Mostrando postagens com marcador DARWIN POR ELE MESMO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DARWIN POR ELE MESMO. Mostrar todas as postagens

Darwin por ele mesmo – II

Em carta a Charles Lyell, de 30 de março de 1859:

Também lamento o termo “Seleção Natural”, mas espero conservá-lo como {uma} Explicação mais ou menos assim: - “Através da Seleção natural ou preservação das raças favorecidas”.
A razão de eu gostar desse termo é que ele e constantemente utilizado em todos os trabalhos sobre a Criação...” (“As Cartas de Charles Darwin – uma seleta, 1825-1859". Editora Vunesp. São Paulo, 1997, p. 289).

Síntese:
1. A expressão “Seleção Natural” já era de uso comum na época de Darwin, daí ter ele escrito: “A razão de eu gostar desse termo é que ele e constantemente utilizado...”. O que o torna “particular” para Darwin é o novo sentido que ele lhe atribui: “preservação das raças favorecidas”, que remete ao lema “sobrevivência do mais apto”.

A natureza para Darwin era um como um enorme Coliseu romano, onde somente os mais fortes ou aqueles favorecidos pelo imperador (no caso de Darwin a "Seleção Natural) sobreviviam:
Na sociedade e na natureza, mendigos e brutos tinham de lutar e apenas os melhores sobreviviam. O rosto da natureza não estava mais sorrindo; ela olhava severamente para uma arena de gladiadores, semeada pelos cadáveres dos perdedores” (Desmons & Moore: "A Vida de um Evolucionista Atormentado: Darwin”, Geração Editorial. São Paulo, 1995. Com “favorecidas” ele quer dizer também “aperfeiçoadas”. Isso tudo está bem explicitado em suas obras, como em:

Quando, após os elevamentos, as ilhas se transformaram de novo num continente, uma luta muito viva deve ter recomeçado; as variedades mais favorecidas ou mais aperfeiçoadas puderam então estender-se; as formas menos aperfeiçoadas foram exterminadas, e o continente restaurado mudou de aspecto com respeito ao número relativo dos habitantes” (p.122).

A seleção natural atua unicamente por meio da conservação das variações úteis a certos respeitos, variações que persistem em razão desta mesma utilidade. Devido à progressão geométrica da multiplicação de todos os seres organizados, cada região contém já tantos habitantes quantos pode nutrir; resulta daí que, à medida que as formas favorecidas aumentam em número, as formas menos favorecidas diminuem e tornam-se raras” (p. 123).

A seleção natural atua apenas pela conservação das modificações vantajosas; cada nova forma, sobrevindo numa localidade suficientemente povoada, tende, por conseqüência, a tomar o lugar da forma primitiva menos aperfeiçoada, ou outras formas menos favorecidas com as quais entra em concorrência, e termina por exterminá-las. Assim, a extinção e a seleção natural vão constantemente de acordo. Por conseguinte, se admitimos que cada espécie descende de algum a força desconhecida, esta, assim como todas as variedades de transição, foram exterminadas pelo fato único da formação e do aperfeiçoamento de uma nova forma" (p. 185).

A teoria da seleção natural é baseada na opinião que cada variedade nova, e, em última análise, cada espécie nova, se forma e se mantém por meio de certas vantagens adquiridas sobre as que consigo entram em concorrência; e, enfim, sobre a extinção das formas menos favorecidas, que é a conseqüência inevitável. O mesmo se dá com as nossas produções domésticas, porque, quando uma variedade nova e um Pouco superior foi obtida, substitui a princípio as variedades inferiores da vizinhança; mais aperfeiçoada, espalha-se cada vez mais, como os nossos bois de chifres curtos, e toma o lugar de outras raças em outros países” (p.388).
Fonte:
A Origem das Espécies”. Lello e Irmãos. Porto, 2003).

Por mais obscuro que seja o progresso da ci­vilização, podemos pelo menos ver que uma nação que, du­rante um período prolongado, produziu o máximo número de homens de maior intelecto, enérgicos, corajosos, patrióticos, generosos, em geral deveria prevalecer sobre as nações menos favorecidas. A seleção natural deriva da luta pela existência e esta de uma rápida taxa de aumento”.
Fonte:
A Seleção Sexual”. Hemus Editora. São paulo, 1974.

2. O conceito de mudanças gradativas operadas mediante a “Seleção Natural” num longo espaço de tempo foi inferido a partir das observações realizadas por meio das criações domésticas ou seleção artificial.

É isso!

Darwin por ele mesmo – I

Acabei de ler uma seleta das cartas de Charles Darwin, do período que vai de 1825 a 1859, editadas por Frederick Burkhardt, prefaciadas por Stephen Jay Gould e publicada em Língua Portuguesa pela Editora Unesp. A partir de agora buscarei entender Darwin por ele mesmo, destacando os pontos que tomei como os mais relevantes nessa série de correspondências, confrontando-os com outros pontos extraídos de suas principais obras, os quais, por sua vez, confirmam o teor das epístolas.

Embora seja pura ilusão acreditar que as cartas falem tudo com exatidão, o certo é que, o pouco que elas dizem ao menos nos faz vislumbrar em centelha de luz. E para começar, as razões que conduziram Darwin à destacar a Seleção Natural como máximo princípio das mudanças evolutivas.

Em carta à Wallace, de 6 de abril de 1859:
Tendes razão {em presumir} que cheguei à conclusão de que a Seleção era o princípio da mudança a partir do estudo das populações domésticas; & depois, ao fazer a leitura de Malthus, vi imediatamente como aplicar esse princípio. – A Distribuição Geográfica & as relações Geológicas entre os habitantes extintos da América do S. Foram as primeiras a me conduzir a esse assunto. Especialmente o caso das Ilhas Galápagos” (p. 292).

Síntese:
1. Seleção Natural como o primordial fator do “princípio da mudança”: "
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao que chamamos o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta espécie; estou convencido, enfim, que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies” (p. 18).

2. Mudanças observadas a partir do estudo das populações domésticas, ou seja, mediante a seleção artificial: "Fiz mesmo um grande número de experiências provando, de acordo com a opinião quase universal dos tratadores, que, nos animais e nas plantas, um cruzamento entre variedades diferentes ou entre indivíduos da mesma variedade, mas de uma outra casta, torna a posteridade que nasce mais vigorosa e mais fecunda; e que, por outra parte, as reproduções entre próximos parentes diminuem este vigor e esta fecundidade” (p. 111).

3. Utilização do “Ensaio sobre o Princípio da População” de Malthus, de onde encontrou respaldo para aplicar na natureza o lema “sobrevivência do mais apto”: "A luta pela existência resulta inevitavelmente da rapidez com que todos os seres organizados tendem a multiplicar-se. Todo o indivíduo que, durante o termo natural da vida, produz muitos ovos ou muitas sementes, deve ser destruído em qualquer período da sua existência, ou durante uma estação qualquer, porque, de outro modo, dando-se o princípio do aumento geométrico, o número dos seus descendentes tornar-se-ia tão considerável, que nenhum país os poderia alimentar. Também, como nascem mais indivíduos que os que podem viver, deve existir, em cada caso, luta pela existência, quer com outro indivíduo da mesma espécie, quer com indivíduos de espécies diferentes, quer com as condições físicas da vida. É a doutrina de Malthus aplicada com a mais considerável intensidade a todo o reino animal e vegetal, porque não há nem produção artificial de alimentação, nem restrição ao casamento pela prudência. Posto que algumas espécies se multiplicam hoje mais ou menos rapidamente, não pode ser o mesmo para todas, porque a terra não as poderia comportar" (p. 78).

4. Conclusões extrapoladas a partir de fenômenos observados nas ilhas Galápagos: "Se bem que, nas ilhas oceânicas, as espécies sejam pouco numerosas, a proporção das espécies endêmicas, isto é, as que se não encontram noutra parte do Globo, é muitas vezes muito grande. Pode estabelecer-se a verdade desta asserção comparando, por exemplo, a relação entre a superfície dos terrenos e o número de conchas terrestres especiais à ilha da Madeira, ou o número das aves endêmicas do arquipélago Galápagos com o número das que habitam um continente qualquer. De resto, este fato podia ser teoricamente previsto, porque, como já temos explicado, espécies vindo de longe a longe para um distrito isolado e novo, e tendo de entrar em luta com novos concorrentes, devem estar grandemente sujeitas a modificar-se e devem muitas vezes produzir grupos de descendentes modificados" (p. 453).

É isso!

Referência Bibliográfica:
1. "As Cartas de Charles Darwin: uma seleta, 1825-1859". Tradução: Vera Ribeiro. Editadas por Frederick Burkhardt. Editora Unesp. São Paulo, 1998.
2. "A Origem das Espécies". Charles Darwin. Lello & Irmão. Porto, 2003.