício da ciência normal.

Depois que elas [novidades fundamentais relativas a fatos e teorias] se incorporam à ciência, o empreendimento científico nunca mais é o mesmo – ao menos para os especialistas cujo campo de estudo é afetado por essas novidades. (KUHN, 2001, p.78)

Pressupõe-se que ciência normal e anomalia não sobrevivem uma sem a outra A ciência normal sem a presença da anomalia seria puro exercício de repetição. O próprio conceito de quebra-cabeças impõe a presença de desafios que se colocam aos cientistas. Esses quebra-cabeças podem ser resolvidos pelo paradigma, podem ser deixados de lado para servirem como objeto de pesquisa futura ou podem perturbar de tal forma o exercício da ciência normal, que sua presença torna necessária uma nova abordagem. Este processo pode levar a uma mudança de paradigma, denominada por Kuhn como Revolução Científica.

O objeto da pesquisa científica é a natureza e seus fenômenos. A complexidade da natureza com a qual a ciência se depara no processo de pesquisa, abre espaço para que cada vez mais novos fenômenos sejam descobertos.

Kuhn denomina como fatos os fenômenos que são descobertos durante o exercício da ciência normal e que não eram esperados ou previstos; denomina como teorias, as invenções que os cientistas propõem para a pesquisa científica, embora o autor afirme que a distinção entre descoberta e invenção seja artificial. O desenvolvimento histórico sugere que a ciência normal sempre é sobressaltada por fatos insuspeitados, pelos quais os cientistas são pegos de surpresa. Quando Kuhn enuncia por meio de um argumento circular, que “[...] é preciso que a pesquisa orientada por um paradigma seja um meio particularmente eficaz de induzir a mudanças nesses mesmos paradigmas que a orientam”(KUHN, 2001, p. 78), está confirmando a relação necessária entre a regularidade da pesquisa científica e a produção de fatos.

Muitos eventos aparecem e reaparecem periodicamente, fazendo com que as descobertas não sejam fatos isolados. O que faz com que um fato seja considerado uma descoberta a ser pesquisada e estudada pela pesquisa científica é a consciência da anomalia, ou seja, a percepção clara de que algo não está bem com a ciência normal. Ao ferir as expectativas que o paradigma originou, a anoma lia obriga os cientistas a explorarem a área em que ela surgiu. Entretanto, o novo fato só será considerado científico, quando o cientista aprender a ver o mundo de uma outra forma. Essa relação entre fato e teoria, apontada por Kuhn, demonstra como a tentativa de distinção entre descoberta e invenção é artificial, isto é, fatos e teorias estão entrelaçados. Não basta aparecerem novos fatos; os cientistas precisam propor quebra-cabeças, de acordo com os pressupostos teóricos, para eliminar a anomalia. Se a anomalia se mostra resistente, a desorientação, que inicialmente seria eliminada, instala-se no exercício da ciência normal.

Quando a anomalia se instala de forma irreversível, de modo que os cientistas não conseguem enquadrá- la na teoria vigente, ela contribui para a mudança de paradigma. A simples assimilação da anomalia pela ciência normal permite uma ampliação do número de fenômenos tratados pelos cientistas, além de uma maior precisão sobre os fenômenos antes tratados. Essa alteração construtiva só é possível pela modificação ou substituição de crenças ou procedimentos antes adotados. Entretanto, outros fatores contribuem para o questionamento do paradigma, como a interferência de eventos externos à comunidade científica. Na ERC, Kuhn trata da instalação irreversível de uma anomalia que culmina na crise e esta pode conduzir ao processo da Revolução Científica. A seguir apresenta-se a caracterização do período crítico no exercício da ciência normal.

Kuhn garante que a consciência da anomalia permite o aparecimento de novos fenômenos e a possibilidade de descobertas científicas aos olhos dos cientistas. Uma consciência mais profunda da anomalia é pré-requisito para as mudanças de teorias, desde que a nova teoria, ao aparecer, proponha promessas inquestioná veis de sucesso. Alguns exemplos citados pelo autor ilustram esse caminho:

A astronomia ptolomaica estava numa situação escandalosa, antes dos trabalhos de Copérnico. As contribuições de Galileu ao estudo do movimento estão estreitamente relacionadas com as dificuldades descobertas na teoria aristotélica pelos críticos escolásticos [...] A Termodinâmica nasceu da colisão de duas teorias físicas existentes no século XIX e a Mecânica Quântica de diversas dificuldades que rodeavam os calores específicos, o efeito fotoelétrico e a radiação de um corpo negro [...] Além disso, em todos esses casos, exceto no de Newton, a consciência da anomalia persistira por tanto tempo e penetrara tão profundamente na comunidade científica que é possível descrever os campos por ela afetados como em estado de crise crescente [...] (KUHN, 2001, p. 94-95)

Com relação ao sistema ptolomaico, fatores de ordem externa, além da consciência da anomalia e das tentativas infrutíferas no sentido de sua eliminação, levaram, mesmo que lentamente, à instalação de uma crise e à mudança de paradigma. A título de exemplo, pode-se citar a pressão social para a reforma do calendário. Este foi um dos fatores externos que influenciou a substituição do modelo cosmológico geocêntrico de Ptolomeu, pelo modelo heliocêntrico de Copérnico. No entanto, os fatores de ordem externa, mesmo importantes, não são determinantes; no centro da crise está o fracasso técnico. Kuhn não faz uma análise profunda sobre as influências de fatores externos na mudança de paradigma e alega que essa discussão não está nos propósitos do seu trabalho.

Muitas das soluções dos problemas enfrentados pela pesquisa normal apareceram bem antes de sua adoção. Entretanto, foram ignoradas porque, no momento em que surgiram, a pesquisa normal não se encontrava em crise. Reforça-se o papel fundamental que a crise tem no desenvolvimento científico.

Um exemplo claro é o de Aristarco, no século três antes de Cristo. Aristarco antecipara o modelo cosmológico heliocêntrico. Entretanto foi ignorado, porque o modelo ptolomaico resolvia muito bem os problemas da época, que dependiam de uma concepção cosmológica. Não havia sentido considerar uma mudança de orientação.

Além de demonstrar a importância da crise, o exemplo de Aristarco reforça a característica funcional da contextualização do paradigma. Kuhn reforça a importância de não prescindir da atenção ao papel do contexto histórico ao se falar em desenvolvimento científico, declarando:

“[...] Afirma -se freqüentemente que se a ciência grega tivesse sido menos dedutiva e menos dominada por dogmas, a astronomia heliocêntrica, poderia ter iniciado seu desenvolvimento dezoito séculos antes. Mas isso equivale a ignorar todo o contexto histórico. Quando a sugestão de Aristarco foi feita, o sistema geocêntrico, que era muito mais razoável do que o heliocêntrico, não apresentava qualquer problema que pudesse ser solucionado por este último”. (KUHN, 2001, pp. 103-104)

As crises “[...] indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos [...]” (KUHN, 2001, p. 105) e este é o seu exato significado. As crises provocam desequilíbrio, contudo não impedem que os cientistas resistam a elas.

Uma das formas dos cientistas reagirem à crise é não desistirem de sua pesquisa na forma como está sendo realizada. Para isso, os cientistas não renunciam ao paradigma sob o qual desenvolvem suas pesquisas, mesmo que estejam com suas convicções abaladas e permitam-se considerar alternativas. Além disso, “[...] não tratam as anomalias como contra-exemplos do paradigma” (KUHN, 2001, p.107).

Há uma forte razão para que os cientistas não abandonem o paradigma, quando as anomalias ou os contra-exemplos aparecem. Caso os cientistas assumissem a renúncia ao paradigma apenas por estes fatores, não seriam mais cientistas.

O estudo histórico permite perceber que a rejeição a um paradigma só acontece quando um outro se coloca em substituição. Certamente, o novo paradigma deverá apresentar promessas de solução aos problemas postos pelas novas descobertas. Isso implica que os paradigmas são comparados entre si, além de passarem por uma comparação com a natureza.”

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É isso!


Fonte:
LILIAM FERREIRA MANOCCHI: "PARADIGMAS EM KUHN: CONTEXTO, IMAGEM E AÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA". (Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Filosofia, sob a orientação do Professor Doutor Edelcio Gonçalves de Souza). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2006.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Lombroso no século XXI

A persistência das idéias lombrosianas no século XXI

Em ‘Recordação a Casa dos Mortos’, Dostoievski, já dizia que há indivíduos irrecuperáveis. Influenciados por essa opinião, os criminalistas Lombroso e Ferri, criadores da Escola Penal Positivista, teorizavam que existe um sujeito que nasce predisposto ao crime. (...) ‘A ocasião não faz o Ladrão; O ladrão já nasce feito’. É curial que fatores exógenos (desequilíbrio social, concentração de renda, falta de educação e de assistência médica, analfabetismo, drogas, alcoolismo e miséria) são causas preponderantes da etiologia do crime. Mas não podemos descartar e minimizar os fatores endógenos, como genéticos, hereditários e personalizados.

Esse artigo publicado pelo Jornal do Commercio em março de 2007 e escrito pelo advogado Arthur Carvalho, dirigente de um escritório de advocacia no Estado de Pernambuco, demonstra argumentos lombrosianos ainda vivos na teoria criminológica.

A ligação dos criminologistas contemporâneos com o lombrosionismo pode estar atrelada à propagação dessa teoria em outras áreas de conhecimento como Sociologia, Antropologia, História, Medicina e Direito. A roupagem atual da discussão ainda debruça-se nas explicações sobre violência, identificação forense e métodos preventivos da delinqüência.

Essa união da Criminologia lombrosiana com a atualidade pode ser explicada pelos cursos de graduação em Direito que, desde o século XIX, oferecem em sua grade curricular a Criminologia como disciplina que discute a origem do Direito Penal positivista. Cesare Lombroso, fundador da Antropologia Criminal, relacionou às características da anatomia humana a propensão à delinqüência, o que contribuiu para elaborar uma metodologia de identificação científica estereotipada e rodeada de pré-julgamentos do perito com relação ao corpo analisado. Tudo que fosse disforme, assimétrico ou estivesse dentro dos estigmas atávicos, os quais discutimos ao longo do trabalho, eram rotulados de degenerados pelos estudiosos discípulos de Lombroso.

O artigo de Arthur Carvalho ilustra a persistência do pensamento lombrosiano não apenas entre os juristas, mas em meio ao olhar da imprensa que se dispõe à publicação sob a idéia de estar preocupada com os índices atuais da violência social.

Em outro trecho do mesmo artigo, Arthur Carvalho embasa seu discurso lombrosianista ao distinguir o cidadão de bem do indivíduo de índole má:

O problema social é uma coisa, índole má é outra. (...) A situação como está é que não pode continuar. O cidadão pacato e de bem, que paga imposto, produz para a nação e tem família para criar não deve ficar a mercê da bandidagem, de um pivete qualquer, que tire sua vida covarde e impunemente. A certeza da impunidade é um incentivo ao crime. A literatura brasileira e a estrangeira são ricas em personagens lombrosianas – pessoas intrinsecamente perversas que nasceram propensas à prática de crimes escabrosos. (CARVALHO, 2007, p. 11)

O discurso, que nos remonta à narrativa criminológica elaborada no século XIX, sobreviveu às críticas e modificações no século XX e continua a operar na metodologia de identificação forense do século XXI. O receio do comportamento anti-social nos reporta à necessidade da Humanidade de criar mecanismos para disciplinar os cidadãos, como escolas, penitenciárias, hospitais psiquiátricos, orfanatos, entre outros que foram e ainda são redutos de ordenamento e controle. Com esses institutos de modelagem da conduta populacional, o poder estatal procurou base para legitimar-se, estruturando o conceito de ordem pública e os parâmetros morais. (FOUCAUT, 2001, p.50).

Ao poucos, o conceito de justiça estatutária e os métodos de identificação foram revestindo-se de licitude, passando a ser aceitos pela população como mecanismo necessário para impetrar o poder do Estado.

Mas, devemos estar cientes de que a justiça é um produto de construção cultural, variando conforme o conceito de crime e os parâmetros culturais da sociedade que o emprega. Ao percebermos essa variante teórica, nos atemos ao que a metodologia penal estava delimitada conforme as necessidades de cada grupo social. A padronização das penas abriu espaço para as demais ciências voltadas ao estudo forense, que procurou enquadrar o corpo humano às normas penais.

O corpo humano domina-se pelo olhar da vigilância social, no entanto, agora, sem sofrer diretamente com a punição física, o corpo seria alvo dos estigmas excludentes proferidos pelas teorias que suscitaram os meios de identificação. (FOUCAULT, 1987, p.80). Representava a passagem dos antigos moldes punitivos dos suplícios para o modelo de penas limpas, sem sangue, sem torturas, mas recheados de estereótipos. (FOUCAULT, 1987, p.166).

No que diz respeito à Escola Clássica do Direito Penal destacam-se os postulados que deram roupagem às teorias biodeterministas do séc. XIX: a finalidade do poder judiciário é reabilitar o transgressor ao convívio social. Para isto, a ciência penal ansiava por estudos voltados às necessidades sociais. Ganhava terreno às teorias biodeterministas que viriam fermentar a discussão sobre criminalidade, suas causas e artifícios científicos para controlá-la. Esse seria o início da elaboração dos métodos científicos de identificação humana, difundidos pela Criminologia e, no século XX, adotados pelo sistema Judiciário como mecanismo de delimitação da criminalidade.

Os estereótipos raciais, doenças mentais e aparência física assimétrica, entre outros desacertos humanos, passam a integrar as fichas de identificação criminal. A delegacia de polícia adota as fichas de identificação como forma de facilitar o trabalho de catalogação, mas o Poder Judiciário sente a necessidade de ampliar o diagnóstico da identificação criminal. Em 1909, o GIEC é criado no Brasil abertamente declarado como propagador dos meios científicos lombrosianos de identificação, unindo-se ao IML para compor o inquérito policial.

Na década de 1920, o lombrosianismo retoma o fôlego na área acadêmica com a Biotipologia Criminal e a Endocrinologia Criminal, ampliando a análise das fichas de identificação forense, empregando outros métodos para diagnosticar o degenerado. As teses da Faculdade de Direito e Medicina de Pernambuco passam a discutir a inclusão das teorias neolombrosianas nos métodos de identificação criminal.

O GIEC incorpora parte do que estava sendo discutido pela Biotipologia Criminal em suas fichas de identificação, até porque não possuía equipamento necessário para uma análise biométrica completa, o que era um ponto de reivindicação constante de seus peritos. Como vimos no terceiro capítulo, o laudo do IML adotou os exames de sangue e a figura sinalética utilizada para estudos craniométricos por, também, não dispor de estrutura perícial necessária para empregar a Endocrinologia Criminal. Entretanto, tanto o GIEC quanto o IML até hoje empregam os mesmos métodos de identificação forense, o mesmo modelo da ficha de identificação, a mesma figura no laudo médico-legal. Lombroso e sua teoria do criminoso-nato ofereceram base aos métodos de identificação utilizados por todo o sistema penal.

Acreditamos que mesmo a teoria de Lombroso tendo ressurgido em trinta com novas técnicas de identificação criminal e contendo o mesmo sabor ácido de exclusão social, ela contribuiu para formular a metodologia de identificação utilizada até hoje em todos os níveis do Poder Judiciário: delegacia, instituições correcionais, entre outros mecanismos. As fichas sinaléticas, a datiloscopia e as técnicas de biometria ainda são empregadas em diferentes locais, tendo permeado as instituições educacionais, empresas, hospitais, entre outros locais que necessitem controle e ordem. Tanto as fichas de identificação do GIEC (atualmente IITB em Pernambuco), quanto os laudos traumatológicos do IML, ainda possuem o mesmo modelo formulado no século XX.

Atualmente, a discussão lombrosiana sobre criminalidade e sua idéia de ligação com biológico humano ainda seduz discípulos. No artigo escrito do Jornal do Commercio por Arthur Carvalho – anteriormente citado - nos deparamos com uma Antropologia Criminal vigente, num Lombroso que se encontra no século XXI. Entendemos que a conotação dada a essas discussões judiciárias atuais possuem um olhar diverso do olhar oferecido pela ciência do século XIX, mas que ainda insiste em conservar-se, retirando a responsabilidade do transgressor para colocá-la em questões externas (como a condição biológica). Arthur Carvalho traduz o incomodo sentido pelas classes mais favorecidas, habitantes dos bairros nobres da capital pernambucana, circundada pela pobreza, responsável pelo crescimento da criminalidade:

Nos arrabaldes miseráveis do Recife, as gangues de marginais agem com liberdade, diante da impotência da policia para combatê-las eficazmente e o índice de homicídios cresce todos os anos, praticados por grupos de extermínios, assaltantes mirins e juvenis habitantes de mangues, alagados, palafitas e barracos infectos circunvizinhos dos bairros nobres. (CARVALHO, 2007).

Outro exemplo da atualidade da discussão lombrosiana está na capa da revista Veja, de circulação nacional, a qual publicou uma edição especial no primeiro mês do ano de 2007 sobre criminalidade. Nessa edição, procurou apresentar o crime e suas causas distribuídas em quase 50 páginas, subdivididas em 10 artigos.

Nessa edição, Lombroso é reconhecido como precursor da ciência criminal, no entanto, há críticas feitas pelo colunista João Neto sobre a forma pela qual a ciência forense lombrosiana determina o conceito do criminoso nato. (JERÔNIMO NETO, 2007, p.82).

No artigo Crueldade nas Veias, o autor Jerônimo Neto procura traçar o perfil dos criminosos considerados psicopatas pela psiquiatria forense, realizando um apanhado dos estudos científicos sobre criminalidade desde o século XIX. Lombroso e a teoria do criminoso-nato são apresentadas por Jerônimo como uma falácia teórica, já que não há como identificar por feições anatômicas o atavismo degenerado. Diz:

A busca de um tipo físico característico do criminoso, que orientou grande parte da ciência forense no século XIX, foi um fracasso completo. Não há como identificar um assassino ou um ladrão apenas pela configuração de seu crânio ou de suas feições faciais, como acreditava Cesárea Lombroso (1835-1909). Muito influente em seu tempo – inclusive no Brasil- a teoria de Lombroso atribuía o crime a um atavismo, uma decorrência de tendências primitivas que os seres humanos ‘normais’ teriam superado no curso da evolução. Por esse raciocínio, o criminoso estaria mais próximo dos animais do que o restante dos homens. E teriam marcas físicas diferenciadas. Se o formato das orelhas ou da mandíbula fosse mesmo indicador de comportamento criminoso, o trabalho da policia seria bem mais fácil. (JERÔNIMO NETO, 2007, p. 83).

Mais adiante nesse mesmo artigo, Jerônimo defende o endurecimento da legislação penal e sua aplicabilidade, uma vez que para ele o indivíduo é responsável pela decisão de cometer o delito. Significa dizer que as condições sociais ou biológicas pouco interferem na escolha de realizar a transgressão. Essa posição de culpabilidade do infrator com relação à infração difere da idéia de criminoso nato, a qual apresentava como responsável às condições biotípicas e endógenas do organismo humano.

Segundo Jerônimo Neto, atualmente há estudos neurológicos que utilizam equipamentos sofisticados para o mapeamento cerebral desses indivíduos, ainda como ocorria com os estudos lombrosianos, procurando explicações científicas para o comportamento delinqüente. A semelhança entre estes a ciência atual e a tese lombrosiana está no estudo do cérebro e variações hormonais.

Mesmo discordando da doutrina lombrosiana em seu artigo, Jerônimo acaba por apresentar que esses estudos neurológicos realizados em psicopatas no Brasil e Estados Unidos procuram apresentar disfunções genéticas para o comportamento delinqüente. A ciência biodeterminista do século XIX e as pesquisas genéticas atuais parecem buscar a explicação para a conduta criminosa ainda nos fatores biotipológicos, comparando os resultados desses exames dos “normais” com os “psicopatas”. Entretanto, os fatores sociais que desencadeariam a psicopatologia estariam ligados a abusos físicos sofridos na infância.

Ao questionar as causas da psicopatia, Jerônimo caminha para as problemáticas: seria uma deficiência psiquiátrica, uma influência do meio ou um somatório dos dois fatores? Em meio a esse questionamento, o artigo nos revela metodologia dos estudos lombrosianos ainda empregados pela neurologia atual: formar um grupo de pessoas para exames detalhados de seu comportamento social e cerebral com o anseio de encontrar resquícios da conduta anti-social.

E o que dizer dos 80% de criminosos não psicopatas que estão nas cadeias? São bandidos por natureza ou por influência do ambiente? Esse ainda é um tópico para discussões inflamadas, frequentemente temperadas por algum argumento ideológico. (...) Um estudo realizado em 2002, na Nova Zelândia, com mais de 400 homens, aponta para relações bem mais complexas entre genética e ambiente na formação da violência. A atividade de gene específico chamado de MAOA foi examinada. Em algumas pessoas, o gene é mais ativo do que em outras- cerca de 37% dos homens possuem o gene de baixa atividade. (JERÔNIMO NETO, 2007, p. 85).

Analisando a opinião local de Arthur Carvalho com o artigo de Jerônimo Neto podemos perceber uma diferença entre sua forma de apresentar o lombrosionismo. Ambos são artigos escritos no ano de 2007, mas com posições ideológicas diferentes. Arthur ainda reproduz as idéias lombrosianas, onde indivíduos possuiriam fatores endógenos de perversão social, enquanto Jerônimo apresenta a Antropologia Criminal como um equívoco científico do séc. XIX, já que seria difícil encontrar um padrão fisionômico do criminoso.

Os estigmas que essas palavras exalam refletem a idéia que ainda permeia a alma de parte da nossa sociedade excludente e impregnada de estereótipos. De certa forma, ainda hoje encontramos pessoas que associam o caos urbano a algum tipo de desvio congênito, a tal “índole” criminosa."

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É isso!


Fonte:
ELAINE MARIA GERALDO DOS SANTOS: “A FACE CRIMINOSA O NEOLOMBROSIANISMO NO RECIFE DA DÉCADA DE 1930”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito para obtenção do título de Mestre em História. Orientador: Prof. Dr. Carlos Alberto Cunha Miranda). Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2008.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

O Darwin que muitos não querem ver

“Ao contrário do que alguns ainda podem imaginar, as bases da história evolutiva moderna não se fizeram exclusivamente sobre o estudo dos animais e plantas in natura. Muitos dos fatores mais importantes utilizados nas discussões evolutivas são provenientes das observações relacionadas às sociedades humanas.

Freqüentemente, Charles Darwin em A Origem do Homem faz comparações entre humanos (civilizados e selvagens) e outros animais, sempre que possível correlacionando os grupos, populações e sociedades. Ridley (2004) afirma que Darwin foi pioneiro na idéia de procurar o caráter do homem no comportamento do macaco, além de ter tentado demonstrar que existem características universais presentes em todos os humanos, como sorrir ou sentir raiva. Ao mesmo tempo em que Darwin perseguia a ancestralidade comum dos homens, conseguiu deixar um rastro de preconceito onde quer que tenham chegado os seus escritos.

Há uma carta de Karl Marx para Engels em que o autor de o Capital ironiza as teorias darwinianas, taxando-as de mera cópia para os animais e plantas do modelo da sociedade inglesa da época (Freire-Maia, 1988). O próprio Friedrich Engels (1979) criticou contundentemente as idéias de Charles Darwin, alertando para os perigos da transposição de teorias reacionárias e questionáveis da esfera humana para a história natural, revertendo-as posteriormente em “história da sociedade”. As preocupações de alguns “sociólogos” em relação às teorias darwinistas estiveram presentes nas primeiras divulgações de A Origem das Espécies. O mote da polêmica foi provavelmente a consonância entre evolução biológica e capitalismo selvagem.

Além de se referir ao longo tempo que Charles Darwin levou para divulgar seu trabalho, os biólogos evolucionistas comumente ressaltam que após a leitura do ensaio de Malthus, Darwin finalmente conseguiu identificar um agente para a seleção natural.

É fato que a obra de Charles Darwin tem forte raiz na teoria econômica moderna e nas formas precursoras do capitalismo que hoje conhecemos. Negar estas correlações não é conveniente na análise dos próprios rumos tomados pelas teorias evolutivas “pós-darwinistas”.

Matt Ridley (2000) afirma que Thomas Hobbes foi o antepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta e, ao apresentar sua “genealogia de influências”, revela que muitos conceitos econômico-ocidentais devem continuar a ocupar um nicho epistemológico na biologia moderna (porventura na pós-moderna...):

Hobbes (1651) gerou David Hume (1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerou Thomas Robert Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foi depois de ler Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competição entre grupos e passou a pensar sobre competição entre indivíduos... O diagnóstico hobbesiano – embora não a receita – ainda está no centro tanto da economia quanto da biologia evolutiva moderna (... Darwin gerou Dawkins) (Ridley, 2000, p. 284).

Darwin observava com maior facilidade (talvez todos nós) as relações entre populações distintas – raposas perseguindo faisões ou gatos devorando ratos. A evolução, contudo, não poderia ser explicada “apenas” sob este aspecto. A análise mais atenta do naturalista levou-o a conclusão que a evolução só poderia ocorrer através da variedade presente nos indivíduos da mesma espécie e a conseqüente competição intra-específica, que acarretaria no favorecimento (ou não) de algumas características sobre outras. O ensaio de Malthus “revelou” a Darwin que a competição entre os indivíduos seria inevitável, pelo fato destes necessariamente utilizarem os mesmos recursos. Como conseqüência, Darwin passou a “ter que ver” todas as diferenças possíveis que pudessem desencadear o processo evolutivo. Nesta perspectiva, uma das conclusões alcançadas pela A Origem do Homem é que a seleção natural teria eliminado os seres humanos considerados “fracos de mente”, daí a “baixa” freqüência destes nas populações em geral. Para as proposições darwinistas, todo “estranho” (albinos em uma população negra; baixos em uma população alta etc...) seria efêmero, e esperava-se que deixasse poucos descendentes.

A xenofobia é um tema recorrente em A Origem do Homem. Em muitos trechos Charles Darwin observa que, entre indivíduos de um mesmo povo, pode se esperar fidelidade, mas entre indivíduos de povos diferentes jamais, especialmente entre “selvagens” e “civilizados” (Darwin, 2002). As comparações feitas por Darwin (2002) podem ser interpretadas como uma referência ao maior grau de proximidade entre as “raças inferiores” e os animais em geral. Embora nunca diga isto de forma sistemática ou clara, em alguns trechos da obra, Charles Darwin demonstra seus preconceitos. Ele até considera as “raças bárbaras” próximas das civilizadas, mas não mais do que um símio ou um idiota o são.

A grande tendência, nos nossos afins mais próximos, os símios, nos microcéfalos idiotas e nas raças bárbaras melânicas do gênero humano, em imitar qualquer coisa que ouçam se torna digna de nota... (Darwin, 2002, p. 108- 109 - destaque meu).

Quando é impelido pelo contexto a comparar animais e homens, Darwin (2002) parece preferir fazê-lo entre animais domésticos com homens civilizados e criaturas selvagens com os povos bárbaros e primitivos (ou designados de forma generalizante como “raças melânicas”). Uma das conclusões alcançadas com base nestes tipos de comparações é a de que os domésticos (animais e homens) são mais fecundos e resistentes às doenças e variações do que os selvagens (... também, animais e homens), menos profílicos e frágeis, especialmente quando retirados de seus ambientes naturais.

A sombra perversa do preconceito passeava pela Europa desde o colonialismo ajudando, a criar um cenário ideal para que entrassem em cena o racismo científico e a adoção de classificações que excluíam seres humanos desta condição. A impressão que tenho é a de que Darwin não enxergava tantas diferenças ou, pelo menos, não as enxergava em maior número do que as semelhanças. Talvez pelo fato de estar envolto em uma cultura tradicionalmente racista, Darwin devesse a satisfação social de apontar alguma superioridade européia. É possível que algumas posturas textuais de Darwin se dessem em função dos convencionalismos dos acadêmicos ingleses ou até para tornar o livro mais acessível aos seus elitizados leitores. Todavia, muitos desdobramentos de sua teoria evolutiva serviram como fomento de práticas tão perversas que terminaram por levar o darwinismo ao patamar de um dos grandes algozes da humanidade em todos os tempos (Rose, 2000).

Os fatos observados no final do século XIX até a primeira metade do século XX foram o estopim de uma cultura de guerra há muito instaurada. Nesta perspectiva, responsabilizar unicamente Charles Darwin pela fundamentação científica da intolerância e do extermínio não me parece justo; em outra, minimizar suas influências para algumas das mais terríveis formulações teóricas e práticas dos períodos subseqüentes à divulgação de seus trabalhos é improcedente. Desde sua concepção, o darwinismo foi uma das poucas propostas que obtiveram o demérito de ofender a praticamente todos – a esquerda política, por levantar a possibilidade de determinismo genético; a direita, por solapar os valores tradicionais da sociedade e dos intelectuais em geral, por simplificar e reduzir as ações humanas a atitudes individuas, instintivas e egoístas (Foley, 2003). O desagrado, entretanto, parece ter sido substituído pelo fatalismo de uma verdade que somente foi questionada depois de causar grandes estragos.

A leitura de A Origem do Homem e a Seleção Sexual deixa claro que as portas do racismo científico, eugenia e dominação estavam mais abertas e largas. As discussões sobre as diferenças entre as “raças” estavam na atmosfera científica da época e muitos trabalhos corriam nos meios intelectuais revelando as mais variadas concepções antropológicas. Darwin (2002) refere muitos artigos e ensaios, mas dedica atenção especial aquele que hoje é considerado como um dos maiores aliados para a desigualdade entre as populações - o texto de Galton.

Francis Galton publicou em 1869 Hereditary Genius: and Inquiry into its Laws and Consequences, considerado o texto fundador da eugenia (Schwarcz, 2002) e mencionado por Darwin em A Origem do Homem em 1871. Neste livro, Galton, que era primo de Darwin, busca demonstrar a partir de um método estatístico e de análise genealógica, que a capacidade humana era função da hereditariedade e não da educação. O estudo da hereditariedade iria tornar-se a obsessão de Galton durante sua vida inteira, uma vez que ele não conseguia imaginar nenhum meio melhor de aprimorar o destino, o caráter ou as habilidades dos seres humanos (Rose, 2000).

A associação entre a lei natural proposta por Darwin e as conclusões construídas por Galton eram “compatíveis epistemologicamente”, pois partiam dos mesmos princípios de luta pela vida, sobrevivência dos mais aptos e hereditariedade. Darwin “determina” em A Origem do Homem que

No que tange o intelecto, os indivíduos da mesma espécie são graduados da absoluta imbecilidade à excelência (Darwin, 2002, p. 99).

De onde se abstrai que as características intelectivas eram inatas. Seguindo o curso natural, deve-se esperar que em todos os indivíduos de uma espécie, no caso a humana, existam “variações intelectivas”. Assim sendo, não se podem traçar grupos mais inteligentes ou mais imbecis, já que se espera que os grupos apresentem uma freqüência regular entre “gênios” e “idiotas”. O problema é que Darwin abre um precedente. Ele considera as raças como subespécies e, desta forma, as freqüências de imbecis ou gênios podem variar entre as populações de forma diferenciada. Ele prevê que,

No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo mundo (Darwin, 2002, p. 88)."

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É isso!


Fonte:
EDUARDO PAIVA DE PONTES VIEIRA: “BIOLOGIA, DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS NECESSÁRIOS. (Dissertação apresentada à comissão Julgadora do Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico da Universidade Federal do Pará, sob a orientação da Professora Doutora Silvia Nogueira Chaves, como exigência parcial para Obtenção do título de MESTRE EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS, na área de concentração: Educação em Ciências). Universidade Federal do Pará. Belém, 2006.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Popper condenado por radicalismo

"Se há antiindutivismo e antipsicologismo extremos em Popper, Susan Haack terá tido sucesso em condenar sua proposta epistemológica, bem como a tentativa de complementaridade que Watkins elaborou para tal proposta; se não há, Haack terá errado o alvo por ela mesma armado no horizonte teórico.

Susan Haack filia sua análise ao que chama “epistemologia dominante”, acusa Popper de ter atitude desdenhosa ao tratar tal epistemologia como crença filosófica e salienta que a divergência teórica “é menor, e muito menos simples, que parece”. Enquanto Popper procura focar o conhecimento científico como alvo e, assim, distinguir ciência e não-ciência, a epistemologia de Haack tem um recorte que inclui o conhecimento empírico em geral e, por isso, abre mão da demarcação popperiana, apesar de considerar o conhecimento científico parte do conhecimento empírico em geral. A demarcação de Popper ocorre em relação à ciência/pseudo-ciência e não à filosofia/ciência. Para ele, estes têm o mesmo método; Haack, contudo, parece, como veremos a seguir, negligenciar o objeto da demarcação popperiana.

Ela reconhece que o falibilismo, na filosofia da ciência de Popper, ao sustentar que teorias científicas não podem ser verificadas, confirmadas ou justificadas, mas somente falsificadas ou refutadas, estabeleceu um sentido distintivo que é objetivista, preocupado somente com o conteúdo objetivo das teorias e suas relações lógicas. Segundo essa visão, “cientistas não crêem, nem devem crer em suas teorias; o que importa não é os cientistas acreditarem – isso é uma matéria subjetiva – mas teorias abstratas, proposições, problemas. Isso é, algo ‘objetivo, conhecimento científico’, como Popper usa a frase, para referir”.

Haack toma Popper por cético sigiloso que, ao não aceitar crenças verdadeiras, nega também o conhecimento. O que ele chama de conhecimento objetivo, científico, não é nunca justificado, não deve ser objeto de crença e pode não ser verdadeiro. Segundo Haack, ele não se interessou pelo conceito por pensar que não há crença justificada, e isso por sustentar que ciência é um empreendimento crítico racional, na qual, sempre as teorias estão sujeitas a contestação racional. A crítica negativa demonstra não que a teoria científica verdadeira é verdadeira, mas que a falsa é falsa; e na primeira parte da epistemologia de Popper, “depende da solução ao ‘problema da base empírica’, isto é, o problema do papel da experiência na falsificação”.

Haack argumenta que o problema da base empírica tem solução na proposta funderentista como um estágio adiante do fundacionalismo e que uma meta-epistemologia implica a proposta de uma epistemologia com um sujeito conhecedor. Também pretende traçar as linhas “de uma contribuição relevante para a epistemologia das ciências cognitivas”. Deste modo, apresenta um “naturalismo modesto” que articula uma “concepção gradualista da relação entre filosofia e ciência”. Esta proposta, contudo, terá sua apresentação subordinada a nossa pretensão de debater o problema da base empírica.

Embora Popper tenha deixado margem para o entendimento de que The logic of scientific discovery
propunha que teorias científicas são testadas contra a experiência, depois ele esclareceu ter sustentado a tese de que teorias científicas são testadas, não contra a experiência, mas contra as “proposições básicas”. No contexto da epistemologia popperiana, estas proposições são singulares e reportam à ocorrência de um evento observável em um lugar e tempo específicos. Até aqui Haack descreve Popper, mas sua divergência está na seqüência do argumento, quando este afirma que:

a decisão para aceitar uma proposição básica (...) é causalmente conectada com nossa experiência (...) Mas nós não tentamos justificar proposições básicas com suas experiências. Experiências podem motivar uma decisão e, por isso, uma aceitação ou rejeição de uma proposição, mas uma proposição básica não pode ser justificada por ela – não mais do que batendo na mesa
.

Haack estranha e contesta a afirmação de que proposições básicas não podem ser justificadas ou sustentadas com a experiência, uma vez que Popper afirmou que elas possuem conteúdo observacional e que a decisão científica de aceitá-las pode ser causada pela experiência. É possível, segundo Haack, identificar dois argumentos no texto de Popper, que pretendem sustentar a tese de que “a experiência não pode justificar a aceitação de proposições básicas”. O primeiro afirma que proposições básicas são impregnadas de teorias e que, portanto, o conteúdo da proposição não se esgota na observação, pois sempre há termos universais em relações circunstanciais e hipotéticas. Ex: “aqui está um copo de água”. A justificação de tal proposição implicaria inferências ampliativas com caráter observável para seu futuro; portanto, incorrer-se-ia em indução, condenada por Popper. Tal formulação Haack chama de argumento anti-indutivista por entender que Popper reconhece a existência de evidências não dedutivamente conclusivas. O segundo argumento é identificado, por Haack, como “uma versão da familiar irrelevância do argumento causacional”. A relação causal ocorre entre uma experiência e a aceitação ou rejeição de uma proposição básica, mas não entre a experiência e a proposição básica. Assim, ao vermos um cisne negro, rejeitamos a proposição, mas não faz sentido afirmar que há uma relação de incompatibilidade lógica entre a experiência de ver um cisne negro e a proposição “todos os cisnes são brancos”. Se “a justificação não é uma noção causal ou psicológica, mas lógica”, então, “proposições básicas não podem ser justificadas pela experiência”. Haack nomeará esta defesa como “argumento antipsicologista”.

Apesar de reconhecer que os argumentos são válidos, Haack afirma que “sua conclusão, contudo, é simplesmente inacreditável”. Ela defende que uma proposição do tipo “o homem está com o cachimbo na boca” é aceita no universo científico como sustentada por todos aqueles que vêem o cachimbo na boca do homem. Entretanto, em uma análise epistemologicamente relevante, ela afirma que as experiências perceptuais científicas são consideradas completamente irrelevantes. E isso é um problema. Se uma teoria científica é considerada refutada ou falsificada ao se demonstrar ser incompatível com uma proposição básica aceita, seria o caso de considerar que a aceitação de uma proposição básica no universo científico apoiada em experiências científicas, refuta a epistemologia incompatível. A relevância dessa defesa de Haack é reforçada pela proposição “não existe razão para supor que proposições básicas aceitas são verdadeiras, nem, conseqüentemente, que uma teoria ‘refutada’... é falsa. A ciência não é, afinal de contas, nivelada negativamente sob o controle da experiência”.

Mas Popper sustenta que a aceitação ou rejeição de sentenças básicas não ocorre por elas estarem sustentadas em experiências, mas sim por “decisão” ou “convenção”, da qual participam os membros da comunidade científica. Isso, contudo, não é plausível com a posição popperiana de que o convencionalismo é observacional e não-arbitrário, mesmo tratando a aceitação ou rejeição de sentença básica como conjectural e reversível, de tal forma que, em havendo desacordo, a proposição em questão pode ser testada contra outra proposição básica. Haack acha que, quando Popper apela ao ‘testável’ como relevante para decisão de que são tanto injustificadas quanto injustificáveis, ele é tendencioso, tanto que “Ayer protesta [dizendo] que a tese de Popper é difícil de acreditar, e insiste (...) que a aceitação de proposições básicas pode ser justificada, talvez não por inteiro ou incorrigivelmente, pela experiência.

Segundo Haack, a resposta de Popper a Ayer, asseverando sua negação de que a decisão para aceitar ou rejeitar uma sentença básica é arbitrária ou imotivada permite interpretar que as experiências não oferecem só motivos, mas também a razão inconclusiva para aceitar ou rejeitar proposições de base. Então Haack avança. E, se conforme a resposta a Ayer, Popper entende que a confiança caracteriza nossas observações, ela afirma: “Isso não é defender, mas abandonar a posição radical adotada em A lógica da pesquisa científica; Popper admite que experiências possam constituir razão para, não só causas, da aceitação ou rejeição de proposições básicas, e que podem ser razões inferidas de dedução conclusiva”. A incongruência agora está, segundo Haack, no fato de Popper ter respondido à objeção de Ayer fazendo o uso do termo “motivação” que se menciona “causalidade pontual” e contrasta com “justificação”, não responde às objeções de Ayer; se menciona “justificação” ou “sustentado com razões”, “constitui a capitulação à objeção” de Ayer.

Poder-se-ia dizer, contudo, como alguém que não entende o debate teórico como cabo-de-guerra, que Popper se deu conta, no debate com Ayer, de certas implicações de sua epistemologia que até então ele não havia percebido, precisamente, que as motivações fornecidas pela experiência são razões para a decisão convencionalista. Mas Haack extrai daí um ponto de acordo entre a posição de Ayer, que não ofereceu resposta aos argumentos contra a justificação, e a de Popper: as conclusões dos dois argumentos popperianos de que a experiência não pode justificar a aceitação de proposições básicas são falsas. Para serem válidos, como foi asseverado por ela, eles devem ter, cada um, pelo menos uma premissa falsa. Segundo Haack,

as premissas do argumento antipsicologista são: [1] que pode ser somente causal, não-lógica, a relação entre uma experiência subjetiva e a aceitação ou rejeição de uma sentença básica e [2] que somente a relação lógica é relevante para a racionalidade da aceitação/rejeição de proposições. A primeira é verdadeira; a segunda é falsa; [enquanto] as premissas do argumento anti-indutivista são: [1] que proposições básicas são carregadas de teoria e [2] que não existe relação de sustentação não-dedutiva, ampliativa. A primeira é verdadeira; a segunda é falsa
.

Essa configuração, contudo, somente aparece porque Haack distinguiu o que Popper tinha tratado como indistinto. Ela supõe que a causa para Popper não ter distinguido os argumentos contra o psicologismo e contra o indutivismo estaria no fato de tal procedimento fragilizá-los. No entanto, devemos lembrar que Popper afirmou a irrelevância da observação para a justificação, ele não afirmou que a convenção não observa logicidade no procedimento de aceitação ou rejeição de uma sentença. Haack, entretanto, parece considerar toda justificação como sendo lógica e toda lógica justificacionista, o que perturba a análise. Mesmo assim, os argumentos que apresenta, parece, devem ser avaliados. Ocorre que as segundas premissas, tanto do primeiro como do segundo argumentos não condizem com a proposta popperiana. Corretamente, Haack identifica-as como falsas, mas elas não representam uma síntese adequada da epistemologia de Popper e, assim, ela está distante de impor o pretensioso xeque-mate ao autor.

Popper teria preferido tratar psicologismo e indutivismo como “dois lados da mesma moeda (verificacionista)”, o que redundou no seguinte raciocínio: “a suposição antipsicologista considera que somente relações lógicas são epistemologicamente relevantes, a suposição antiindutivista considera que somente relações dedutivas são lógicas; juntamente, portanto, isso implica que somente relações logicamente dedutivas são epistemologicamente relevantes”.

A formulação do argumento é válida e, também corretamente, Haack lembra que o antipsicologismo e o antiindutivismo são a condição de sustentabilidade de todo o discurso epistemológico do falibilismo de Popper. Segundo ela, a distinção entre descoberta e justificação e a difamação do contexto da descoberta como envolvendo questões que podem interessar à psicologia ou à sociologia, mas não à filosofia da ciência, bem como sua proposta de “Epistemologia sem um sujeito conhecedor”, evolucionária, em um mundo três, habitado unicamente por proposições e suas relações lógicas, confirmam essa posição.

Ao considerarmos válido o argumento de Haack, cujas premissas do antipsicologismo e antiindutivismo permitem inferir legitimamente que “somente relações logicamente dedutivas são epistemologicamente relevantes”, nos colocamos na obrigação de aceitar sua conclusão; pelo menos, se aceitarmos que suas premissas são verdadeiras. Temos um silogismo categórico que afirma: 1a premissa: Toda relevância epistemológica é lógica; 2ª premissa: Toda lógica é dedutiva; Conclusão: Toda relevância epistemológica é dedutiva. Representada em conjuntos, mais claramente se demonstra a impossibilidade de duvidar da conclusão.

Permanece, porém, a possibilidade de questionar a verdade das premissas, eis o que tentaremos agora, sob pena de concordarmos com Haack de que não há solução ao problema da base empírica nos limites popperianos. A proposta epistemológica de Popper, estando suscetível ao ceticismo profundo, para o qual a ciência não está “nivelada negativamente” ao “controle da experiência” conduz, segundo ela, “a que teorias científicas não podem mais ser demonstradas falsas do que demonstradas verdadeiras”, o que significa um “profundo fracasso” dessa filosofia.

Ocorre que a primeira premissa do argumento de Haack é falsa, ela foi extraída da inadequada formulação do primeiro argumento, e agora o erro se aprofunda. Popper não trabalha com absolutos, suas conjecturas não pretendem totalidades e sua consciência da fragilidade de qualquer proposição não pode ser compreendida senão como um apelo à modéstia. Ele não concordaria com a formulação da primeira premissa do argumento anterior.”

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É isso!


Fonte:
REMI SCHORN: “O PROBLEMA DA VERDADE DO CONHECIMENTO NO RACIONALISMO CRÍTICO”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul como requisito para a obtenção do grau de Doutor em Filosofia. Área: Filosofia do Conhecimento e da Linguagem Orientador: Prof. Dr. Eduardo Luft). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Entre dentes e conveniências

A Teoria da Evolução é, por sua própria lógica e estrutura, a teoria das incertezas. Evolutivamente falando, um “fato” nunca é, na acepção cabal da palavra, um “fato” realmente conclusivo”. Os “fatos evolutivos” geralmente costumam se esvair por entre as nuvens de um novo “fato”, numa eterna e inconclusiva secessão de “fatos”, como numa história sem.

Recentemente divulgou-se que um f
óssil de dentes em Israel poderia mudar a teoria da evolução humana. Embora o achado em si não seja uma ameaça à base gradualista da teoria, ao menos lançaria por terra um “fato”, que durante décadas fora proclamado como fiel e digno de toda aceitação: a origem africana do homo sapiens.

Obviamente que tal notícia desagradou a muitos dos devotos de Darwin. Um deles, por exemplo, expressou-se da seguinte forma:
Morfologia dos dentes pode não ser lá muito segura pra indicar que se trata de H. sapiens - ainda mais que há características distintas”.

Ora, se morfologicamente um fóssil de dente não é lá muito confiável, por que então ele já foi utilizado em muitas ocasiões para corroborar outros "fatos evolutivos", como nos exemplos a seguir, que extrair numa ligeira pesquisa pela Internet?

Não que o “dente de Israel” tenha lá alguma relevância para mim, porém, como perguntar não ofende...

Exemplo 1:
O fóssil de ancestral humano mais controverso do mundo volta a causar polêmica. Um estudo publicado hoje afirma que o Orrorin tugenensis já andava sobre dois pés há 6 milhões de anos. Se confirmada, a descoberta recuará em 1,5 milhão de anos a origem da família humana. Mas há cientistas que duvidem dela. [...] A espécie, representada por fragmentos de dente, ossos da perna e mandíbulas, seria o ascendente mais antigo da humanidade” (Vide).

Exemplo 2:
“Cientistas australianos anunciaram hoje a descoberta do fóssil de um dente de tubarão gigante, animal que desapareceu há vários milhões de anos e media 15 metros de comprimento. O dente foi recuperado por cientistas australianos e neo-zelandeses durante uma expedição no mar da Tasmânia [...] “"O dente está num notável estado de conservação e tem um importante valor científico para compreender melhor a população e a idade destes antigos tubarões", disse Williams. (Vide)

Exemplo 3:
“Um conjunto de dentes pertencente a um réptil pré-histórico indica uma possibilidade sobre como as presas venenosas das cobras evoluíram.” (Vide)

Exemplo 4:
"Paleontólogos espanhóis anunciaram nesta sexta-feira (29) a descoberta de um dente que teria pertencido ao hominídeo mais antigo descoberto na Europa ocidental, há mais de um milhão de anos [...] Este dente, um pré-molar inferior um pouco gasto, pertencia provavelmente a um indivíduo de entre 20 e 25 anos, segundo José María Bermúdez de Castro, um dos três paleontólogos que dirigem os trabalhos.” (Vide)

Exemplo 5:
“Nunca é tarde para ir ao dentista pela primeira vez. Que o digam os mamíferos de 60 milhões de anos da bacia de Itaboraí (RJ), cujo esmalte passou por um check-up completo nas mãos de um dentista e de uma paleontóloga. O diagnóstico: os bichos criaram um sistema eficiente para comer plantas, permitindo que eles começassem a ocupar o papel de grandes herbívoros, vago por causa da extinção dos dinossauros.” (Vide)

Exemplo 6:
Um dente de 40 mil anos encontrado na Grécia sugere que os neandertais eram mais móveis do que se imaginava. A composição química do fóssil, estudada por cientistas da Sociedade Max Planck (Alemanha), mostra que o indivíduo passou ao menos parte da sua vida longe de onde morreu.” (Vide)

Exemplo 7:
“Pesquisadores costarriquenhos descobriram um pequeno dente fossilizado de um mamífero marinho que viveu há mais de cinco milhões de anos, o Desmostylus hesperus. Segundo um dos especialistas responsáveis pelo trabalho, o animal é o vertebrado terrestre mais antigo já descrito na Costa Rica [...] O dente do Desmostylus hesperus surpreendeu os geólogos porque, pela primeira vez, restos deste animal foram encontrados em uma região tropical. Os poucos fósseis do mamífero achados até agora no mundo estavam no Japão, na Rússia, nos Estados Unidos e no México.” (Vide)

Exemplo 8:
"Um punhado de fragmentos fossilizados, vindos do Acre, podem ajudar a quebrar uma estranha escrita: o Brasil, país com maior número de espécies de macacos do mundo, não tem praticamente nenhum registro da evolução desses bichos. A simples descrição dos caquinhos acaba de revelar dois novos símios fósseis, os mais antigos já descobertos em território brasileiro [...] Pode parecer exagerado designar uma nova espécie com base em tão poucos restos, mas a anatomia dos dentes e do maxilar (no caso do Solimoea, um molar e dois pré-molares encravados num caco da parte da frente da bochecha direita) costuma ser específica o suficiente para trazer um caminhão de informações." (Vide)

Exemplo 9:
"Nós achamos restos de dente e osso de um recém-nascido num dos coprólitos", conta Souto. "Aparentemente, quem cuidava dos diferentes ninhos competia entre si comendo os filhotes do outro -um comportamento que existe ainda hoje entre crocodilos", afirma o pesquisador." (Vide)

Exemplo 10:
"Um fóssil contrabandeado do Ceará para a França deu a um grupo de paleontólogos europeus a oportunidade rara de flagrar um momento da vida privada dos dinossauros: a hora do almoço. Os ossos indicam que uma espécie de dino que habitou a chapada do Araripe há 100 milhões de anos incluía répteis alados na sua dieta [...] Enterrado em uma delas está um dente quebrado que a equipe liderada por Eric Buffetaut, do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Científica), em Paris, identificou como pertencente a um espinossauro. E aí está a surpresa: achava-se que esse tipo de dinossauro fosse um inveterado comedor de peixes." (Vide)

Exemplo 11:
Os dinossauros cuspidores de veneno do filme "Parque dos Dinossauros" eram pura invenção de Hollywood, mas alguns desses animais podem realmente ter tido uma mordida venenosa. A revelação vem de um dente de dois centímetros encontrado no México que tinha um canal como os existentes nos dentes de algumas cobras. É a primeira evidência de que um dinossauro possa ter sido venenoso." (Vide)

E por aí vai...

É isso!

O aperfeiçoamento humano nos movimentos eugênicos nos séculos XIX e XX

“Domingues e Sá (2003) avaliaram que a recepção das idéias de Darwin no Brasil foi controversa, principalmente aquelas sobre origem e evolução dos humanos. Esses estudos se basearam em fontes historiográficas disponíveis no Museu Nacional.

Segundo elas, em 1870 surgiram os primeiros posicionamentos de brasileiros sobre o trabalho de Darwin, tanto defensores quanto contestadores. A idéia de evolução se apresentava ligada a dois sensos: um grupo que se remetia exclusivamente ao darwinismo, e outro formado por evolucionistas contrários a esse referencial teórico-metodológico.

As controvérsias se colocavam diante de três influências pricipais: 1- o imperador Pedro II, que se comunicava com cientistas renomados. Ele teria sido admitido na academia de ciências de Paris, pelas suas contribuições financeiras em trabalhos de pesquisa; 2- Cientistas brasileiros, em geral formados na Europa; 3- Influência de contatos europeus, inclusive Darwin e um de seus grandes opositores, Quatrefages (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Pedro II e Quatrefages trocaram correspondências. Aquele concordava com as teses antidarwinistas deste. O imperador rejeitava principalmente a idéia da ascendência humana e o fato de que o primeiro ser humano seria negro. Esses eram os temas mais combatidos e se cruzaram nas discussões, com os da origem tanto dos seres humanos quanto da sociedade. Os evolucionistas antidarwinistas acabaram por buscar explicações para diferenças raciais e culturais usando os métodos franceses da craniometria e antropometria de Paul Broca e Quatrefages (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Os pesquisadores brasileiros João Batista Lacerda e Rodrigues Peixoto chegaram a analisar crânios de botocudos, colocando-os em grau de inferioridade intelectual. Seus trabalhos foram elogiados por Quatrefages em 1883. As práticas desses pesquisadores estavam completamente de acordo com os estudos parisienses. Eles não cogitavam a idade das culturas nativas do país. Gradação, para eles, significava hierarquizar representantes da espécie, das formas simples até as mais sofisticadas (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Ladislau Neto, então diretor do Museu Nacional, desenvolveu trabalhos de craniometria e manifestava-se ambiguamente sobre a questão. Seu foco de trabalho era a evolução morfológica de plantas. Ele chegou a conclusões próprias recebendo influências de botânicos antidarwinistas, como Nägeli, e favoráveis, como Julius Sachs, além de ter referenciado o trabalho do próprio Darwin de 1865, sobre plantas trepadeiras (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Posteriormente, em 1876, Neto teria se mostrado adepto das idéias de Haeckel. Primeiramente, ele se pronunciou sobre o domínio do meio físico na evolução, e depois sobre nutrição e clima. Em 1880, ele passou a dedicar-se aos estudos arqueológicos, denunciando o desaparecimento dos indígenas (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Em 1873, Augusto Cezar de Miranda Azevedo teria feito defesa de uma visão do Darwinismo, baseada em Haeckel, nas conferências populares da Glória. Também teria elaborado uma tese cujo título era “Do darwinismo é aceitável o aperfeiçoamento cada vez mais completo das espécies, até o ser humano?”. Segundo esse autor republicano, as teorias de Darwin deveriam ser conhecidas pelos legisladores, porque haveria um problema social. Os homens mais fortes eram enviados para a guerra, e a reprodução, bem como a organização da sociedade, ficavam por conta dos fracos e imperfeitos (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Outras teses foram desenvolvidas na faculdade de Direito de Recife. Sylvio Romero, em 1888, spenceriano, teria discutido a genealogia da sociedade brasileira seguindo as diretrizes de Darwin. Ele criticou teses de pesquisadores haeckelianos sobre a recapitulação genética, hipótese segundo a qual os povos recapitulariam a história evolutiva da espécie humana ao se desenvolverem. Para os haeckelianos, o processo de miscigenação de povos “civilizados” com os “inferiores” atrasaria em séculos o desenvolvimento da humanidade (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Para Romero, ao longo do tempo e do processo de mestiçagem a sociedade brasileira se tornaria branca. Ele se identificava com analogias entre animais e vegetais. Para ele, analisando a própria história evolutiva, os povos poderiam identificar similitudes com outros: em alguns casos, por influência de uma natureza humana universal; em outros, devido aos contextos ambientais semelhantes que os envolve; e por fim, mediante o contato com outros grupos e a adoção de concepções estrangeiras. As similitudes poderiam ser mais ou menos profundas, mas não significariam repetições, apenas desdobramentos (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Domingues e Sá (2003) explicaram que os debates e as polêmicas no século XIX giraram em torno dessas duas frentes principais: de um lado, os adeptos da teoria craniométrica; do outro, pesquisadores tidos como darwinistas, mas que se embasaram em variantes hackerianas e spencerianas da teoria. Embora de menor influência, algumas outras concepções foram apresentadas na Revista Brasileira e no Jornal do Comércio.

Domingues e Sá (2003) destacam o trabalho de Emmanuel Liais, de 1881, à luz das teorias de Darwin e Lyell, que buscou mapear a geografia climática, botânica, zoológica e geológica do Brasil. As explicações de Liais sobre a teoria da seleção natural refletiam-se na questão racial. Elas contrariavam as explicações da antropologia craniométrica, que explicava que as culturas mais antigas seriam as superiores.

Avaliando as idéias apresentadas por Domingues e Sá (2003), é possível compreender que, para elas, no Brasil do século XIX, o evolucionismo e a teoria racial orientaram as ciências naturais e os pensamentos de intelectuais que idealizavam a nação. Esse grupo buscava inserir o país na marcha temporal da civilização e via a escravidão como um empecilho. Estudos craniométricos justificavam a inferioridade dos grupos indígenas que eram vistos como substitutos para a mão-de-obra escrava. A superioridade de uma cultura, para eles, era medida pelo tempo de sua existência. Teorias de fundo darwinista contrariavam tais estudos.

Além disso, até 1888 a escravidão era legal e relevante nos processos de produção. As teorias darwinistas atacavam fortemente esse tipo de organização social. Se a opressão do negro se justificava por uma superioridade da raça branca, pensada como a cultura mais antiga, a idéia de que os primeiros humanos teriam surgido na África colocaria em cheque a visão de mundo da época. Assim, o contexto político foi um importante fator limitante das recepção das idéias de Darwin.

Chama-se atenção para o fato de que no texto de Dominguez e Sá (2003) as teorias raciais e os critérios de categorização humana entre grupos mais ou menos evoluídos, com base em estudos craniométricos, serviram de fatores limitantes à penetração das teorias darwinistas no Brasil. No entanto, essas mesmas visões de mundo que serviram para justificar a categorização racial e o aperfeiçoamento de grupos humanos no século XX, se basearam nas teorias de Galton sobre eugenia, que recebeu forte influência do paradigma darwinista, conforme apresenta-se nas discussões de Bizzo (1994; 1998).

Segundo Bizzo (1998) a eugenia está ligada a práticas sociais que visam o controle do tipo de características transmitidas às futuras gerações. Podem ser consideradas no rol das práticas eugênicas, por exemplo, a seleção sexual, quando animais escolhem parceiros com determinadas características para fins de reprodução, e a domesticação, quando se busca garantir ou impedir a reprodução de portadores de determinadas características preestabelecidas. Nesse sentido, as ferramentas bioquímicas desenvolvidas por estudos em biologia molecular têm fornecido condições para manipulação da espécie humana. Contudo, a bioética se coloca, nesse contexto, como disciplina que visa a compreender e analisar os princípios que regem a utilização de tal conhecimento. Cabe a ela normatizar os procedimentos adotados pelos cientistas.

No entanto, para Bizzo (1994; 1998) as concepções e as ações voltadas à reconstrução de um padrão genético humano não estão ligadas apenas ao contexto científico. Ao olhar para a história do processo de pensamento eugênico do início do século XX, é possível observar um retrato de disputa política em diferentes campos recheados de ideologias. Analogias entre melhoramento de plantas e animais domésticos e a humanidade foram largamente estabelecidas em diferentes contextos sociais. Melhorar o conjunto gênico humano significaria a ampliação das possibilidades de permanência dessa espécie na Terra.

Certamente, qualquer movimento nesse sentido colocaria em cheque a cidadania, que se liga ao direito à liberdade e ao livre-arbítrio, porque pré-selecionar determinadas características no sujeito significaria, ao mesmo tempo, limitar a sua performance social (BIZZO, 1994).

Bizzo (1994) buscou traçar um perfil histórico do desenvolvimento das idéias eugênicas, inclusive da sua formalização em teoria científica. Em um segundo momento, procurou contextualizar as primeiras manifestações desse movimento no Brasil, bem como descrever o tipo ideal que deveria ter sua reprodução controlada, segundo as representações presentes no país, por volta dos anos de 1920.

Ele explica que os atos eugênicos não se iniciaram com a teorização científica, mas fizeram parte das práticas de diversas culturas há séculos. Dentre seus exemplos, destaca-se o abismo de Taígeto, em Esparta, onde bebês tidos como inaptos para a guerra eram arremessados. Também podem ser citados os acordos da aristocracia européia, que incentivavam o casamento entre nobres e, também, o totalitarismo nazista alemão de Hitler, que por argumentos nacionalistas, visava criar uma raça ariana pura (BIZZO, 1994).

Francis Galton, em 1869, publicou o livro Hereditary Genius, um marco nessa discussão. Ele tentou provar que as aptidões para determinadas carreiras eram características transmitidas geneticamente. Em um estudo com 400 famílias aristocráticas inglesas, percebeu que filhos de magistrados, políticos, escritores, etc. também se tornavam profissionais de sucesso em carreiras semelhantes (BIZZO, 1994; 1998).

Matematicamente, ele buscava provar maneiras de identificar diferentes raças na população geral e correlacionar tais resultados com atuações de “sucesso”. Seu objetivo era melhorar características humanas garantindo a reprodução de pessoas bem-sucedidas em detrimento daqueles tidos como desviantes de um padrão que coincidia com as características da sociedade abastada (BIZZO, 1998).

Essa pesquisa, portanto, se constituía por dois caminhos. Por um lado, Galton tentava explicar a hereditariedade do desempenho social “acertado” e, por outro, utilizava um referencial matemático que delimitava categorias de classificação raciais. Esses instrumentos foram amplamente utilizados ao redor do mundo na justificação de práticas de esterilização compulsória e, nos casos mais extremos, no extermínio em massa de grupos sociais concebidos como inferiores (BIZZO, 1994; 1998).

O argumento de Galton não era inédito, mas o livro publicado por esse pesquisador contribuiu fortemente para que o debate sobre a questão ganhasse espaço no meio científico, principalmente nas discussões de Darwin. A “hipótese provisória da pangênese”, de Darwin, se colocava em um espaço central na teoria do Hereditary Genius. Darwin recebeu essas idéias com assentimento. Tratava-se de uma aplicação prática para a referida hipótese. Ela prescrevia que as modificações ocorridas no corpo eram transmitidas para os órgãos reprodutores e assim, transmitidas para as gerações seguintes (BIZZO, 1994; 1998).

Bizzo (1991; 1992) discutiu que algumas circunstâncias pessoais podem ter contribuído para que o jovem Darwin repensasse a discussão sobre os seres humanos no livro Origem das Espécies. Dentre elas, destaca-se a morte de Charles Waring, filho de Darwin, que apresentava variações psicossomáticas bastantes semelhantes àquelas descritas para a síndrome de Down.

Tais variações seriam o cerne do texto de Darwin sobre a reversão humana ao tipo selvagem. Essa parte do livro teria sido iniciada an tes que ele soubesse sobre as características do próprio filho, e estas possivelmente o teriam influenciado a repensar o espaço do ser humano em suas teorias (BIZZO, 1991; 1992). As discussões de Galton teriam incentivado Darwin a retomar a questão quando, em 1871, publicou Descent of Man (BIZZO, 1994).

As teorias de Galton se baseavam em duas premissas principais: a idéia de raça humana, que deveria ser melhorada, e a perpetuação das aptidões de sucesso, explicadas pelas hipóteses pangenéticas. Em novas edições do livro de Galton, as propostas abordavam idéias de repovoamento e colonização de uma “raça” superior, algo bastante difundido na América recém-colonizada.

Após a retomada dos trabalhos de Mendel, bem como a publicação dos de Thomas Morgan, em 1909, realizados com drosófilas, e a morte de Galton em 1911, os paradigmas eugênicos, na ciência, foram abandonados. Entretanto, no campo político essas idéias teriam ganhado força e continuaram a justificar práticas de seleção sob uma nova roupagem (BIZZO, 1998).

Se os objetivos de Galton eram a busca pela “melhora” dos grupos humanos, os novos eugenistas imprimiam um caráter nacionalista em seus trabalhos. Na década de 1920 e nos anos daí decorrentes, as idéias eugênicas visavam “salvar civilizações delimitadas por fronteiras nacionais, edificar exércitos, qualificar, inclusive fisicamente, a mão-de-obra de países particulares” (BIZZO, 1998, p. 177).

Instaura-se o que Bizzo (1994; 1998) denominou de “paradoxo social-eugênico”, segundo o qual as idéias de melhoramento da espécie humana se tornam propostas políticas de organização estatal, desprovidas de amparo científico.

Depois das inovações na produção determinadas pela revolução industrial, a população européia vinha aumentando consideravelmente. Houve um drástico processo de migração da zona rural para pólos urbanos onde famílias numerosas, acostumadas à vida e à divisão de trabalho no campo, se viam em situações de privação. Além disso, as novas formas de produzir geravam crises econômicas cíclicas (BIZZO, 1998).

A explosão demográfica nas cidades, agregada à desestruturação dessas famílias e a crise econômica, ampliava o número de pedintes e mendigos, o que na visão da maioria dos aristocratas se mostrava um fator de degeneração da raça. Além disso, tratava-se de um período posterior à primeira guerra mundial, que gerou um número relevante de mutilados sem perspectiva de emprego. Embora esses fatores não esgotem as possibilidades de explicação para o paradoxo eugênico, pelo menos tocam pontos fundamentais (BIZZO, 1994).

Tais fatores devem ser considerados pelos interessados em estudar com maior profundidade os fatores desencadeantes dessa situação verdadeiramente paradoxal: a radicalização do discurso eugênico não foi abalado pela absoluta falta de argumentos científicos para ampará-lo. Sendo de início um discurso semi-acadêmico, logo passou a ser visto como uma disciplina científica, aguardando a confirmação de certas teorias acessórias, como a pangênese. Mas sua capacidade de produção de novos métodos de produção de conhecimento, ferramentas matemáticas como a
regressão, sua fecundidade heurística, acabou por ofuscar a falta de amparo científico. Isso pavimentou o caminho dos biométricos, e suas ferramentas matemáticas geniais. O resultado foi o retorno da eugenia, não mais como discurso semi-acadêmico, ou como paradigma científico, mas como programa político-institucional, cuja aplicação prática passava a ser imprescindível para a “salvação da nação” (BIZZO, 1994, p. 86).

Em 1918, foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo. O primeiro ato desse grupo foi publicar o livro Problema Vital, de Monteiro Lobato, cuja discussão central versava sobre o enfraquecimento do brasileiro com relação aos seus ancestrais portugueses, vítima de verminoses em sucessivas gerações. Assim, o saneamento básico e a higiene racial trabalhariam juntos na busca de gerações mais sadias. “Pais sadios teriam filhos mais sadios. Filhos eugênicos estariam menos sujeitos a pragas e verminoses” (BIZZO, 1998, p. 181).

Algumas medidas foram sugeridas pela Comissão Central Brasileira Para o Estudo e Propaganda da Eugenia. Dentre elas, a título de exemplo, destaca-se o incentivo para a colocação de candidatos eugenizados em cursos superiores e cargos públicos, bem como a implantação da educação eugênica em todos os níveis de ensino (BIZZO, 1994).

Segundo Bizzo (1994; 1998), ações eugênicas no Brasil teriam sido tácitas, principalmente por conta da pressão exercida pela Igreja Católica, que se posicionou contrária a tais práticas, em 1930, por orientação do papa Pio XI. Entretanto, séries de trabalhos começaram a ser publicadas na tentativa de estimular os professores a convencerem seus alunos dos benefícios que o melhoramento eugênico poderia proporcionar.

Diferentemente da abordagem em outros países, o movimento eugênico no Brasil não se preocupou com a hegemonização de uma raça, segundo um determinado padrão genético, mas buscou limitar as possibilidades reprodutivas da população menos favorecida, menos esclarecida e miserável. A falta de alimentação adequada, de escolarização e de recursos em saúde era escamoteada frente ao argumento de que a culpa pela miséria repousava no próprio sujeito. Segundo Bizzo (1994).

Embora não se reconhecesse uma ‘raça brasileira’ a preservar, com certeza havia uma imagem do que se queria evitar, ou evitar de perpetuar, de um conjunto de taras a ser ex tirpado da identidade brasileira a fim de remover obstáculos ao desenvolvimento nacional [...] (BIZZO, 1994, p. 99).

Bizzo (1998) discute que muitas das possibilidades trazidas por novas técnicas de manipulação genética podem representar sérios problemas éticos no que diz respeito a decisões reprodutivas. É possível que o século XXI remeta a humanidade a um novo paradoxo social-eugênico com as maiores possibilidades de se rastrear genes responsáveis por diversas síndromes humanas. Por outro lado, diversas chacinas de presidiários e moradores de rua têm passado cada vez menos percebidas. Isso se remete ao fato de que as práticas eugênicas estão relacionadas com a imagem que a comunidade tem de si. O desvalor prestado aos grupos minoritários passa, portanto, a justificar o extermínio daqueles tidos como diferentes ou desviantes. O padrão de normalidade se volta ao potencial de consumo (BIZZO, 1998).

O ‘consumidor’ passa a ser novo crivo de cidadão, merecendo até mesmo um código de leis, o ‘Código do Consumidor’. Diante de tamanha exclusão é necessário convencer as massas de que continuamos na ‘normalidade’. Muitos professores já convencem seus alunos, preparando-os para aceitarem argumentos eugênicos. Livros escolares, TVs, jornais e revistas já estão ativamente colaborando nesse sentido. Esse processo não é auto-evidente, mas se camufla entre argumentos técnicos e conteúdos escolares (BIZZO, 1 998, p. 184 ).

Na relação entre uma pré-determinação genética interna e sua manifestação externa é que o argumento eugênico se coloca. Para a maioria dos eugenistas, pouco importam as influências ambientais. Os professores e os livros didáticos têm sido grandes responsáveis na divulgação de informações desse tipo. Na tentativa de mostrarem, por exemplo, conteúdos escolares de genética aos seus alunos, os professores se esquecem de mencionar a interação ambiental com a expressão gênica (BIZZO, 1998).

Usando o termo cunhado por Richard Lewontin, ‘ideologia do DNA’, Bizzo (1998) explica outras formas de convencimento do aluno em favor da eugenia. Por exemplo, a tendência em reduzir uma espécie biológica a um par de moléculas, como se, ao usar um pouco de DNA específico, fosse possível reproduzir um determinado ser, até mesmo o ser humano.

Essa importância exacerbada na discussão sobre os genes é denominada por Bizzo (1998) como genecentrismo. Tal abordagem pode dar margem, por exemplo, a qualificações como gene bom e gene ruim, como se a interação da expressão com o ambiente não fosse relevante. Quando aparece o discurso sobre clonagem, também se iniciam especulações sobre personalidades clonáveis, o que significaria a perpetuação de indivíduos com determinadas características que lhe garantissem algum tipo de sucesso.

Para Bizzo (1998), os professores têm uma grande responsabilidade na discussão da temática reprodutiva, no sentido de evitar que novos preconceitos eugênicos sejam difundidos, principalmente pela contribuição das novas tecnologias ao ideal eugênico."

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É isso"

Fonte:
Acácio Alexandr e Pagan: “Ser (animal) humano: evolucionismo e criacionismo nas concepções de alguns graduandos em Ciências Biológicas”. (Tese apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em Educação. Área de concentração: Ensino de Ciências e Matemática. Orientador: Prof. Dr. Nelio Bizzo Co-orientador: Prof. Dr. Charbel El-Hani). Universidade de São Paulo. São Paulo, 2009.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.