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Entrevistando Darwin - III

O problema populacional

As “respostas” de Darwin, a seguir, foram todas extraídas do seu livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, da tradução para o português de autoria de Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca, publicado pela Hemus Editora. São Paulo, 1974.

H.D.:
Mister Darwin, é sabido que a população mundial cresceu de forma assustadora. Calcula-se que no início da Era Cristã, havia cerca de 250 milhões de pessoas em todo o globo; em 1650, esse número aumentou para 500 milhões; em 1850, 1 bilhão; em 1940, 2 bilhões; em 1975, 4 bilhões. Atualmente o número de habitantes na terra já ultrapassa 6 bilhões. O que o senhor tem a dizer sobre esta questão no que concerne à sua sobrevivência?

DARWIN:
“O primeiro e fundamental obstáculo para o contínuo incremento do homem consiste na dificuldade em conseguir meios de subsistência e de vida confortável. Que esta seja a razão, é o que podemos deduzir do que nos é dado ver, por exemplo nos Estados Unidos, onde a sobrevivência é cômoda e fácil e as habitações são em número suficiente. Se tais meios se duplicassem repentinamente na Grã-Bretanha, o nosso número se dobraria rapidamente” (p. 58).

H.D.:
Na sua opinião, que fatores contribuem para contrabalançar o número de pessoas nas nações desenvolvidas e naquelas considerdas subdesenvolvidas?

DARWIN:
“Nas nações civilizadas, este obstáculo basilar age sobretudo pela restrição que se faz ao número dos matrimônios. Muito importante é também o maior número de mortes em idade infantil nas classes pobres; assim como o é também a maior mortalidade em todas as idades, pelas diversas dificuldades e descomodidades, entre os moradores de casas aglomeradas e miseráveis. Os efeitos das graves epidemias e das guerras são subitamente contrabalançados e mais do que balançados nas nações que gozam de condições favoráveis. Também a emigração vem em auxílio como freio temporário, mas nas classes extremamente pobres não está muito difundida” (p. 58).

H.D.:
No que concerne à capacidade de reprodução das populações, o senhor pode apontar um grupo em especial que seja assim mais prolífero ou fecundo?

DARWIN:
“Conforme observou Malthus, existe motivo de se suspeitar que atualmente o poder reprodutivo é menor nas raças sem cultura do que naquelas civilizadas. Nada sabemos de positivo sobre este ponto, visto que não se fez nenhum recenseamento dos selvagens; mas, com a ajuda do testemunho de missionários e de outros que têm residido durante muito tempo no meio destes povos, parece que via de regra as suas famílias são exíguas e só raramente numerosas” (p. 59).

H.D.:
E como exatamente o senhor explica isso?

DARWIN:
“Isto talvez possa ser parcialmente explicado com o fato de que as mulheres aleitam os bebês durante muito tempo; mas é muito provável que os selvagens, que muitas vezes sofrem privações e não têm tantos alimentos nutritivos quanto os povos civilizados, sejam atualmente menos prolíficos. Numa obra anterior fiz ver que todos os quadrúmanos e as aves domésticas e todas as plantas cultivadas são mais férteis do que as espécies correspondentes num estado selvagem. Também não serve de válida objeção a esta hipótese o fato de que os animais nutridos imprevistamente com demasiado alimento ou gorduras em demasia bem como muitíssimas plantas de uma hora para outra transplantadas de um solo muito pobre para um outro muito rico se tornam mais ou menos estéreis. Por isso era de se esperar que os homens civilizados, que num certo sentido são mais "domésticos", fossem mais prolíficos do que os selvagens” (p. 59).

H.D.:
Essa vantagem fecundativa daqueles que o senhor chama de civilizados pode ser explicada com algo mais?

DARWIN:
“É também provável que a aumentada fertilidade das nações civilizadas se torne um caráter hereditário, como acontece com os animais domésticos: pelo menos se sabe que no gênero humano existe nas famílias uma tendência a gerar gêmeos” (p. 59).

H.D.:
Quais fatores limitativos o senhor pode apontar para a redução daqueles a quem o senhor denomina de “selvagens?”

DARWIN:
“A dificuldade que os selvagens têm de conseguir os meios de subsistência limita o seu número de maneira mais direta do que entre os civilizados, visto que todas as tribos sofrem periodicamente de duras carestias. Nestes períodos os selvagens são obrigados a alimentar-se muito mal, do que se ressente a sua saúde; muitas notícias têm sido veiculadas sobre a saliência do estômago e dos membros emagrecidos depois e durante tais carestias. Nesses períodos são também forçados a andar errantes por muito tempo e, conforme me tem sido asseverado na Austrália, grande número dos seus filhos perece. De vez que as carestias são periódicas, dependendo principalmente das estações mais duras, todas as tribos variam de número. Elas não podem aumentar duradoura e continuamente, enquanto não houver aumento artificial nas provisões de alimento. Quando atingidos duramente, os selvagens invadem uns os territórios dos outros, provocando a guerra; mas na realidade quase sempre estão em guerra com os vizinhos. Ficam expos tos a muitos riscos por mar e por terra, em sua procura de alimento e em muitas regiões sofrem muito em virtude do grande número de animais ferozes. Na índia distritos inteiros foram despovoados pelas incursões dos tigres” (p. 60).

H.D.:
Além desses fatores, os quais foram tratado por Thomas Malthus em seu famoso "Tratado sobre os princípios da população", há outros que o senhor pode indicar como relevantes nesse processo?

DARWIN:
“Malthus debateu estes numerosos obstáculos, mas não enfatizou aquele que provavelmente é o mais importante de todos, ou seja o infanticídio, especialmente perpetrado contra os bebês meninas, e o costume de provocar o aborto. Atualmente estas práticas prevalecem em muitas partes do mundo e o infanticídio parece que prevaleceu uma vez em escala ainda mais ampla, conforme demonstrou M'Lennan" (p. 60).

H.D.:
E qual teria sido a origem dessa prática, segundo o senhor?

DARWIN:
“Parece que esta prática se originou dos selvagens que se viam a braços com a dificuldade, ou antes a impossibilidade, de manter todos os filhos nascidos. Aos obstáculos supracitados se pode acrescentar a depravação, mas esta deriva da falta de meios de subsistência, embora haja motivo para se crer que em alguns casos (como no Japão) tenha sido encorajada propositalmente como meio para conter a população” (p. 60).

H.D.:
Algo mais, para finalizar?

DARWIN:
“Em alguns casos, a diminuição da fertilidade poderá ser explicada com a corrupção das mulheres (conforme ultimamente entre os taitianos), mas Fenton demonstrou que esta explicação não é suficiente em nenhum modo para os neozelandeses e os tasmanianos” (p. 224).

É isso!

Entrevistando Darwin:


"As mulheres"

Veja também:
Entrevistando Darwin: "Religiosidade, fé e crença em Deus"
Entrevistando Darwin: "os selvagens"

As “respostas” de Darwin, a seguir, foram todas extraídas do seu livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, da tradução para o português de autoria de Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca, publicado pela Hemus Editora.



H.D.:
Mister Darwin, vamos falar, hoje, de um assunto palpitante, extremamente palpitante: as mulheres! Sim, é bem verdade que no seu tempo, lá durante os idos da antiga Inglaterra vitoriana, as mulheres não eram assim muito bem honradas. Desta forma, ao entrevistá-lo acerca desta questão, vou considerar obviamente o contexto histórico no qual o senhor estava inserido. Sendo assim, vamos ao que realmente interessa: as mulheres. Afinal, como o senhor vê a mulher em relação ao homem? Em que sentido o homem difere exatamente da mulher?

DARWIN:
"O homem é mais corajoso, belicoso e enérgico e possui um espírito mais inventivo. O seu cérebro é muito maior, sem dúvida, mas ainda não se conseguiu constatar se é ou não proporcional às suas maiores dimensões.
As crianças masculinas e femininas assemelham-se, como a prole de tantos outros animais cujos adultos diferem notavelmente; também elas se parecem mais com a fêmea do que com o macho adulto. No fim a fêmea assume, porém, alguns caracteres distintivos e na formação do crânio parece assumir um caráter intermediário entre o menino e o homem" (p. 641).

H.D.:
Certo, mas como se deu exatamente esta distinção em termos evolutivos?

DARWIN:
"É provável que a seleção sexual tenha desempenhado um papel importantíssimo nas diferenças desta natureza. Sei que alguns estudiosos duvidam da existência de tal diferença, mas ela é pelo menos provável em face da analogia com animais inferiores que apresentam outros caracteres sexuais secundários. Ninguém duvidará que o touro tem um comportamento diferente daquele da vaca, o javali daquele da porca, o garanhão daquele da égua e, como todos sabem, os machos dos grandes símios daquele das suas fêmeas. A mulher parece diferir do homem na atitude mental, sobretudo em razão da maior ternura e da menor dose de egoísmo; isto se verifica também entre os selvagens, conforme demonstra uma conhecida passagem das Viagens de Mungo Park e pelas observações feitas por muitos outros viajantes" (p. 647)

H.D.:
Não há então, segundo o senhor, nenhum aspecto em que a mulher supera o homem?

DARWIN:

“Em geral se crê que a mulher supera o homem na intuição, na maneira rápida como entende as coisas e talvez na imitação, mas pelo menos algumas dessas faculdades são características das raças inferiores e por conseguinte de um estágio de civilização mais baixo e já ultrapassado" (p. 648).

H.D.:
Embora o senhor já tenha realçado a "superioridade" masculina, em termos de distinção entre ambos os sexos o que mais prevalece como vantagem para homem, isso levando em conta a luta pela sobrevivência?

DARWIN:
"A distinção principal nos poderes mentais dos dois sexos reside no fato de que o homem chega antes que a mulher em toda ação que empreenda, requeira ela um pensamento profundo ou então razão, imaginação, ou simplesmente o uso das mãos e dos sentidos. Se houvesse dois grupos de homens e mulheres que mais sobressaíssem na poesia, na pintura, na escultura, na música (trate-se da composição ou da execução), na história, nas ciências e filosofia, não poderia haver termos de comparação. Baseados na lei do desvio da média, tão bem ilustrada por Galton em seu livro Hereditary Genius, podemos também concluir que, se em muitas disciplinas os homens são decididamente superiores às mulheres, o poder mental médio do homem é superior àquele destas últimas" (p. 649).

H.D.:
E o que mais contribuiu nesse processo de distinção entre ambos os sexos?

DARWIN:
“Estas faculdades, como também o gênio, devem ter-se desenvolvido no homem em parte por meio da seleção sexual, isto é, pela luta com machos rivais, e em parte através da seleção natural, ou seja, pelo êxito na luta contínua pela existência; visto que em ambos os casos a luta se terá dado durante a idade madura, os caracteres obtidos devem ter sido transmitidos de maneira mais perfeita à prole masculina do que à feminina" (p. 650).

H.D.:
Evolutivamente, apenas como suposição, o que seria necessário à mulher para que alcance vantagens semelhantes às do homem?

DARWIN:
"Para que fosse capaz de alcançar o mesmo nível do homem, quando em idade quase adulta, a mulher deveria praticar a energia e a perseverança e exercitar ao máximo a razão e a imaginação; provavelmente poderia então transmitir tais qualidades às filhas adultas. Seja como for, as mulheres não poderiam alcançar estes resultados, a menos que durante muitas gerações aquelas que excedem nas supraditas qualidades se casassem e dessem ao mundo mais filhos do que as outras" (p. 651).

H.D.:
E o que exatamente contribui para que haja um aumento na desigualdade entre ambos os sexos?

DARWIN:
"Com respeito à força corpórea, já temos visto que, embora os homens não combatam pelas suas mulheres, pois que tal forma de seleção já está superada, na maturidade eles devem sustentar uma dura luta para manter a si mesmos e a família; e isto vem contribuir para conservar e aumentar as suas qualidades mentais e conseqüentemente a atual desigualdade entre os dois sexos” (p. 651).

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É isso!

Entrevistando Darwin:


"Religiosidade, fé e crença em Deus"

Veja também:


As “respostas” de Darwin, a seguir, foram todas extraídas do seu livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, da tradução para o português de autoria de Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca, publicado pela Hemus Editora.

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H.D.:
Mister Charles Darwin, hoje eu gostaria de tratar com o senhor acerca de uma questão que tem suscitado os mais ferrenhos debates nos últimos tempos: religião, fé e crença em Deus. Como senhor explica essa tendência humana à religiosidade?

CHARLES DARWIN:
"Não existe prova de que o homem originariamente fosse dotado da nobre fé na existência de um Deus onipotente. Pelo contrário, existe ampla prova, fornecida não por viajantes ocasionais, mas por homens que residiram por muito tempo entre os selvagens, de que exis­tiram numerosas raças, e ainda existem, as quais não têm ideia de um ou de mais deuses, e que em sua língua não têm palavras para exprimir esta ideia" (p. 115).

H.D.:
Mas como isso se deu exatamente?

CHARLES DARWIN:
"Conforme mostrou Tylor, é também pro­vável que os sonhos tenham sido os primeiros a dar origem à ideia dos espíritos, visto que os selvagens de fato não distin­guem entre as impressões subjetivas e objetivas. Quando um selvagem sonha, crê que as imagens que lhe aparecem prove­nham de longe para se deterem diante dele; ou então: "o espírito do sonhador divaga durante suas viagens e volta para casa com a lembrança daquilo que viu. Mas enquanto as faculdades da imaginação, da curiosidade, da razão, etc. não tiverem alcançado um desenvolvimento completo na mente do homem, os seus sonhos não levarão a crer nos espíritos mais do que um cão acredita" (p. 115).

H.D.:
Certo. E como o senhor analisa esta questão entre os povos que o senhor denomina de selvagens?

CHARLES DARWIN:
"A tendência que os selvagens possuem de imaginar que os objetos naturais e as causas são animados de essências espi­rituais ou viventes talvez possa ser ilustrada por um pequeno fato que certa vez presenciei: o meu cão, um animal adulto e muito sensível, num dia quente e tranquilo achava-se num prado; a uma pequena distância uma leve aragem de vez em quando movia uma sombrinha aberta; se alguém tivesse estado aí por perto o cão nem teria ligado para este detalhe. No en­tanto, toda vez em que a sombrinha se movia ligeiramente, o cão arreganhava os dentes e latia. Creio que deve ter pergun­tado, de maneira rápida e inconsciente, se o movimento sem causa aparente não estaria indicando a presença de algum es­tranho agente animado, e que nenhum forasteiro tinha o direito de estar no seu território.
A crença em agentes espirituais poderia facilmente levar à fé numa ou mais divindades. Com efeito, os selvagens atri­buem aos espíritos as mesmas paixões, o mesmo amor pela vingança ou então as mais simples formas de justiça bem como os mesmos sentimentos que eles mesmos experimentam. Sob este aspecto parece que os habitantes da Terra do Fogo se acham numa situação intermediária, visto que, quando o cirur­gião a bordo do "Beagle" abateu um pato selvagem novo, York Minster exclamou na maneira mais solene: "Oh, Sr. Bynoe, muita chuva, muita neve, muito vento", e isto era evidente­mente uma punição atribuída ao fato de ter desperdiçado ali­mento destinado aos homens" (p. 116).

H.D.:
Então esse sentimento religioso nutrido pelo homem pode ser comparado com algum instinto animal?

CHARLES DARWWIN:
"Nenhum ser poderia experimentar uma emoção tão complexa sem avançar nas suas faculdades intelectuais e morais pelo menos até um certo nível modera­damente elevado. Não obstante, vemos um pálido sinal de aproximação a este estado da mente no profundo amor que um cão tem por seu dono, associado com a completa submissão, modo e talvez outros sentimentos. O comportamento que um cão tem quando volta ao seu dono e, como posso acrescen­tar, também o de um si mio para com o seu guarda amado, depois de transcorrida uma ausência, é muito diferente daque­le que externa para com os seus próprios companheiros. Nesse último caso os transportes de alegria às vezes parecem ser menores e o senso de paridade se revela em toda ação. O prof. Braubach vai tão longe a ponto de sustentar que um cão con­sidera o seu dono como um Deus” (p. 117).

H.D.:
Que mudanças o senhor pode apontar na forma de crença primitiva da atual, por exemplo?

CHARLES DARWIN:
“As mais elevadas formas de religião — a grande ideia de um Deus que abomina o pecado e que ama a justiça — era desconhecida durante os períodos primitivos” (p. 173).

H.D.:
A fé em Deus então evoluiu gradualmente assim como outros instintos?

CHARLES DARWIN:
"A fé em Deus tem sido muitas vezes considerada não só como a maior, mas como a mais completa distinção entre homem e animais inferiores. Contudo, conforme temos visto, é impossível sustentar que esta crença seja inata ou instintiva no homem. Por outro lado, a fé num agente espiritual onipresente parece universal e deriva, aparentemente, de um considerável progresso da razão humana e de um ainda maior avanço das suas faculdades de imaginação, curiosidade e maravilhamento. Sei que a fé instintiva em Deus tem sido usada por muitas pessoas como argumento da sua existência, mas este argumento está fora de questão, pois que assim seríamos levados a crer na existência de muitos espíritos cruéis e ma­lignos, só em pouco mais poderosos que o homem; com efeito, a crença nestes últimos está bastante mais propagada do que aquela numa divindade benfazeja. A ideia de um Criador universal e benigno não parece que só surgiu na mente hu­mana quando o homem se elevou mediante uma longa cultura. Quem acredita na procedência do homem de alguma for­ma inferior organizada, naturalmente perguntará como é que isto tem relação com a crença da imortalidade da alma” (p. 704).

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É isso!






Entrevistando Darwin

"Os selvagens"

As “respostas” de Darwin, a seguir, foram todas extraídas do seu livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, da tradução para o português de autoria de Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca, publicado pela Hemus Editora.

H.D.:
Mister Darwin, de que forma o senhor relacionaria o homem com os animais inferiores, mais exatamente os símios?
DARWIN:
O homem é propenso a receber dos animais inferiores e a comunicar-lhes certas doenças, como a hidrofobia, a varíola, o mormo, a sífilis, a cólera, a herpes, etc., o que constitui prova da estreita semelhança dos seus tecidos, tanto por­menorizadamente na estrutura como na composição, de ma­neira muito mais clara do que se evidenciaria por um confron­to direto sob as lentes do melhor microscópio ou com a aju­da da mais aprimorada análise química. Os macacos estão su­jeitos a muitas doenças não contagiosas, como nós também es­tamos; Rengger, que durante muito tempo observara cuida­dosamente indivíduos de Cebus azarae em seu país de origem, achou-os sujeitos ao catarro com aqueles mesmos sintomas que, quando se repetem com frequência, levam à consunção. Estes macacos padeciam também de apoplexia, de inflamação nos intestinos e de cataratas nos olhos. Os mais jovens, ao mu­darem os dentes de leite, muitas vezes morriam de febre. Os remédios neles produziam os mesmos efeitos que em nós. Muitos tipos de macacos têm uma grande predileção pelo chá, pelo café e pelas bebidas alcoólicas; como eu próprio tive a oportunidade de ver, também fumam com prazer. Brehm afirma que os indígenas do nordeste da África capturam os babuínos selvagens, expondo recipientes de cerveja forte com a qual se embriagam. Observou algum desses animais, por ele capturados, nesse estado e nos faz um relato divertido do seu comportamento e das suas estranhas denguices e requebros. No dia seguinte estão muito sombrios e irritados, agarram a cabeça dolorida com ambas as mãos e assumem uma expres­são bastante miserável: toda vez em que se lhe oferecer vinho ou cerveja, fazem uma careta de amuo, mas aceitam com pra­zer o suco de limão. Um macaco americano chamado Ate­ies, depois de ter-se embriagado com brandy, nunca mais quis saber dele, demonstrando assim mais sabedoria do que mui­tos homens. Estes episódios engraçados mostram quão seme­lhantes são os centros do sabor nos macacos e nos homens e de que maneira análoga se interliga todo o seu sistema ner­voso. (p. 17).

H.D.:
O senhor realmente nutre uma admiração excepcional pelos símios, talvez até mais do que por aqueles que o senhor denomina de “selvagens”, isso é verdade?
DARWIN:
Quisera antes ter descendido daquela pequena e heróica macaquinha que desafiou o seu terrível inimigo para salvar a vida do próprio guarda; ou daquele velho babuíno que, des­cendo da montanha, levou embora triunfante um companheiro seu jovem, livrando-o de uma matilha de cães estupefatos, ao invés de descender de um selvagem que sente prazer em tor­turar os inimigos, que encara as mulheres como escravas, que não conhece o pudor e que é atormentado por enormes su­perstições. (p. 711).

H.D.:
Então o senhor vê estes a quem denomina de “selvagens” como seres intermediários em relação ao homem? O que o senhor tem a dizer sobre isso?
DARWIN:
A prova de que todas as nações civilizadas descendem daquelas bárbaras, encontramo-la, de um lado, em traços claros da sua primitiva baixa condição, nos costumes, ideias e língua ainda existentes, e por outro lado, na prova de que os selvagens são independentemente capazes de soerguer-se de qualquer grau na escala da civilização e atualmente efetivamente se ergueram. A prova sobre o primeiro ponto é extremamente curiosa, mas aqui não pode ser abordada: refiro-me a casos como aquele da arte da enumeração que, conforme demonstra claramente Tylor ao se referir a palavras ainda usadas em alguns lugares, se originou da contagem dos dedos, primeiro de uma mão e depois de ambas e, finalmente, dos pés. Encon­tramos traços disto no sistema decimal e nos números roma­nos onde, depois do V que se supõe seja uma figuração estili­zada de uma mão humana, passamos ao "VI", etc., onde se usava sem dúvida a outra mão. Assim novamente "quando dizemos três 'escores' e dez, estamos contando com o sistema vigesimal: cada sinal feito assim idealmente refere-se a 20 — para 'um homem' como acrescentaria uni mexicano ou um habitante das Caraíbas". De acordo com uma ampla è sempre crescente escola de filólogos, toda linguagem traz a marca da sua lenta e gradual evolução. É o que acontece com a arte de escrever, visto que as letras são rudimentares e figu­rações pitóricas. Dificilmente se pode ler a obra de M'Len-nan sem admitir que quase todas as nações civilizadas conservam ainda traços do rude hábito da captura violenta das mulheres. Que nação antiga — pergunta-se o mesmo autor — podia ser originariamente definida como monógama? A primitiva ideia da justiça, como é demonstrada pela lei da guerra e por outros costumes, cujos vestígios ainda permanecem, era igualmente rude. Muitas superstições existentes nada mais são do que o remanescente de anteriores ideias religiosas falsas. As mais elevadas formas de religião — a grande ideia de um Deus que abomina o pecado e que ama a justiça — era desconhecida durante os períodos primitivos (p. 173).

H.D.:
O que o senhor tem a dizer acerca dos diversos comportamentos dos selvagens como os dos índios americanos e, com mais ênfase, dos habitantes da Terra do Fogo? Lembrando que uma década antes do senhor lá ter ido, W.P. Snow descreveu estes últimos como “elegantes, fortes, orgulhosos de seus filhos, engenhosos inventores de técnicas, com noção à propriedade privada de algumas coisas e respeitosos com a autoridade dos mais velhos e da comunidade.” O senhor teve essa mesma impressão, mister Darwin?

DARWIN:
A maioria dos selvagens é totalmente indiferente aos sofrimentos dos forasteiros ou até chegam a deliciar-se em presenciá-los. Sabe-se perfeitamente que as mulheres e as crianças dos índios norte-americanos ajudavam a torturar os inimigos. Alguns selvagens provam um horrível prazer em praticar crueldades nos animais e, entre eles, a humanidade é uma virtude desconhecida. Apesar disto, além dos afetos familiares, a gentileza é comum, especialmente durante as doenças, entre os membros da mesma tribo e por vezes se estende além das fronteiras. É muito conhecido o tocante relato de Mungo Park sobre a gentileza das mulheres negras do interior demonstrada para com ele. Podem ser referidos muitos exemplos da nobre fidelidade dos selvagens, de um para com o outro, mas não para com os estrangeiros. A expe­riência comum justifica a máxima dos espanhóis: "Nunca, nunca confiar num índio" [...] O selvagem americano submete-se voluntariamente às mais horríveis torturas sem um gemido, a fim de pôr à prova e consolidar a sua força e a sua coragem e não podemos deixar de admirá-lo, ou também a um faquir indiano que, por um tolo motivo religioso, se bamboleia com um gancho fin­cado na carne. As outras virtudes, assim chamadas pessoais, que obvia­mente não dizem respeito ao bem-estar da tribo, embora de fato possam fazê-lo, não têm sido mais apreciadas pêlos sel­vagens, embora atualmente o sejam altamente pelas popula­ções civilizadas. A máxima intemperança não é absolutamente reprovada pêlos selvagens. A total dissolução e os delitos contra a natureza predominam num nível assombroso (p. 143, 144).

H.D.:
Como o senhor vê e analisa a capacidade desses mesmos “selvagens” em gerar arte e cultura?
DARWIN:
A julgar pêlos ornamentos horrendos e pela música também horrível, admirados pela maioria dos selva­gens, poder-se-ia argumentar que a sua faculdade estética não é tão desenvolvida como em certos animais, por exemplo nos, pássaros. Obviamente nenhum animal seria capaz de admirar cenas como o céu de noite, um belo passeio ou uma música requintada; mas estes gostos elevados se adquirem com a cul­tura, e baseiam-se em associações complexas: não podem ocor­rer em bárbaros ou em pessoas incultas (p. 114).

H.D.:
E, para finalizar esta entrevista, quais suas perspectivas para esses tais “selvagens” num futuro longínquo? E, aproveitando o ensejo, como o senhor acopla o negro nesse cenário?
DARWIN:
No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído qua­se por completo as raças selvagens em todo o mundo. No mes­mo período os símios antropomorfos, conforme tem observa­do o prof. Schaaffhausen, terão sido sem dúvida exter­minados. A fratura entre o homem e os seus mais próximos afins se tornará então ainda mais ampla, visto que será fra­tura entre o homem, num estágio ainda mais civilizado do que aquele caucásico (é o que esperamos nós) e alguns símios inferiores como o babuíno, ao invés de ser entre o negro ou o australiano e o gorila (p. 187).

É isso!


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Nota:
H.D.: Humor Darwinista

Entrevistando Darwin


Um pouco de humor, porque hoje é sexta, e ninguém é de ferro!


Estava a imaginar, como diria um bom português, como seria, hoje, as idéias de Charles Darwin caso ele estivesse entre os “seres vivos”. Foi assim que concebi uma fictícia entrevista, em que um fictício repórter, muito irreverente, não tem o mínimo receio de fazer aqueles tipos perguntas que nenhum jornalista comprometido com o darwinismo jamais teria coragem de fazer. Vejamos...


REPÓRTER
Mister Charles Darwin, como o senhor bem sabe, neste ano de 2009 comemora-se o denominado “Ano de Darwin”, no qual o senhor, com poucos méritos e muita propaganda completa 200 anos. O que senhor tem a dizer acerca desta tão alardeada homenagem? O senhor se acha realmente merecedor de tanta bajulação acadêmica e jornalística?

DARWIN
Bem, no meio religioso em geral, como você sabe, as pessoas quase sempre têm um “messias”, ou seja, alguém em quem possa depositar sua fé, sua crença e sua esperança. Assim também se dá entre os avessos à religião: eles também precisam de um “messias”, e, obviamente, ninguém melhor do que eu para representá-los nesta função, afinal, como é do conhecimento de todos, veio de mim a maior contribuição para a propagação do materialismo filosófico em todo o mundo. Depois de mim, como expressou meu fiel discípulo Dawkins, tornou-se possível ser um ateu intelectualmente realizado!

REPÓRTER
Então o senhor vê ligação entre suas idéias e o ateísmo, é isso?

DARWIN
Não necessariamente, porém não tenho a menor dúvida de que é bem mais fácil ser ateu acreditando em minhas idéias.

REPÓRTER
O que senhor teria a dizer para aquelas pessoas religiosas que tentaram adaptar suas crenças às suas idéias materialistas, como é o caso dos chamados evolucionistas teístas?

DARWIN
Quem não é contra nós é por nós, embora filosoficamente não vejo a menor coerência nesse tipo de atitude. Pessoalmente não consigo entender suas razões. Talvez seja um tipo de mente repartida: eles mantêm suas crenças religiosas em um nicho, e a ciência em outro. Sinceramente tenho dificuldade em simpatizar com esse tipo de coisa.

REPÓRTER
Deixando de lado as questões religiosas, indo agora lá para os primórdios da sua teoria evolucionista, mais diretamente à criação do conceito de seleção natural, curto e grosso: o senhor plagiou ou não as idéias de Alfred Wallace? Por que, afinal, publicou seu livro apenas vinte e um anos depois de ter concebido suas idéias acerca da seleção natural?

DARWIN
Iniciando pela última pergunta, é fato inconteste que o senhor Wallace estava preste a passar a perna em mim publicando primeiro um livro sobre a seleção natural, e isso, não posso negar, me levou a apressar a publicação do “A Origem das Espécies”, o que fiz em 1859 com muito sucesso. Quanto à primeira pergunta, só tenho a dizer que seus ensaios foram de grande valia, nada mais que isso. Não vou alimentar boatos inúteis.

REPÓRTER
Então o senhor aproveitou os ensaios de Wallace para elaborar o conceito de seleção natural, estou certo?

DARWIN
Entenda como quiser. Não tenho culpa que o senhor Wallace não fora o suficientemente capaz de tomar a iniciativa primeiro do que eu. Ao agir daquela forma, de algum modo coloquei em prática o próprio princípio da seleção natural, de prevalência do mais forte. Também não tenho culpa de ter tido influentes amigos na Academia e de ter nascido num berço de ouro, ao contrário do pobre Wallace!

REPÓRTER
O senhor sabia das experiências com ervilhas do monge Gregor Mendel?

DARWIN
Absolutamente. Naquele momento tinha mais interesse nas idéias do meu primo Francis Galton, de melhoria da raça humana por meio de “cruzamentos indesejáveis”. Mas não duvido nem um pouco que o senhor Mendel tenha feito suas experiências apenas depois de ter lido meu principal livro. Todo mundo lia meu livro naquele momento!

REPÓRTER
Então, mister Charles Darwin, o senhor é racista?

DARWIN
Tenho a mesma visão do meu outro grande discípulo James Watson, que não ver nenhum motivo para duvidar que - geograficamente - as capacidades intelectuais de pessoas evoluem de forma distinta na face da terra.

REPÓPRTER
Então o senhor ainda mantém a idéia de um europeu intelectual e fisicamente superior?

DARWIN
E não é? Quem dominou o mundo e levou aos quatro cantos da terra o conhecimento e a razão, não foram nós, os europeus? Ora, é besteira acreditar em igualdade quando a evolução aponta claramente para uma diferença entre as raças!

REPÓRTER
E por que então o senhor andou defendendo os escravos?

DARWIN
Em primeiro lugar, em qualquer livro de história você vai ler que minha nação, a Inglaterra, naquele instante era contrária à escravidão e eu, como um ferrenho nacionalista, necessariamente deveria apoiar a posição da nossa coroa; em segundo lugar, eu amo os seres vivos.

REPÓRTER
Como senhor vê os conceitos de Complexidade Especificada e Complexidade Irredutível de William Dembsky e Michael Behe?

DARWIN
Mantenho minha postura de acreditar que, caso seja possível demonstrar a existência de algum órgão complexo que não possa de forma alguma ser formado por meio de modificações ligeiras, sucessivas e numerosas, minha teoria ruirá inteiramente por terra.

REPÓRTER
E tais conceitos não demonstram isso exatamente?

DARWIN
Não porque eles ainda não puderam provar a existência do tal planejador.

REPÓRTER
Por esta sua lógica, quer dizer então que o avião não existe caso não se possa provar a existência de Santos Dumont?

DARWIN
Mas quem nunca viu a foto de Santos Dumont por sobre o 14 bis? Ora, a foto deixa bem claro que ele existiu!

REPÓRTER
Andaram escrevendo por aí que o senhor foi um grande amador: não ensinou numa universidade, não era biólogo nem trabalhou em laboratório, isso é verdade?

DARWIN
Pura calúnia e despeita! Primeiro porque não havia profissão de biólogo naquele período, depois porque o salário das universidades naquela época não era diferente daquelas existentes hoje e, por último, porque não existiam laboratórios de análises clínicas naquele dado instante.

REPÓRTER
Bem, falemos agora da teoria evolucionista propriamente, o senhor realmente acredita que ela está firme e forte e que já foi devidamente provada? E como o senhor ver a posição defendida pelo filósofo da ciência Karl Popper?

DARWIN
Em relação à primeira pergunta, não tenho a menor dúvida de que a nossa teoria está firme e forte, apenas substituiria o “provada” pelo “aprovada”, que dá no mesmo, não? Quanto à outra pergunta, este senhor Karl Popper não tem a mínima noção do que seja epistemologia, portanto, a opinião dele diante toda a comunidade científica tem pouca relevância. É, sem sem dúvida, um pobre diabo arrependido, não leu você a cartinha dele e de como renegou sua antiga posição? Que isso sirva para que outro não se meta a besta a nos desafiar!

REPÓRTER
Os fósseis, como andam os fósseis, mister Darwin?

DARWIN
Da mesma forma que quando escrevi meu “A Origem das Espécies”, mas isso em nada impede que um dia finalmente consigamos achá-los o suficiente para esfregarmos na cara desses criacionistas safados e fundamentalistas, os quais vivem alardeando que não há fósseis, que os falsificamos, que eles não falam e outras besteiras mais.

REPÓRTER
Então o senhor também condena o equilíbrio pontuado de Gould?

DARWIN
Outra grande besteira que apenas serviu para dar munição aos criacionistas. O meu gradualismo nunca vai ser superado, mesmo que não consigamos prová-lo definitivamente. Mas isso é tão somente um detalhe diante de tantas outras evidências.

REPÓRTER
Já que o senhor citou os criacionistas, o que o senhor tem a dizer deles?

DARWIN
Desculpe-me pela expressão, mas considero os seres mais baixo na escala evolutiva, pois, como ousam questionar a algo tão concreto, tão robusto e tão firme como minhas idéias, ora?

REPÓRTER
Para finalizar nossa entrevista, qual sua mensagem final para aqueles que, mesmo depois de anos de 100 anos ainda aguardam a prova definitiva da macroevolução?

DARWIN
Minha mensagem é que não desanimem, e que não dêem muita importância para este negócio de prova, porque enquanto eles não provarem que Planejador existe nós ficamos bem na fita (ri). De resto, bola para frente que atrás vem gente, ou melhor, que atrás vêm as bactérias.


É isso!