Lamentavelmente esta mentalidade darwinista ainda perdura em pleno século XXI. É o tipo de ideologia perversa, que humilha o ser humano e o coloca no mesmo patamar de um animal irracional.
Tinga e o darwinismo
Lamentavelmente esta mentalidade darwinista ainda perdura em pleno século XXI. É o tipo de ideologia perversa, que humilha o ser humano e o coloca no mesmo patamar de um animal irracional.
O darwinismo social

“O divisor de águas é a publicação do livro “A origem das espécies”, por Charles Darwin, em 1859. Schwarcz explica que a obra se transforma em paradigma científico, unindo monogenistas e poligenistas. Os primeiros mantiveram os critérios de raça por níveis mentais e morais, enquanto os poligenistas reconheciam uma origem única, mas argumentavam que o tempo era suficiente para separações e a solidificação de diferentes heranças.
É neste cenário que ambas as correntes se afastam da biologia e o conceito de raça passou a ser conectado a elementos políticos e sociais. O impacto das idéias de Darwin alcançaram a antropologia, história, teoria política, economia e sociologia, gerando o conceito de “darwinismo social.” Adotaram-se conceitos, nas ciências sociais, como “competição”, “seleção natural” e “hereditariedade”.
O mestiço, com base na aplicação desta perspectiva, virou sinônimo de ser degenerado e inferior.
Enquanto Broca defendia a idéia de que o mestiço, à semelhança da mula, não era fértil, teóricos deterministas como Gobineau e Le Bom advogavam interpretações opostas, lastimando a extrema fertilidade dessas populações que herdavam sempre as características mais negativas das raças em cruzamento. O certo, porém, é que a miscigenação, com a sua novidade, parecia fortalecer a tese poligenista, revelando novos desdobramentos da reflexão. As raças humanas, enquanto “espécies diversas”, deveriam ver na hibridação um fenômeno a ser evitado. (2003;57)
Respaldado pela antropologia de caráter biológico, os teóricos da raça chegaram a três conclusões:
1) A divisão da humanidade em raças era uma realidade, comparável à distância entre animais de uma mesma família. Desta forma, a miscigenação era reprovável.
2) A divisão por raças representava a diferenciação de culturas, pois a reprodução assegurava a “continuidade entre caracteres físicos e morais” . (2003;50)
3) As raças tinham peso na manifestação de comportamentos coletivos, o que reduzia a importância da liberdade de ação individual.
O fortalecimento das conclusões acima levou a um conjunto de idéias que ainda permeia as relações político-ideológicas em torno da racialização humana. Trata-se da eugenia (eu, boa; genus, geração), conceito que significa interferir na reprodução das populações. O termo foi utilizado pela primeira vez pelo cientista inglês Francis Galton em 1883. Naturalista e geógrafo, Galton ficou impressionado com “A origem das espécies” e publicou em 1869 o texto Hereditary genius, no qual defendia que a competência humana se consolidava pela hereditariedade, e não pelos processos educacionais.
Assim, as proibições aos casamentos inter-raciais, as restrições que incidiam sobre ‘alcoólatras, epilépticos e alienados’ visavam, segundo essa ótica, a um maior equilíbrio genético, ‘um aprimoramento das populações’, ou a identificação precisa ‘ das características físicas que apresentavam grupos sociais indesejáveis’. (Galton 1869/1979) In: Schwartz (2003;60)
O discurso racialista apareceu de forma enviesada no Brasil no final do século XIX. Foi um momento em o país, em vias transição do Império para o modelo republicano, recebia visitas constantes de naturalistas, que descreviam o Brasil como uma nação mestiça. No entanto, classificavam a sociedade como um país em transição. Ou seja: que os sucessivos cruzamentos embraqueceriam a população. A mestiçagem era símbolo do atraso e significaria o fracasso do Brasil como nação.
E os números serviam para ratificar os temores dos teóricos, deslumbrados com a chegada, com atraso, das teorias raciais.
Enquanto o número de cativos reduzia-se drasticamente – em 1798, a população escrava representava 48,7%, ao passo que em 1872 passava a 15,2% -, a população negra e mestiça tendia a progressivamente aumentar, correspondendo, segundo o censo de 1872, a 55% do total. Nessa mesma ótica, os dados de 1890 tornavam-se ainda mais aterradores. Ou seja, se na Região Sudeste (devido, sobretudo, ao movimento imigratório europeu) a população branca predominava – 61% - já no resto país a situação se invertia, chegando os mestiços a totalizar 46% da população local. (Schwartz, 1993; 13)
Segundo Schwarcz, a partir de 1870, a intelectualidade brasileira passou a conhecer de forma simultânea doutrinas européias como o positivismo, o evolucionismo e o darwinismo. Isso auxiliou na construção de um modelo próprio de leitura das relações brasileiras, que corriam em paralelo com alterações na legislação. Em 1871, é assinada a Lei do Ventre Livre, que punha ponto final no sistema de produção escravocrata ao libertar o filho de negros cativos. Mesmo contida, a lei do Ventre Livre casava com a postura de muitos países, que condenavam a prática escravagista.
De qualquer modo, as teorias estrangeiras não se encaixavam de maneira tão simples ao contexto brasileiro. A quantidade de mestiços era cada vez maior no quadro populacional e as idéias de controle de reprodução e de grupo homogêneo não ganhavam sustentabilidade prática, embora fossem operadas pela classe intelectual consumidora de conteúdo especializado no campo da retórica. No entanto, o Brasil como “laboratório de raças” absorveu, em suas relações cotidianas, conceitos como superioridade racial e nebulosidade no desenvolvimento futuro por causa da miscigenação. Os negros e mulatos herdeiros de um modelo escravocrata decadente, pagariam o preço do racismo, posteriormente camuflado e negado pelas classes dominantes. Nas ciências humanas, por exemplo, praticadas em Institutos Históricos, justificava-se, por exemplo, a perpetuação de posicionamentos sociais a partir de variações do conceito de “darwinismo social”.
O uso da raça virou pecha, elemento qualificatório, manipulado de acordo com os interesses de quem o utilizava. A comunidade jurídica, por exemplo, entendia que raça era uma característica particular da sociedade brasileira e que a elaboração de leis deveria se sobrepor à adjetivação racial. A classe médica, por sua vez, acreditava que raça era um elemento biológico, preponderante na diferenciação de grupos. Tratava-se de um fator relevante para a criação e implementação de políticas sanitaristas e de higiene pública.
A perspectiva eugênica perdeu força no Brasil, embora tenha colaborado na construção de posturas discriminatórias, na primeira metade do século XX. Na Europa e nos Estados Unidos, a via é oposta. Os alemães adotaram o arianismo, a busca pela raça pura, um dos pilares da doutrina nazista, enquanto os norte-americanos cristalizaram a ideologia do segregacionismo, tanto para negros como para indígenas.
Barbujani, no livro A Invenção das Raças, descarta qualquer método científico que seja capaz de levantar possibilidades genéticas de diferença racial. Ele busca apoio, inclusive, em operações matemáticas.
Cada um de nós tem pais, quatro avós e oito bisavós. É raro que alguém conheça seus trisavôs, mas sabemos que foram 16, e assim por diante. Isso significa que, há dez gerações, isto é, cerca de 250 anos, cada um de nós teve cerca de mil antepassados (1024 para sermos exatos). (...) Douglas Rohde, do Massachussets Institute of Technology, calculou que quaisquer duas pessoas do nosso tempo têm um antepassado comum que viveu há pouco mais de três anos. (2007; 15)
Os resquícios desta prática podem ser vistos até hoje. Um exemplo são as inúmeras denominações presentes em pesquisas demográficos. Termos que – de alguma forma – servem para se evitar o peso histórico e cultural das palavras negro e preto. Era possível perceber dezenas de nomenclaturas quando a resposta era auto-declaratório. Expressões como moreno, mulato, pardo, pé na cozinha e outras demonstravam o imaginário popular brasileiro.
Na África do Sul, por exemplo, em tempos de apartheid, chineses eram chamados de asiáticos e japoneses, de brancos.”
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É isso!
Fonte:
Marcus Vinicius O.A. Batista: “Giz de cor: um olhar de professores negros sobre as relações raciais nas escolas públicas”. (Dissertação apresentada no Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação da Universidade Católica de Santos, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação, sob a orientação da Prof. Dra. Maria Helena Bittencourt Granjo). Universidade Católica de Santos. Santos – SP, 2008.
Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O Darwin que muitos não querem ver

“Ao contrário do que alguns ainda podem imaginar, as bases da história evolutiva moderna não se fizeram exclusivamente sobre o estudo dos animais e plantas in natura. Muitos dos fatores mais importantes utilizados nas discussões evolutivas são provenientes das observações relacionadas às sociedades humanas.
Freqüentemente, Charles Darwin em A Origem do Homem faz comparações entre humanos (civilizados e selvagens) e outros animais, sempre que possível correlacionando os grupos, populações e sociedades. Ridley (2004) afirma que Darwin foi pioneiro na idéia de procurar o caráter do homem no comportamento do macaco, além de ter tentado demonstrar que existem características universais presentes em todos os humanos, como sorrir ou sentir raiva. Ao mesmo tempo em que Darwin perseguia a ancestralidade comum dos homens, conseguiu deixar um rastro de preconceito onde quer que tenham chegado os seus escritos.
Há uma carta de Karl Marx para Engels em que o autor de o Capital ironiza as teorias darwinianas, taxando-as de mera cópia para os animais e plantas do modelo da sociedade inglesa da época (Freire-Maia, 1988). O próprio Friedrich Engels (1979) criticou contundentemente as idéias de Charles Darwin, alertando para os perigos da transposição de teorias reacionárias e questionáveis da esfera humana para a história natural, revertendo-as posteriormente em “história da sociedade”. As preocupações de alguns “sociólogos” em relação às teorias darwinistas estiveram presentes nas primeiras divulgações de A Origem das Espécies. O mote da polêmica foi provavelmente a consonância entre evolução biológica e capitalismo selvagem.
Além de se referir ao longo tempo que Charles Darwin levou para divulgar seu trabalho, os biólogos evolucionistas comumente ressaltam que após a leitura do ensaio de Malthus, Darwin finalmente conseguiu identificar um agente para a seleção natural.
É fato que a obra de Charles Darwin tem forte raiz na teoria econômica moderna e nas formas precursoras do capitalismo que hoje conhecemos. Negar estas correlações não é conveniente na análise dos próprios rumos tomados pelas teorias evolutivas “pós-darwinistas”.
Matt Ridley (2000) afirma que Thomas Hobbes foi o antepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta e, ao apresentar sua “genealogia de influências”, revela que muitos conceitos econômico-ocidentais devem continuar a ocupar um nicho epistemológico na biologia moderna (porventura na pós-moderna...):
Hobbes (1651) gerou David Hume (1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerou Thomas Robert Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foi depois de ler Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competição entre grupos e passou a pensar sobre competição entre indivíduos... O diagnóstico hobbesiano – embora não a receita – ainda está no centro tanto da economia quanto da biologia evolutiva moderna (... Darwin gerou Dawkins) (Ridley, 2000, p. 284).
Darwin observava com maior facilidade (talvez todos nós) as relações entre populações distintas – raposas perseguindo faisões ou gatos devorando ratos. A evolução, contudo, não poderia ser explicada “apenas” sob este aspecto. A análise mais atenta do naturalista levou-o a conclusão que a evolução só poderia ocorrer através da variedade presente nos indivíduos da mesma espécie e a conseqüente competição intra-específica, que acarretaria no favorecimento (ou não) de algumas características sobre outras. O ensaio de Malthus “revelou” a Darwin que a competição entre os indivíduos seria inevitável, pelo fato destes necessariamente utilizarem os mesmos recursos. Como conseqüência, Darwin passou a “ter que ver” todas as diferenças possíveis que pudessem desencadear o processo evolutivo. Nesta perspectiva, uma das conclusões alcançadas pela A Origem do Homem é que a seleção natural teria eliminado os seres humanos considerados “fracos de mente”, daí a “baixa” freqüência destes nas populações em geral. Para as proposições darwinistas, todo “estranho” (albinos em uma população negra; baixos em uma população alta etc...) seria efêmero, e esperava-se que deixasse poucos descendentes.
A xenofobia é um tema recorrente em A Origem do Homem. Em muitos trechos Charles Darwin observa que, entre indivíduos de um mesmo povo, pode se esperar fidelidade, mas entre indivíduos de povos diferentes jamais, especialmente entre “selvagens” e “civilizados” (Darwin, 2002). As comparações feitas por Darwin (2002) podem ser interpretadas como uma referência ao maior grau de proximidade entre as “raças inferiores” e os animais em geral. Embora nunca diga isto de forma sistemática ou clara, em alguns trechos da obra, Charles Darwin demonstra seus preconceitos. Ele até considera as “raças bárbaras” próximas das civilizadas, mas não mais do que um símio ou um idiota o são.
A grande tendência, nos nossos afins mais próximos, os símios, nos microcéfalos idiotas e nas raças bárbaras melânicas do gênero humano, em imitar qualquer coisa que ouçam se torna digna de nota... (Darwin, 2002, p. 108- 109 - destaque meu).
Quando é impelido pelo contexto a comparar animais e homens, Darwin (2002) parece preferir fazê-lo entre animais domésticos com homens civilizados e criaturas selvagens com os povos bárbaros e primitivos (ou designados de forma generalizante como “raças melânicas”). Uma das conclusões alcançadas com base nestes tipos de comparações é a de que os domésticos (animais e homens) são mais fecundos e resistentes às doenças e variações do que os selvagens (... também, animais e homens), menos profílicos e frágeis, especialmente quando retirados de seus ambientes naturais.
A sombra perversa do preconceito passeava pela Europa desde o colonialismo ajudando, a criar um cenário ideal para que entrassem em cena o racismo científico e a adoção de classificações que excluíam seres humanos desta condição. A impressão que tenho é a de que Darwin não enxergava tantas diferenças ou, pelo menos, não as enxergava em maior número do que as semelhanças. Talvez pelo fato de estar envolto em uma cultura tradicionalmente racista, Darwin devesse a satisfação social de apontar alguma superioridade européia. É possível que algumas posturas textuais de Darwin se dessem em função dos convencionalismos dos acadêmicos ingleses ou até para tornar o livro mais acessível aos seus elitizados leitores. Todavia, muitos desdobramentos de sua teoria evolutiva serviram como fomento de práticas tão perversas que terminaram por levar o darwinismo ao patamar de um dos grandes algozes da humanidade em todos os tempos (Rose, 2000).
Os fatos observados no final do século XIX até a primeira metade do século XX foram o estopim de uma cultura de guerra há muito instaurada. Nesta perspectiva, responsabilizar unicamente Charles Darwin pela fundamentação científica da intolerância e do extermínio não me parece justo; em outra, minimizar suas influências para algumas das mais terríveis formulações teóricas e práticas dos períodos subseqüentes à divulgação de seus trabalhos é improcedente. Desde sua concepção, o darwinismo foi uma das poucas propostas que obtiveram o demérito de ofender a praticamente todos – a esquerda política, por levantar a possibilidade de determinismo genético; a direita, por solapar os valores tradicionais da sociedade e dos intelectuais em geral, por simplificar e reduzir as ações humanas a atitudes individuas, instintivas e egoístas (Foley, 2003). O desagrado, entretanto, parece ter sido substituído pelo fatalismo de uma verdade que somente foi questionada depois de causar grandes estragos.
A leitura de A Origem do Homem e a Seleção Sexual deixa claro que as portas do racismo científico, eugenia e dominação estavam mais abertas e largas. As discussões sobre as diferenças entre as “raças” estavam na atmosfera científica da época e muitos trabalhos corriam nos meios intelectuais revelando as mais variadas concepções antropológicas. Darwin (2002) refere muitos artigos e ensaios, mas dedica atenção especial aquele que hoje é considerado como um dos maiores aliados para a desigualdade entre as populações - o texto de Galton.
Francis Galton publicou em 1869 Hereditary Genius: and Inquiry into its Laws and Consequences, considerado o texto fundador da eugenia (Schwarcz, 2002) e mencionado por Darwin em A Origem do Homem em 1871. Neste livro, Galton, que era primo de Darwin, busca demonstrar a partir de um método estatístico e de análise genealógica, que a capacidade humana era função da hereditariedade e não da educação. O estudo da hereditariedade iria tornar-se a obsessão de Galton durante sua vida inteira, uma vez que ele não conseguia imaginar nenhum meio melhor de aprimorar o destino, o caráter ou as habilidades dos seres humanos (Rose, 2000).
A associação entre a lei natural proposta por Darwin e as conclusões construídas por Galton eram “compatíveis epistemologicamente”, pois partiam dos mesmos princípios de luta pela vida, sobrevivência dos mais aptos e hereditariedade. Darwin “determina” em A Origem do Homem que
No que tange o intelecto, os indivíduos da mesma espécie são graduados da absoluta imbecilidade à excelência (Darwin, 2002, p. 99).
De onde se abstrai que as características intelectivas eram inatas. Seguindo o curso natural, deve-se esperar que em todos os indivíduos de uma espécie, no caso a humana, existam “variações intelectivas”. Assim sendo, não se podem traçar grupos mais inteligentes ou mais imbecis, já que se espera que os grupos apresentem uma freqüência regular entre “gênios” e “idiotas”. O problema é que Darwin abre um precedente. Ele considera as raças como subespécies e, desta forma, as freqüências de imbecis ou gênios podem variar entre as populações de forma diferenciada. Ele prevê que,
No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo mundo (Darwin, 2002, p. 88)."
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É isso!
Fonte:
EDUARDO PAIVA DE PONTES VIEIRA: “BIOLOGIA, DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS NECESSÁRIOS”. (Dissertação apresentada à comissão Julgadora do Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico da Universidade Federal do Pará, sob a orientação da Professora Doutora Silvia Nogueira Chaves, como exigência parcial para Obtenção do título de MESTRE EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS, na área de concentração: Educação em Ciências). Universidade Federal do Pará. Belém, 2006.
Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
Sobre o "berço da humanidade"
“Naturalmente somos levados a perguntar-nos onde teria sido o lugar de origem do homem naquela fase da evolução em que os nossos antepassados se diversificam do tronco dos catarríneos. O fato de eles pertencerem a este tronco demonstra claramente que habitavam o velho mundo, mas não a Austrália e tampouco alguma ilha oceânica, como podemos deduzir das leis da distribuição geográfica. Em toda região grande do mundo os mamíferos viventes estão em estreita relação com as espécies extintas da mesma região. Portanto, é provável que a África fosse inicialmente habitada por símios que estão extintos, estreitamente afins ao gorila e ao chimpanzé. Visto que agora estas duas espécies estão mais próximas ao homem, é um tanto quanto mais provável que os nossos primeiros antepassados habitassem o continente africano e não outro lugar” (Hemus Editora, p. 183).
Sobre exatamente isto, escreve Richard Leakey em “A Origem da Espécie Humana”:
“Devemos lembrar que, quando Darwin escreveu estas palavras, nenhum fóssil humano primordial tinha sido encontrado em qualquer lugar; sua conclusão era inteiramente baseada em teorias. Na época de Darwin, os únicos fósseis humanos conhecidos eram do homem de Neanderthal, na Europa, e estes representam um estágio relativamente tardio da evolução humana.
Os antropólogos não gostaram nada da sugestão de Darwin, porque a África tropical era olhada com desdém colonialista: o Continente Negro não era visto como um lugar apropriado para a origem de uma criatura tão nobre como o Homo sapiens. Quando mais fósseis humanos começaram a ser descobertos na Europa e na Ásia na virada do século, mais zombarias foram lançadas sobre a idéia de uma origem africana, Esta atitude prevaleceu por décadas. Em 1931, quando meu pai disse aos seus mentores na Universidade de Cambridge que planejava procurar as origens humanas no leste da África, recebeu uma pressão enorme para em vez disto concentrar sua atenção sobre a Ásia. A convicção de Louis Leakey era parcialmente baseada no argumento de Darwin e parcialmente, sem dúvida alguma, no fato de que ele havia nascido e sido criado no Quênia. Ele ignorou o conselho dos estudiosos de Cambridge e conseguiu estabelecer a África Oriental como uma região vital na história da nossa evolução primordial. A veemência do sentimento anti-África dos antropólogos parece agora estranha para nós, dado o vasto número de fósseis humanos primordiais que tem sido recuperado neste continente nos anos recentes. O episódio é também um lembrete de que os cientistas são muitas vezes levados tanto pela emoção quanto pela razão” (Editora Rocco, p. 16,17).
A frase de Leakey “Os antropólogos não gostaram nada da sugestão de Darwin, porque a África tropical era olhada com desdém colonialista: o Continente Negro não era visto como um lugar apropriado para a origem de uma criatura tão nobre como o Homo sapiens” me parece uma jibóica contradição, isto levando em conta os interesses ideológicos dos antigos darwinistas sociais. Ora, o “progresso” era marca registrada do pensamento racista dos antropólogos e filósofos evolucionistas nos primórdios do darwinismo. Sendo assim, a idéia de que o homem teve sua origem na África, em vez de chocar-se com seus ideais de superioridade racial, favoreceu enormemente esses sentimentos preconceituosos, já que corroborava em cheio o conceito de “progresso da civilização” ou "evolução cultural dos povos". O homem, saindo de sua ínfima origem (a África) ascendeu rumo à plena civilização (a Europa).
Isso me fez lembrar de um antigo documentário passado na TV Cultura sobre o apartheid. Quando perguntado por um repórter sobre a revolta do povo banto, um inglês “branquinho e engomado” obstou-o alegando que sequer ele “havia descido da árvore”. Ou seja, para o pensamento racista, se baseado no ideal de evolução como progresso, é muito mais interessante que o homem tenha sua origem na África, em vez da Ásia ou Caculé.
É isso!
O conceito de “periculosidade” entre os eugenistas brasileiros

"Em seu trabalho As Ilusões da Liberdade ... Mariza Corrêa aponta a necessidade de fazer um estudo da história de um outro conceito, o conceito de periculosidade, que se desenvolve nos trabalhos internacionais da chamada antropologia criminal, assim como nos desenvolvidos por Nina Rodrigues, conceito que se alonga até ser incorporado no código penal brasileiro de 1940, código que está até hoje em vigor. Esta proposição é bastante interessante porque, este conceito que aparece nos trabalhos científicos nacionais a partir do estudo da criminalidade tal como se desenvolvia na Europa, ganha através da medicina, passando pelo direito e indo até às leis caráter de verdade e paradigma, porque ele consegue sintetizar várias práticas se tomando instrumento.
O conceito de periculosidade teve por veículo os trabalhos realizados pela medicina legal. em seu desenvolvimento articulado com técnicas internacionais admitidas aqui no Brasil. A idéia fundamental que orientava estes estudos era a de que havia a necessidade de se manter a ordem social. Na defesa da ordem social, estes cientistas desenvolviam estudos objetivando o entendimento das cousas naturais da criminalidade em nosso Pais . Nas décadas de 1920 e 1930 os envolvidos com a questão da criminalidade partem para uma série de pesquisas, objetivando encontrar nos criminosos características fisicas, psíquicas e sociais que pudessem fornecer a sociedade um entendimento mais seguro das cousas da criminalidade e consequentemente, planos mais eficientes de defesa social, ou seja, a ciência em função da sociedade, através dos grupos sociais que continuam sendo postos em função da ciência.
Na execução do projeto de defesa social e de manutenção da ordem, se lança mão de vários instrumentos científicos internacionais, construídos a partir do desenvolvimento da própria ciência em seus estudos sobre criminalidade. Um destes instrumentos que foi utilizado no Brasil, foi a chamada biotipologia, que segundo Corrêa é apresentada no 1º Congresso Latino Americano de criminologia (Buenos Aires - 1938), por Leonídio Ribeiro médico brasileiro.. na época, diretor do Instituto de Identificação do rio de Janeiro. A biotipologia é apresentada através da exposiçao de dois trabalhos realizados no Rio de Janeiro. Segundo Leonídio esta ciência era capaz de “...estudar o homem classificando os numerosos tipos humanos, num método rigoroso de estudo integral dos fenômenos morfológicos, funcionais, morais, afetivos, evolutivos e intelectuais.”
Como já dissemos estas pesquisas objetivavam à prevenção do crime que segundo estes pesquisadores seria possível dominar.
“... desde que se lograsse classificar blotipologicamente, desde a primeira Infância, todos os indivíduos, especialmente aqueles que, pela sua constituição e tendências, pudessem ser considerados como pré-delinqüentes e, por isso, passíveis de medidas especiais de tratamento e educação, capazes de corrigir ou atenuar suas anomalias e conseqüentes reações anti-sociais”.
Leonídio Ribeiro, desenvolve na década de 30, uma enorme batalha no sentido de tomar obrigatória a identificação civil, que se legitimava através dos resultados apresentados das várias pesquisas que ele desenvolvia sobre criminalidade, pesquisas que tinham determinações práticas que deveriam ser adotas pela sociedade. Numa articulação entre criminalidade e trabalho Leonídio acaba definindo melhor suas intenções e o dimensionamento da defesa.
“É preciso, ao meu ver, tomar obrigatório a Identificação civil de todos os trabalhadores pelo método científico da dactiloscopia, afim de defender a sociedade e de proteger os patrões”.
Este autor deixa bastante nítido em seu trabalho, a importância da incorporação por parte do estado de uma perspectiva orientada pelo desenvolvimento científico, tanto que a idéia de identificação civil deveria, segundo ele ser articulada a outras formas de controle por parte do estado na. população em defesa da ordem social. Neste sentido, as pesquisas deveriam desenvolver estudos que pudessem dar conta não só daqueles que estavam envolvidos pelos controles institucionais definidos, como as escolas, as igrejas. as prisões e os outros vários mecanismos do estado, mas também dos outros indivíduos que de alguma forma fugiam aos espaços de controle e poder. O Estado deveria criar, a partir dos resultados das pesquisas, “os abrigos para menores”. A cidade do Rio de Janeiro devei-ia se espelhar, novamente, em outros modelos municipais, que haviam construído formas de controle das questões que impunham perigo a ordem social, e de fato foi isso que se realizou.
A idéia do controle por parte do Estado através do isolamento dos elementos que apresentavam perigos à ordem social, se articulava no entendimento do crime como doença. O conceito de periculosidade, matéria dos estudos e dos cursos na cadeira de Medicina Legal, permitia que se fizesse tal articulação, na medida em que a criminalidade. como algo que se realiza a partir de características naturais hereditárias, ou seja, adscritas, se ligava aos estudos científicos sobre a doença de uma forma geral. É de Afrânio Peixoto, outro médico que se auto intitulava seguidor dos esforços de Nina Rodrigues, o pensamento que melhor define esta articulação.
“Porque não considerar o criminoso doente social da mesma maneira? A noção de pericolosidade acorre a isso, assimilado o perigoso social ao perigoso sanitário ou perigoso psicopático, declarado alienado. Mas a disparidade começa porque só se isola ao doente social declarado depois do crime, quando a prevenção social obriga, sanitariamente, a segregar o possivelmente infectado, perigoso higiênico, infectante, antes de infectador. Porque não corrigido pelo cárcere, com trinta anos nossos, ou nos anos soviéticos, entrega-se à sociedade o irresponsável o irresponsável, como não faríamos, com igual critério, ao pestoso de mais de dez dias, ao várioloso ainda doente além de vinte, ao tifico que está longe de são aos trinta? Prazos de cura ou refontia serão tio absurdos sanitariamente quanto absurdos sanitariamente, quanto penalmente.”
Peixoto trabalha com o pensamento de que existem na sociedade vários focos, que podem a qualquer momento infectar os que não estilo doente. Segundo ele a idéia de periculosidade aparece como um grande progresso nas leis penais porque incorpora a perspectiva de “prevenir antes de curar’. Prevenir significa extinguir os focos, numa. política mais ampla de higienização, politica que incorpore a criminalidade como doença.
Desse jeito, a questão da criminalidade se desenvolve através do conceito de pericuiosida.de. recebendo no totalitarismo do Estado varguista elementos necessários a sua realização. É neste período que, a medicina investe também mais efetivamente na popularização de seus argumentos. Como exemplo disso vemos os textos que são apresentados no Boletim Eugênio, veiculo de divulgação das proposições médicas da época, criado em 1929. O Boletim Eugênio, defendia as proposições mais fundamentais do movimento eugenista internacional definidas assim:
“A eugênia estuda as leis da hereditariedade no que diz respeito a conservação e ao progresso do gênero humano: 1° ) Fomentando a Reprodução dos melhores elementos. 2° ) Restringindo a fertilidade dos Inferiores e incapazes. A eugenia aplica as leis biológicas para o aperfeiçoamento integral da humanidade”.
Segundo os eugenistas a tarefa era proteger a sociedade contra o que eles chamavam de medíocres, que representam à maioria no mundo e que eram a ameaça mais terrível a toda humanidade. O Boletim Eugênio tinha um caráter panfletário. Os objetivos dos módicos através dele era o de contemplar toda sociedade, neste sentido os textos apresentados eram curtos, numa linguagem que não se estreitava no discurso exclusivamente técnico, os artigos eram curtos e ftindamentalmente informativos com a intenção de convencimento.
Neste boletim circulavam artigos científicos, pesquisas e depoimentos de pessoas de vários países que defendiam os ideais eugênicos como dever a ser seguido por todos, na luta contra os medíocres que aumentavam, segundo eles, diante do desenvolvimento dos instrumentos tecnológicos no mundo. Para os eugenistas, “Com o advento das maquinas e dos aparelhos automáticos, os medíocres foram aos poucos deixando à margem como inúteis, aumentando, assustadoramente, o mundo de indigentes”.
Aqui vemos o discurso eugenista interpretar a marginalidade, não como um lugar definitivo, mas como um locus jogado no tempo. A marginalidade assim como a criminalidade advém do espaço das possibilidades onde se criam os criminosos, medíocres e indesejáveis.
Os classificados, pelos etLgenistas, como medíocres cresciam ainda mais com o aumento da miséria. Eles argumentavam sobre uni problema histórico e social a partir dos parâmetros biológicos. Para eles só “um sério programa de profilaxia da procriação poderá reduzir. progressivamente, essa avalanche de infelizes que constituem grave perigo para a comunidade’.
Com títulos extremamente apelativos. investiam através de valores morais em defesa de suas proposição que passavam pelas instituição mais sagras. como casamento. Em um artigo do Boletim, que tinha como titulo, ‘QUEM AMA O POVO BRASILEIRO, DEVE NOS AJUDAR NA CAMPANHA EM PRO DA EUGÊNIA”. Renato Kehl afirmava:
“Enquanto não se estabelecer a proibição matrimonial para os inaptos para a procriação rígida ou sua esterilização, a educação e a higiene não conseguirão diminuir as anomalias, os vicies e os crimes, em suma, não levantaram o nível da coletividade.”
Os eugenistas se colocavam também contrários às práticas filantrópicas que ao ajudarem os chamados medíocres, depunham contra a seletividade social. A filantropia deveria se voltar para os “NORMAIS”, e não somente para os “doentes” e “degenerados”. A filantropia mal direcionada, segundo os eugenistas, era um fator de indigência e de degradação social. Neste sentido a sociedade, como eles propunha deveria esta voltada para o incentivo ao casamento mais cedo dos chamados normais, para que eles pudessem procriar mais, fomentar incentivos a educação e ia profissionalização, para que eles pudessem vencer a batalha social.”
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É isso!
Fonte:
Nota:
Os “Capitães da Areia” sob o olhar do médico Lombroso

Dos romancistas brasileiros, Jorge Amado sempre foi um dos que menos me atraiu. No entanto, a leitura de “Capitães da Areia” fez avivar em mim um enorme interesse por suas outras obras. “Jubiabá”, por exemplo, já está na “lista de espera”, entre outros.
O livro “Capitães da Areia” narra a história de crianças abandonadas e marginalizadas pela sociedade, as quais para sobreviverem praticam os mais variados tipos de delinquencia. E nessas aventuras nada sociáveis, vez ou outro acontecia de algum deles ser pego pela polícia e conduzido ao temido reformatório de menores delinquentes, onde a lei era “pau no lombo”.
Numa certa ocasião, quando o chefe do grupo Pedro Bala cai nas mãos do terrível diretor do reformatório, este, que havia lido o antropólogo italiano Cesare Lombroso, diz ao bedel, após fitar bem os olhos no garoto:
– É o chefe dos tais de Capitães da Areia. Veja... O tipo do criminoso nato. É verdade que você não leu Lombroso... Mas se lesse, conheceria. Traz todos os estigmas do crime na face. Com esta idade já tem uma cicatriz. Espie os olhos... Não pode ser tratado como um qualquer. Vamos lhe dar honras especiais...
Lembrei-me então do livro “O Homem Delinquente”, do referido antropólogo, um verdadeiro cabedal de preconceito e racismo, mesmo levando em conta a época e o contexto cultural em que fora escrito.
Neste livro, Lombroso tenta provar por meios de traços físicos específicos as características natas de um criminoso. Por exemplo:
OS CABELOS
“Os cabelos negros e os castanhas são maia freqüentes entre os criminosos, enquanto os louros são inferiores de um terço — 13 a 33. O máximo de cabelos negros encontra-se entre os incendiários e os ladrões; o mínimo, entre os violadores. O máximo de castanhos nos é dado pelos desocupados, pelos agressores, pelos ladrões de estradas. Os louros não se encontram em maioria senão entre violadores e escroques. Os ruivos (apesar do que dizem os provérbios) são muito pouco frequentes."
A BARBA
“A raridade ou a ausência da barba já a constatei, entre os criminosos, 23 vezes em 100 (Marro 3,9%) e, entre os alienados, 18 vezes em 100 somente.
Os escroques tinham quase sempre a barba espessa; os ladrões e os agressores, mais rala.
Os menores apresentaram, na proporção de 18%, a barba abundante, o que não se encontra jamais entre os menores normais."
A ÍRIS
"Bertillon, sobre 4.000 criminosos, encontrou 33,2% com a íris de cor marrom; 22,4% de cor castanho escura; 32,4% de cor amarela ou avermelhadas, e 12% despigmentadas ou com reflexos esverdeados (Rev Scient. 1885).
As cifras revelam uma certa frequencia de íris escuras: infelizmente, não dispomos de comparações com os normais.
Observei também, entre os criminosos, una proporção triplicada (0,3) de assimetrias cromáticas da íris, quando comparados aos normais (0,013).”
AS ORELHAS
"Marro observou que 7,30/, dos criminosos têm as orelhas em abano. Já eu observei tal característica em 38,7%, enquanto que, entre os normais, não encontrei mais que 20%.
O professor Gradenigo estudou o pavilhão aaricular em UMA muito ampla escala.
Os sujeitos observados eram muito numerosos. Em outro exame cuidadoso de 650 pessoas (350 homens, 300 mulheres), passou rapidamente em revista os pavilhões de 25.000 pessoas em Turim (15.000 homens. 10.000 mulheres). Foram examinados 330 alienados (180 homens, 150 mulheres), 76 cretinos (50 homens, 26 mulheres), 352 criminosos típicos (304 homens, 48 mulheres).
Entre as pessoas honestas, as orelhas em abano são, portanto aproximadamente 50% mais freqüentes entre os homens que entre as mulheres; as orelhas de Wildermuth”, ao contrário, são mais freqüentes entre aquelas.
As anomalias da conformação do pavilhão encontram-se, portanto, aproximadamente duas vezes mais frequentes entre os criminosos que entre os adultos honestos de Turim. Quanto ao número de lóbulos aderentes, a exceção que resulta das cifras não é mais que aparente, porque, entre os criminosos, se encontram muito freqüentemente os lóbulos aderentes prolongados ao longo da bochecha, espécie de anomalias mais grave que os lóbulos simplesmente aderentes. De mais, Gradenigo constatou, entre os criminosos, uma freqüência toda particular de orelhas de Darwin, más formações da hélice e da ante-hélice e de assimetrias de implantação, etc. [...]
Isso demonstra que tais anomalias aparecem, em grande número, à direita entre os loucos e os criminosos.
Segundo um estudo de Frigerio.
O ângulo áurico-temporal ultrapassa 90° em condições normais, com cifras de pouco inferiores àquelas constatadas entre os loucos e os criminosos.
A média percentual tende a aumentar do homem são ao alienado e ao criminosos.
Ela é ultrapassada entre os macacos, sobre os quais é, raramente, inferior a 10º . [...]
De acordo com o índice médio da concha, os alienados e os criminosos se sucedem, como segue, em ordem decrescente não hereditários 0,69%; degenerados e violadores 0,67%; ladrões de estradas 0,66%; homicidas 0,65%; ladrões e falsários 0,65%; hereditários 0,64%; incendiários 0,60%."
O NARIZ
"19 criminosos em 500 apresentavam nariz torto à direita ou à esquerda; precisamente a mesma proporção que entre homens normais (3%). Os violadores, 2 sobre 40, apresentam a anomalia e 5 outros tinham nariz com três lóbulos ou excessivamente grossa. Essa deformidade é ainda mais freqüente entre aqueles que apresentam o nariz achatado.
O nariz desmesaradamente longo encontra-se 2 vezes sobre 100, assim Perello, ladrão de Turim, tinha um nariz longo de 4 centímetros.
Ottolenghi estudou, mais em detalhe, a forma do nariz, seu perfil, sua base, seu comprimento, sua protuberância (segundo as regras traçadas por Bertillon), entre 630 normais, 392 criminosos, 40 epilépticos e 10 cretinos.
O criminosos, em geral, apresentam o nariz retilíneo (60,31%), a base horizontal (60,97%), de comprimento médio (48,73%), antes largo (54,14%), muito protuberante (38,53%), freqüentemente desviado (48,13%).
Entre os criminosos, pode-se determinar suficientemente bem o nariz do ladrão e o do violador.
O ladrão apresenta, em grande parte, o nariz retilíneo (40,4%); freqüentemente côncavo (23,329/a); a base levantada (32,13%); frequentemente curto (30,92%); largo (53,28%); achatado (31,33%); e muitas vezes desviado (37,5%).
Os violadores têm, frequentemente, o nariz retilíneo (54,5%); achatado (50%); e desviado (50%); mas de dimensões médias.[...]
Vemos assim que o perfil mais freqüentemente retilíneo e a direção desviada distinguem o nariz do criminoso daquele do normal. O comprimento, a largura e protuberância distinguem suficientemente, entre outras, os diferentes tipos criminais.
O nariz do epiléptico é freqüentemente ondulado (42,8%) e adunco (32,8%); horizontal na base (73,3%); muito longo (74%); muitas vezes bem largo (30%); freqüentemente desviado (25%); quase sempre protuberante (59,94%)."
OS DENTES
"Em 4% de homicidas, nota-se o desenvolvimento desmensurado dos dentes caninos. Em 7%, os dentes apresentam outras irregularidades, tais corno ausência dos incisivos laterais, sua semelhança com os caninos e a má formação destes ou sua superposição."
A GENITÁLIA
"Encontrei partes genitais anormais em 2% de agressores, 2,6% de escroques, 5% de violadores, 1% de ladrões. Penta, em 15% de grandes criminosos.”
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É isso!
Fonte:
Cesare Lombroso: “O Homem Delinquente”.
"Uma ciência atrás da cortina de ferro"
A forma como a ciência foi manipulda na antiga União Siviética, sob o comando do temido Lysenko, é mais ou menos exposta nesta obra, da qual extrair um capítulo que versa exatamente sobre a ascenção deste poderoso cientista de Stalin. Encontrei o livro num desses sebos do centro de São Paulo, e faço questão de torná-lo público neste simples blog. Ei-lo:
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A Ascenção de Lysenko
"Lysenko, nascido na Ucrânia em 1898, de família modesta, exerceu sua primeira atividade em 1913 no Instituto de Horticultura, de Poltava, passando em seguida para Umansky, em cujo Instituto de Horticultura trabalhou até 1921. Desempenhou alguma atividade como melhorista de planta (plant-breeder”) em Kiev, indo, em seguida, trabalhar em Gandza, Azerbdjão, sôbre assuntos relacionados com a propagação de plantas. Desde 1926 que se dedicava, com afinco, a êsses problemas, focalizados, mais tarde, em maio de 1929, no «Congresso de Genética e Melhoramento de Plantas e Animais”, presidido por Vavilov. Aí êle faz seu primeiro aparecimento oficial, embora já houvesse publicado um trabalho em 1928, no Boletim N.° 3 da Estação Experimental de Melhoramento de Plantas de Azerbdjão.
Vamos nessa ocasião encontrar as primeiras afirmações de Lysenko num processo “novo” de técnica chamado por êle de vernalização, segundo cujos princípios não existem plantas de inverno ou de primavera, como no caso do trigo, mas condições especiais que podem alterar o comportamento intrínseco dêsses trigos, mudando o hibernal em primaveril, e vice-versa, tão só com processos de tratamento artificial.
Em 1932 reúne-se a Conferência Nacional de Planificação para os assuntos de Genética e Seleção, onde o programa oficial encareceu a urgência do aumento de produção agícola, pois o próprio Stalin determinou que se se substancial melhoria em tempo variável de 4 a 5 anos. Estabeleceu ainda a Conferência que os assuntos de genética deviam orientar-se no sentido do materialismo dialético, decisão esta que veio favorecer Lysenko, no decorrer dos anos.
Em 1934 e 1935, Lysenko publica dois outros trabalhos, ainda sôbre vernalização, sendo que neste último saiu o livro por êle escrito de parceria com Prezent - sôbre “Melhoramento das plantas e teoria fásica do denvolvimento”, no qual conferem as suas primeiras inpretações dos fenômenos de herança. Até essa altura as aparições nas revistas técnicas, ou nos congressos, guardavam certo recato e ponderação nos ataques à Genética, o que se não deu daí para diante, por lhe parecer necessário um combate mais violento e sistemático.
No IV Congresso da Academia Lenine de Ciências Agrícolas (1936) Lysenko e Prezent assumiram o comando apaixonado dos ataques à Genética, e sua argumentação impressionou ao meio oficial e aos não-cientistas presentes. Mostraram êles que a Genética se chocava com os princípios dialéticos, era inconsistente com os postulados de Darwin e despida de fundamentos práticos. O ambiente tornara-se carregado e um grupo relativamente ponderável passou a secundar Lysenko. Nesse grupo se sobressaíram os seguidores do autor da inseminação artificial, Ivanov. Estabelecia-se um cisma bem definido entre os dois grupos, teatralizando os lisenquistas com uma eloqüência fogosa, onde mais descobria o conteúdo dialético, político, que o genético ou científico. A Genética fôra acusada de idealista, mecanicista e sem fundamentos concretos. Meister, presidente do Congresso, que concordou com alguns dos pontos do ataque, discordou de Lysenko no atinente à teoria física da hereditariedade (cromatossoma), e Serebrovski, com vigor, analisou a argumentação de Lysenko e mostrou a fragilidade de sua obra, baseada num conjunto de conceitos abandonados, por falhos de sustentação científico-experimental, tendo Lamarck pela proa. Müller, presente como convidado, verberou no mesmo tom e apresentou uma vigorosa exposição do Mendelismo, mostrando a correspondência eloqüente que a citologia revela com a Genética. Vavilov também defendeu a genética e, embora tenha mostrado o quanto de prático ela trouxe, não deixou de ser censurado por não haver rebatido os pontos essenciais dos lisenquistas.
É interesante notar que nessa reunião os geneticistas expuseram francamente suas opiniões, pois havia os verdadeiros mendelista (Vavilov, Müller, Serebrovski, Levitski, Sehurdin, Lisicin, Konstantinov, Navashin, etc.), os mendelistas que encontravam algum conteúdo nas teorias de Michurin (Meister, Pisarev, etc.) e os opositores ferrenhos do mendelismo, capitaneados por Lysenko.
Aí por volta de 1937, Zebrak, geneticista, mas ao mesmo tempo dialeta convicto, abriu fogo contra seu colega Vavilov, considerando suas obras como destituídas de conteúdo dialético, embora expusesse com vigor que não havia nenhuma divergência da ciência genética com os princípios dialéticos, alegando que os métodos empregados é que eram responsáveis pelo conflito de princípios não a ciência em si. E no III Congresso Russo de Genética essa onda de certa confusão tomou corpo. Aumentava, para Lysenko, a simpatia dos congressistas. Já nessa altura Vavilov havia sido ptiblicamente atacado de esposar idéias de uma ciência que era a base da teoria fascista de superioridade racial, tema também explorado por Lysenko, embora exposto por Vavilov o absurdo de tal enunciado.
Eram já familiares as denúncias de conteúdo nazista no arcabouço genético, e, por uma propensão natural do Estado, parecia necessário encontrar algo que estimulasse a genética russa. O fermento desencadeado por Lysenko e Prezent crescia a olhos vistos, e sua multiplicação ganhava terreno nas camadas leigas. De indústria, ambos publicavam seus trabalhos em revistas ou jornais de cunho menos formal, e, se não atingiam o meio técnico, caIavam fundo na opinião dos ignorantes.
Ganhava adeptos a “nova” genética e pesquisadores jovens avocaram também a si a obra de destruir o mendelismo. Finalmente, em 1940, Vavilov foi deposto dos cargos e substituído por Lysenko.
Estava terminada a primeira fase da controvérsia, aquela que requeria, para triunfo, a liquidação das figuras marcantes do mendelismo. Foi uma batalha vencida com argumentos políticos, hàbilmente lançados por um grupo que não possuía consistência experimental válida para demonstrar suas conclusões.
O ambiente, “expurgado”, era todo lisenquista. Uns poucos que ainda não haviam aderido foram sendo demitidos e presos, num processo de liquidação que culminou com o Congresso da Academia de Ciências (Agôsto, 1948). Aí os últimos reinanescentes se retrataram putblicamente, reconhecendo seus erros em defenderem idéias mendelistas, numa autocrítica que resume a liberdade” de pensar e de agir que passou a medrar no campo ‘científico” russo. A confissão do “êrro” já não era feita por homens livres: ela era o depoimento de prisioneiros. E, em tal clima, o Presidium da Academia aprovou um ato de “obrigação para as ciências biológicas, biologistas e todos os naturalistas, reformaram radicalmente seus trabalhos e assumiram um papel de combate decisivo às ciências reacionárias e idealistas”. As resoluções, que traziam o sêlo do Partido Comunista, estabeleceram, entre outros pontos:
a) demitir o titular da Academia de Ciências, Prof. Orbeli;
b) demitir o titular da Academia de Ciências, Pfrof. Schmalhausen, do pôsto de Diretor do Instituto de Evolução Morfológica;
c) nomear o titular da Academia, Prof. Lysenko, para membro da Divisão de Ciências Biológicas;
d) suprimir as atividades do Instituto de Citologia, Histologia e Embriologia, do Instituto de Citologia Vegetal do Laboratório de Fenogênese, por seus fundamentos anticientíficos;
e) obrigar a Divisão de Ciências Biológicas a rever os planos científicos, tendo em mira a difusão dos conceitos de Michurin;
f) obrigar o Conselho Editorial de Publicações e a Divisão de Ciências Biológicas a publicar uma biografia científica de Michurin;
g) obrigar os Institutos a demitir todos os adeptos do mendelismo e nomear os representantes da “biologia avançada de Michurin”;
h) comissionar a Divisão de Filosofia e História nas investigações que evidenciam as correlações práticas do michurismo com seu conteúdo ciêntifico;
i) comissionar a Divisão de Ciências Biológicas para rever os planos de preparação dos candidatos aos dos institutos de pesquisa.
Todo um bloqueio foi, assim, feito em tôrno dos novos iniciados, exigindo-se uma só manifestação, uma só reação dentro de um único princípio direcional e de uma “ciência”, a Dialética.
“Camarada I.V. Stalin,
A vós, grande criador do Comunismo, nossa ciência nacional é devedora dos relevantes esforços com que a enriquecestes e a elevastes perante todo o mundo, da proteção fornecida contra os perigos que a pudessem afastar dos interêsses do povo, dos auxílios que destes para vencer as lutas contra os reacionários, e das atenções tributadas para o crescimento contínuo da ciência dos trabalhadores.
Continuador da obra de Lenine, vós salvastes, para benefício da biologia materialista, os ensinamentos do grande transformador da Natureza, I.V.. Michurin, elevando o michurinismo perante tôdas a ciências como o único movimento progressista das ciências biológicas. Graças a isso, as bases naturais do marxismo-leninismo despertaram o orgulho do mundo, pois suas conquistas so confirmadas pelas experiências históricas, e, por isso, estão sendo levadas sempre mais à frente.
Vós, nosso prezado chefe e guia, díàriamente contribuís para que os cientistas soviéticos elevem nossa ciência progressiva e materialista para poder servir à nação, ciência que exprime o novo anseio do mundo e dos homens da nova sociedade.
O sistema de fazendas coletivas, estabelecidos sob vossa aguda visão, abriu tremendas possibilidades para tôdas as fôrças criadoras, ao mesmo tempo que provou seu poder invencível. O Partido de Lenine-Staalin guiou combatentes decididos em prol de uma agricultura mais produtiva, e de uma pecuária mais rendosa. O michurinismo, chamado por vós para desenvolver, sob bases mais positivas e revolucionárias, investigações científicas para transformar a natureza das plantas e dos animais, tem fornecido meios aos homens práticos para melhorar a agricultura socilista. Em troca, o povo progressista das fazendas coletivas, inovador da produção em bases competição socialista, enriqueceu nossa ciência com novos métodos e novas conquistas.
Asseguramos a vós, prezado José Vissarionvich, que devotaremos todos os nossos esforços para colaborar com as fazendas coletivas e estaduais no aumento da produção de nosso país, que constitui um dos pontos mais importantes da transição do socialismo para o comunismo, Vmos, para isso, possibilidades na cooperação mais estreita entre a, Ciência, a nação e o povo progresista das cidades coletivas, como nos tendes ensinado a nós, bolchevistas ou não, do Partido. Ciência que se distancia do povo e que não é útil, não é ciência.
Nossa agrobiologia, desenvolvida por Timirjarzev, Michurin, Willlams e Lysenko, é a mais desenvolvida do mundo. EIa não sòmente é a legítima herdeira dos pensadores avançados da História, como representa uma nova e mais alta conquista do conhecimento humano.
A doutrina de Michurin é um degrau a mais no desenvolvimento da biologia materialista. Os michurinistas levarão mais adiante o darwinismo criador, denunciarão as ciências burguesas e libertarão de idéias metafísicas os pesquisadores, pois uma ciência biológica rejeita, e expurga, as idéias viciadas da impossibilidade de dominar a Natureza.
Ela, ao contrário, ensina aos investigadores descobrir meios e modos para pô-la a serviço do homem.
Nesta cruzada nos inspiramos nos ensinamentos de Marx, Engels, Lenin e Stalin. Invocamos vosso apêlo para servir ao povo, servindo à tradição, mas não tememos em pegar das armas para destruir tudo que é obsoleto.
Viva a ciência progressista de Michurin!
Glória ao grande Stalin, guia do povo, corifeu da ciência.”
(Adotado por unanimidade pela sessão da União Federaí das Academias de Ciências Agrícolas).
— Como um documentário para a História, convém que nesse momentoso congresso houve alguém que perguntou à mesa diretora dos trabalhos qual era a opinião do Comitê Central do Partido Comunista Russo nessa controvérsia. E é o próprio Lysenko que, usando da palavra, responde que o Comitê leu suas conferências e aprovou-as integralmente. Sucesso esperado, as notas taquigrafadas pelo oficialismo resumem como tendo suas palavras sido recebidas sob tempestuos aplausos, grandes aplausos, e tôda a assembléia de pé!
Quem, depois disso, poderia manifestar “outra” opinião se não aquela ditada pelo Partido? De fato ninguém. E a controvérsia, que se desenvolveu até certa altura, foi abafada de chôfre. À livre discussão e debate de idéias impôs-se a palavra oficial, dirigida.”
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É isso!
Fonte:
Osvaldo Bastos de Menezes: “Uma Ciência Atrás da Cortina de Ferro”. Livraria Martins Editôra. São Paulo, 1956, p. 82-90.
Bertrand Russell: "o darwinismo aplicado à política"

Segundo Bertrand Russel, ao ser estendido para a esfera política, o darwinismo perdeu seu “status” de ciência. Em um outro texto que farei menção em uma outra ocasião, Russel enfatiza como o grande mérito darwinista o fato de ter tirado da religião o “monopólio” sobre os assuntos ligados às origens. Por enquanto, vamos com esse, com o qual ele tece crítica ao uso do lema “sobrevivência do mais apto” no o âmbito social:
“A aplicação da ciência às questões sociais é ainda mais recente do que as suas aplicações à Psicologia. É bem verdade que, desde o início do século XIX, já se pode reconhecer nos estudos sociais vários campos em que há indícios de uma atitude científica. A teoria da população de Malthus, seja ela considerada falsa ou verdadeira, é, seguramente, científica. Os argumentos de que ele se serve para sustentá-la não são pontos de vista pessoais, mas baseiam-se em estatísticas demográficas e em dados a respeito dos recursos agrícolas. Adain Smith e Ricardo também demonstraram atitude científica nos seus trabalhos de Economia Política. Não quero, com isto, afirmar que as teorias por eles expostas sejam sempre verdadeiras, mas apenas que os seus pontos de vista e os seus raciocínios apresentam as características do método científico. Influenciado por Malthus, apareceu Darwin e, com Darwin, o darwinismo que, ao ser aplicado à política, perdeu o seu caráter científico. A frase “sobrevivêneia dos mais aptos” é empregada pelos intelectuais que especulam a respeito de questões sociais, muito mais freqüentemente do que seria justo. Essa expressão “mais aptos” parece ter implicações éticas, seguindo daí que a nação, a raça e a classe a que um escritor pertence deve ser necessariamente “a mais apta”. Assim, sob a égide de uma filosofia pseudo-darwinista chegamos às doutrinas do Perigo Amarelo, da Austrália para os australianos, da superioridade da raça nórdica etc. Por causa dessas implicações éticas, devemos encarar com muita suspeita as aplicações do darwinismo às questões sociais. Isto não se aplica somente às diferenças entre raças, mas também as diferenças entre as classes de uma nação. Todos os escritores darwinistas pertencem às chamadas classes intelectuais, e, por causa disso, a afirmação de que essas classes são as mais desejáveis biologicamente falando constitui um postulado da politica darwinista. Segue daí que os filhos dessas classes devem receber, às expensas públicas, uma educação melhor do que a que é dada aos filhos dos assalariados. É impossível reconhecer em todos estes argumentos uma aplicação da ciência às questões práticas. Há, apenas, o emprego de certa linguagem científica, com a finalidade de dar respeitabilidade a um ponto de vista pessoal” (p. 147, 148).
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É isso!
Fonte:
Bertrand Russel: “A Perspectiva Científica”. Tradução: José Severo de Camargo Pereira. Companhia Editora Nacional. São paulo, 1977.
Darwin e sua causa nada sagrada

As narrativas, a seguir, todas extraídas do seu diário à bordo do Beagle (“Viagem de um naturalista ao redor do mundo”, publicado em Língua Portuguesa pela Abril Cultural), parecem vir de encontro à tese de um Darwin que idealizou sua teoria da evolução em prol de uma causa sagrada. Sua repulsa, seu nojo e desprezo por este povo serve como uma pequena mostra de como o “civilizado, cristão e superior homem europeu” via o “incivilizado, pagão e selvagem indígena”.
Sim, é bem verdade que este tipo de mentalidade não era exclusividade do autor de “A Origem das Espécies”. Em vez disto, refletia a forma de pensar quase generalizada do inglês vitoriano. Vá lá, levemos em conta o contexto cultural da época, mas, por que, afinal, essa tentativa ilógica de atribuir a Darwin uma luta que nunca foi a dele? Ele era abolicionista? Sim, mas, a abolição da escravatura também não era uma necessidade imposta pela coroa inglesa naquele instante histórico?
Ora, se Darwin era um abolicionista por desejar ver o bem dos africanos, por que não nutria ele do mesmo apreço para com os pobres fueguinos?
Pois é...
Mas, vamos a Darwin:
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"VIAGEM DE UM NATURALISTA AO REDOR DO MUNDO":
"Pela manhã, o capitão expediu uma embaixada que fosse entender-se com os fueguinos. Logo que chegamos à distância de poder ouvir, um dos quatro aborígines que se tinham adiantado para nos receber pôs-se a gritar com grande veemência, desejando indicar-nos o local onde poderíamos desembarcar. Quando nos viram em terra, porém, pareceram um tanto alarmados, contudo continuaram a falar e gesticular rapidamente. Era, sem exceção, o espetáculo mais interessante e curioso a que jamais me foi dado assistir: nunca poderia ter acreditado na enormidade da diferença que separa o selvagem do homem civilizado; é maior do que a que existe entre a fera e o animal domesticado, por isso que, no homem, há mais capacidade de aperfeiçoamento..."
"O ancião possuía uma testeira de penas brancas que lhe escondia parcialmente o emaranhado das tranças pretas e rudes. Atravessavam-lhe horizontalmente o rosto duas barras lárgas: uma, pintada de encarnado brilhante, ia-lhe de uma orelha à outra, abrangendo o lábio superior; a outra, branca como giz, se estendia paralelamente acima da primeira, cobrindo-lhe dessa cor até as pálpebras. Os outros se achavam sarapintados de pó negro, feito de carvão vegetal. O grupo, francamente, mais parecia encarnar os demônios que aparecem no palco em peças do gênero de Der Freischzutz.
A própria atitude já era abjeta, e a expressão que se lhes desenhava no semblante era de surpresa, suspeita e alarma. Recebidos que foram os presentes que lhes levávamos, constando de fazenda escarlate e que se apressaram em amarrar em torno do pescoço, logo se acamaradaram. Isso nos deu a entender o velho, batendo levemente em nosso peito, e fazendo um ruído cacarejante, semelhante ao que se faz quando se dá milho à criação. Caminhei algum tempo em sua companhia, e essa demonstração de amizade se repetiu várias vezes; completavam-na três fortes palmadas que me dava simultaneansente no peito e nas costas. Descobria, depois, o busto para que eu lhe retribuisse o cumprimento, que, uma vez feito, aparentemente o enchia de grande satisfação. A linguagem desse povo, de acordo com a noção que dela fizemos, quase nem merece ser descrita como articulada. Comparou-a o Çapitão Cook ao som que um indivíduo produz quando procura desimpedir a laringe; certamente, porém, nenhum europeu jamais desimpediu a garganta fazendo cacarejos tão guturais e roucos como aqueles..."
"Até aqui não falei ainda a respeito dos fueguinos que trazíamos a bordo. Durante a viagem anterior do Adventure e do Beagle, de 1826 a 1830, o Capitão Fitz Roy prendera um grupo de nativos como reféns contra o roubo de um barco, cuja falta seriamente embaraçou a comissão de vistoria. Estes aborígines, e mais uma criança que havia comprado por um botão de pérolas, levou-os à Inglaterra, comprometendo-se a educá-los e dar-lhes instrução religiosa por sua própria conta. Um dos principais motivos que induziram o Capitão Fitz Roy a empreender a presente viagem foi restabelecer esses indígenas na sua terra natal..."
"Ao verem um dos nossos braços, pasmaram-se ante a sua brancura, exatamente como fizera um orangotango que eu tinha visto no jardim zoológico."
"Quando descíamos, um dia, próximo à ilha Wollaston, acercamo-nos de uma canoa em que iam seis fueguinos. Eram as criaturas mais abjetas e miserandas que tinha visto onde quer que fosse."
"Em outro ponto não muito afastado, veio para perto do navio uma mulher nua que trazia ao peito um recém-nascido. Sem dar atenção ao granizo que caía e se fundia ao calor do seio e do corpo do seu filhinho, ali permaneceu longo tempo, presa de simples curiosidade! As míseras criaturas estavam atrofiadas; tinta gordurosa pintava-lhes o semblante horrível, a pele cobria-se de graxa e imundície, os cabelos andavam desgrenhados, a voz era dissonante e os gestos, violentos. Olhando-se para aqueles homens, custava-nos crer que fossem criaturas da nossa espécie e habitassem o mesmo mundo. É assunto comum de conjeturas o prazer que acaso possam ter na vida alguns dos animais inferiores: que dizer-se daqueles bárbaros, tomando-os como objeto de tais meditações! Cinco ou seis criaturas humanas, nuas e mal protegidas contra a inclemência da chuva e do vento desse clima borrascoso, deitam-se sobre o solo úmido para passar a noite, enrolados como pobres irracionais..."
"O depoimento do rapaz que acompanhava Mr. Low, se bem que independente, corrobora as declarações de Jemmy Button, segundo as quais, quando premidos pela fome, no inverno, sacrificam e devoram as mulheres velhas, antes de se decidirem a matar o cães. Interrogado por Mr. Low, o rapaz replicou que “cães apanham lontras; mulheres velhas, não”. Descreveu também o modo pelo qual sufocam a vítima na fumaça, imitando-lhe pitorescamente os gritos, e dizendo quais as partes do corpo que se reputavam mais saborosas ao paladar. Horrível como deve ser a morte dessas pobres mulheres, infligida assim pelos próprios parentes e amigos, deve ser ainda mais pungente o medo que as acomete, nas ocasiões em que a fome começa a se fazer sentir. Contam que, muitas vezes, fogem para as montanhas, mas vão buscá-las os homens e são reconduzidas ao altar do sacrificio: a própria lareira!"
Nunca pôde o Capitão Fitz Roy certificar-se se os fueguinos possuem alguma crença definida sobre a vida futura. Enterram por vezes os seus mortos em cavernas, ou então nas florestas das montanhas. Não sabemos que ritual celebram. Jemmy Button não se decidia a comer aves terrestres, por isso que elas se alimentam de “homens mortos”. Recusam-se até mesmo a fazer menção dos amigos falecidos. Não temos base para crer que pratiquem alguma forma de adoração religiosa, entretanto, poder-se-ia considerar como cerimônia dessa natureza a prece do ancião murmurada sobre a banha que distribuía à família esfomeada..."
Não podem conhecer a sensação de possuir um lar, e muito menos a dos afetos domésticos, pois o marido é para a mulher o que é para o laborioso escravo um senhor brutal. Que quadro de perpetração mais horrenda-se poderá contemplar do que a cena que Byron presenciara na costa ocidental, quando uma desventurada mãe desceu para erguer o filhinho ensangüentado e moribundo que o marido lançara impiedosaniente de encontro às pedras, por ter deixado cair um cesto de ovos marinhos! Quão pouco podem as faculdades mais nobres da mente ser postas em ação: que haverá ali que a imaginação se possa representar, a razão comparar, ou sobre que o julgamento se decidir? Para arrancar um marisco do rochedo, nem sequer astúcia é preciso, essa mais rudimentar faculdade da mente. A sua habilidade em muitos respeitos é comparável ao instinto dos animais, pois não se aperfeiçoa com a experiência. A canoa, o produto máximo do seu engenho, miserável como é, tem, como no-lo informa Drake, permanecido a mesma durante os últimos 250 anos.
Quando se contempla esse povo selvagem, pergunta-se, a si mesmo, de onde teria procedido? Que sedução poderia ter atraído esses indivíduos, ou que alterações haveriam forçado essas tribos a deixarem as belas regiões do norte, viajarem através da cordilheira, a espinha dorsal da América, para inventarem e construírem canoas que não se usam nas tribos do Chile, do Peru e do Brasil, e entrarem numa das mais inóspitas regiões no limite dos confins do globo? Conquanto tais reflexões possam a princípio apoderar-se da mente, podemos, entretanto, ter certeza de que são parcialmente errôneas. Não há motivo de se supor que o número dos fueguinos esteja em declínio, de sorte que é lícito acreditar-se que gozam de certa soma de felicidade, seja ela de que natureza for, e que lhes torna a vida digna de ser vivida. A natureza, que tudo prevê pela onipotência do hábito e dos seus efeitos hereditários, amoldou os fueguinos au clima e aos produtos da sua miseranda pátria..."
"Nunca me hei de esquecer do aspecto imorigerado e selvagem de um grupo de quatro ou cinco indígenas que, abeirando-se subitaniente do precipício, absolutamente nus, os cabelos compridos a rolar-lhes pelas faces, se puseram a saltar, acenar com varas grosseiras e vociferar os mais terríficos guinchos. (. ..)"
"Vários deles haviam corrido tanto, que o sangue lhes brotava do nariz, e a boca se enchia de espuma, da pressa com que falavam. E, pela nudez do corpo besuntado de preto, branco e vermelho, mais pareciam demônios que regressavam de encarniçada refrega.
Na manhã seguinte à nossa chegada (dia 24), começaram os fueguinos a aparecer de todas as direções, vindo também a mãe e os irmãos de Jemmy. Este havia reconhecido, de prodigiosa distância, a voz estentórea de um dos seus irmãos. O encontro foi menos interessante que o de um cavalo que, sendo solto num pasto, ali deparasse com velho camarada seu. Não houve a menor demonstração de afeto. Limitaram-se a fitar-se durante alguns minutos, a mãe logo se afastando, a cuidar da sua canoa. Soubemos, no entanto, por York, que ela tinha ficado inconsolável com a perda de Jemmy; que o havia procurado por toda parte, julgando que tivessem esquecido de levá-lo no navio. As mulheres acolheram Fuegia com muita bondade. Já tínhamos percebido que Jemmy quase não se lembrava mais da língua materna. Acho que não poderia haver outra criatura humana que possuísse menor cabedal de vocábulos, pois o seu inglês era paupérrimo. Se bem que o lamentássemos, não pudemos deixar de achar graça em vê-lo dirigir-se em inglês ao irmão, e, logo a seguir, perguntar-lhe em espanhol: “No sabe?”..."
"Os três fueguinos, embora tivessem mantido contato de somente três anos com homens civilizados, gostariam, estou certo, de se aterem aos seus novos hábitos, mas via-se que isso seria impossível. Receio até que seja duvidoso se a sua visita à civilização lhes tivesse realmente valido qualquer proveito concreto..."
"Quando me achava na baleeira, cheguei até a criar ódio pelo mero som da sua voz, tantos dissabores ela nos tinha, a todos, custado. A primeira e a última palavras eram sempre yammerschooner. Entrando em alguma baiazinha sossegada, pensando que fôssemos passar uma noite tranqüila, eis que ressoa, inesperadamente, partida de um canto obscuro, a palavra estridente e odiosa, fazendo-se a notícia espalhar pela fumaça do fogo sinaleiro. Sempre que deixávamos um ancoradouro, costumávamos dizer: “Graças aos céus, estamos ficando livres desses míseros mortais !“ Contudo, uma derradeira vez, através de prodigiosa distância, se fazia ouvir o eco mortiço de uma palavra na qual ainda reconhecíamos claramente o detestável yammerschooner. Entretanto agora, quanto mais fueguinos encontramos no caminho, tanto mais divertimento nos propiciamos. Tanto eles como nós, rindo-se, admirando-se e pasmando-se uns dos outros; nós, apiedando-nos deles por nos fornecerem tão excelentes peixes e siris a trocâ de farrapos sem valor; eles, afoitando-se em agarrar a oportunidade de encontrar gente tão maluca que trocava, por um bom almoço, tão esplêndido atavio.
Disse que tinha construído uma canoa, e gabou-se de já poder falar um pouco do seu próprio idioma! O mais curioso é que parecesse ter ensinado um pouco de inglês a toda a sua tribo, pois um ancião, espontaneamente, apresentou-nos a moça, dizendo: “Jemmy Buton’s wife”. Jemmy perdeu tudo quanto possuía. Disse-nos que York Minster tinha feito uma grande canoa e que, havia vários meses, ele e sua esposa Fuegia tinham voltado à terra natal. Despediu-e perpetrando um gesto da mais consumada vilania. Depois de persuadir Jemmy e sua mãe a acompanhá-lo, desertou-os durante uma noite, roubando-lhes absolutamente toda a bagagem...
A perfeita igualdade entre os indivíduos que compõem as tribos de Terra do Fogo deverá retardar-lhes, por longos anos, a civilização. Como nos animais, cujo instinto os obriga a viverem em sociedade, sob a obediência de um chefe, e que vemos mais capazes de melhoramento, assim também com as raças da humanidade. Onde quer que procuremos a causa ou conseqüência dos mais civilizados, encontramo-la sob as formas mais artificiais de governo. Por exemplo, os habitantes de Otaheite, que, quando descobertos, se faziam governar por reis hereditários, tinham atingido cultura mais alta do que outro ramo da mesma raça, os da Nova Zelândia, que, conquanto beneficiados pela atenção que foram compelidos a dar à agricultura, eram republicanos no mais absoluto sentido da palavra. Na Terra do Fogo, até que algum chefe se levante com poder suficiente para garantir-se a posse de vantagens adquiridas como sejam os animais domésticos, parece quase impossível que o estado político do país possa melhorar. Presentemente, o simples pedaço de tecido que se dá a um índio é rasgado em mil pedaços para contentar a todos, nenhum ficando mais rico do que o outro. De outro lado, difícil é compreender-se como poderia elevar-se um chefe, capaz de manifestar sua superioridade e subir ao poder, senão quando houvesse algum conceito acerca da propriedade, que a isso o ajudasse, distinguindo-o dentre os demais.
Creio que nesta parte extrema da América do Sul as condições de melhoramento em que o homem vive são muito inferiores às de qualquer outra parte do mundo. Os ilhéus do mar do Sul, das duas raças que povoam o Pacífico, são comparativamente civilizados. Os esquimós nas suas grutas subtenâneas gozam de algum conforto na vida, e, quando saem completamente equipados em suas canoas, manifestam o domínio de grandes habilidades. Algumas das tribos sul-africanas, perambulando à cata de raízes, e vivendo ocultas nas extensões planas e áridas, são já bastante inditosas. Os australianos, na simplicidade das artes da vida, são os que mais se aproximam dos fueguinos. Podem, entretanto, gabar-se do seu bumerangue, da sua lança, do seu processo de escalar árvores, seguir a pista dos animais e caçar. Pelo fato de o australiano ser superior nas suas aquisições não se deve, contudo, deduzir que seja igualmente superior na sua capacidade mental; muito ao contrário, pelo que observei dos fueguinos, quando a bordo, e pelo que tenho lido sobre os australianos, sinto-me inclinado a pensar que é justamente o contrário que se dá."
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É isso!


