Quando os "genes determinam"...

A imprensa “especializada” em ciência, com as poucas e boas exceções, parecem viver de ninharias. Um caso típico diz respeito às falácias genéticas, ou como diria Tognolli: “a ideologia do DNA”. Se os genes realmente determinassem tudo o que se noticia por aí, há muito seríamos meros títeres ou marionetes desses “seres egoístas e manipuladores”, como diria Richard Dawkins. ((rs))

Por simples curiosidade (e ociosidade) fiz uma ligeira pesquisa em alguns sites de notícias, e descobrir as seguintes proezas genéticas. São genes para todos os gostos e ocasiões: ((rs))

Genes determinam sexualidade precoce, indica estudo
"Pais ausentes podem esperar, sempre, uma saraivada de tiros. Eles já foram acusados pela emancipação sexual dos filhos, mas agora pesquisadores sugerem que os genes, e não necessariamente a ausência paterna, podem ser o fator principal da manifestação da sexualidade precoce."

Genes determinam o que você compra
"As preferências dos consumidores geralmente são influenciadas pela herança genética, revelou um novo estudo. Segundo a pesquisa, a genética pode ser responsável pelo que compramos e por quando o fazemos."

Genes determinam identidade sexual, diz estudo
"A identidade sexual de uma pessoa é determinada pelos genes, o que descarta a teoria de que a homossexualidade ou a mudança de sexo sejam uma opção, afirmaram pesquisadores norte-americanos na segunda-feira."

Dois genes determinam cegueira entre idosos
Três em cada quatro casos de uma doença que é considerada a causa principal de cegueira entre os idosos se devem à ação de dois genes, segundo as últimas pesquisas publicadas pela revista Nature Genetics".

Genes determinam infidelidade feminina, diz estudo
"Fatores genéticos influenciam a infidelidade feminina e o número de parceiros sexuais das mulheres, disseram hoje cientistas britânicos. Eles estudaram as respostas de 1,6 mil pares de gêmeas idênticas e não-idênticas numa pesquisa confidencial, para observar o impacto dos genes no comportamento."

Gene determina ousadia nos investimentos, diz estudo
"Quando você passa na frente da casa lotérica sente uma força maior que te compele a jogar? Ou, pelo contrário, não importa o que faça, compre uma casa ou vá viajar, tudo deve ter o seu seguro apropriado? Em um caso ou no outro, essas duas forças misteriosas podem ter forte influência dos seus genes. Pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém, Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong e da Universidade Nacional de Cingapura afirmam que nossas decisões financeiras obedecem a um gene chamado MAOA (monoamine oxidase A)."

Genes determinam pessoas 'imunes' a ginástica, diz estudo
"Um estudo da Universidade de Louisiana, nos Estados Unidos, chegou à conclusão de que os genes podem determinar a capacidade de uma pessoa de melhorar o seu preparo físico ao fazer ginástica."

Gene determina a preferência sexual, não a moral
"Pesquisadores do Instituto de Biologia Molecular da Academia Austríaca de Ciências de Viena publicaram esta semana um estudo na revista Cell que afirma: Um gene é responsável pela preferência sexual, não a moral."

Gene determina se cheiro de suor de homem é agradável
"Quando o assunto é o cheiro de um homem, a fragrância -ou fedor- está no nariz de quem cheira, afirmam cientistas dos EUA. Eles sugerem que um único gene pode determinar a percepção que cada indivíduo tem de odores corporais."

Gene determina propensão ao contágio pelo HIV
"Pessoas que carregam maior quantidade de um gene, chamado CCL3L1, estão menos propensas a ser infectadas pelo vírus HIV ou a desenvolver aids. A conclusão é de um estudo feito pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Contagiosas (INADC), ligado ao Departamento de Saúde dos Estados Unidos."

Gene determina quais os fumadores que vão ser afectados
"Investigadores norte-americanos identificaram cinco polimorfismos de nucleotídeos simples que apenas estão presentes no gene ADAM33 dos fumadores. Estas pessoas correm um maior risco de desenvolver DPOC."

Estudo diz que genes determinam quem será chefe
"Um estudo de gêmeos idênticos conduzido por pesquisadores da Inglaterra e dos Estados Unidos sugere que o ambiente familiar tem pouca influência sobre quem será empresário porque quase metade da propensão de uma pessoa para se tornar dona de um negócio próprio é vinculada aos genes."

Haja genes para tanto serviço! ((rs))

É isso!

Feyerabend: o anarquista

Em seu interessante livro “A Falácia Genética: A ideologia do DNA na imprensa”, Claudio Tognolli faz um resumo sobre as idéias dos principais pensadores da ciência. Especificamente em relação ao autor de “Contra o Método”, escreve o título “A anarquia Feyerabend”, no qual se lê:

“ Lançado em 1975, o primeiro livro de Feyerabend, Contra o Método, coloca os cientistas como uma revoada postulante de irracionalismos, egoísmo e subjetividade. Acha que a ciência tem um dictum: anything goes, ou qualquer coisa vale. Chegou a dizer que o ideário de Popper não passava de “um diminuto sopro de ar quente na xícara de chá positivista” e que as teorias de Kuhn para a mudança se aplicavam bem ao crime organizado.’

Como Foucault, achava que saber é poder mas, que no caso da ciência, diz que saber era igual à tirania. Feyerabend, um ex-comandante vienense de 3 mil homens na Frente Russa, gosta de frases arrebatadoras.

Em entrevista ao jornalista John Horgan, editor da revista Scientific American, disse o seguinte: “O que ocorre com as ciências é exatamente o seguinte, você tem certas idéias que funcionam e então surge alguma nova situação e você tenta outra coisa. É oportuníssimo. Você precisa de uma caixa de ferramentas com vários tipos de instrumentos. E não apenas um martelo, alguns pinos e nada mais. Foi isso que quis dizer quando do anything goes... Há uma separação entre Estado e Igreja mas não há nenhuma entre o Estado e a ciência”. Feyerabend é um defensor da “felicidade” e acha que, por isso mesmo muitas sociedades sem ciência vivem até mais felizes.

Acha que a ciência “pode ser um meio para destruir todo o tipo de gente” e acha que temos sorte em que nossa percepção oblitere certas informações científicas que tentam “comprimir a realidade.” O anarquista chegou a estudar com o próprio Popper, na London School of Economics, entre 1952 e 1953. Em 1959 mudou-se da Inglaterra para Berkeley, onde ficou amigo de outro que lutou para atacar, Thomas Kuhn. Morreu em 1995, de câncer, depois de ter publicado a obra Killing Time ( Horgan conta que as páginas finais, escritas poucos dias antes de sua morte, postulam que a única coisa que importa na vida “é o amor.”

Na sua obra ele já abre dizendo : “A história da ciência,’ bem vistas as coisas, não consiste apenas em fatos e conclusões extraídas dos fatos. Contém também ideais, interpretações dos fatos, problemas criados por interpretações conflitais, erros, e assim por diante. Numa análise mais fina, descobrimos até que a ciência não conhece fatos nus, mas que os fatos que entram no nosso conhecimento já são vistos de certa maneira e, por isso, essencialmente ideacionais. Sendo assim, a história da ciência seria tão complexa, caótica, cheia de erros, e divertida como as idéias que contém, e estas idéias seriam por sua vez tão complexas, caóticas, cheias de erros e divertidas como os espíritos dos que as inventaram. Em contrapartida, uma pequena lavagem cerebral ao cérebro contribuiria em muito para tornar a história da ciência mais enfadonha, mais simples, mais uniforme, mais objetiva e mais facilmente abordável em termos de regras estritas e inalteráveis.”

Ou por outra:

“A idéia de um método que inclua princípios firmes, imutáveis, e absolutamente vinculativos da condução dos assuntos da ciência depara com dificuldades consideráveis quando a confrontamos com os resultados da investigação histórica. Descobrimos, com efeito, que não há uma única regra, ainda que plausível, e ainda que firmemente alicerçada em termos epistemológicos, que não tenha sido uma ou outra vez violada. Torna-se evidente que tais violações não acontecem por acaso, não são resultados de uma insuficiência do conhecimento ou de uma desatenção passíveis de serem evitadas. Pelo contrário, vemos que foram elementos necessários ao progresso.”’

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É isso!

Fonte:
Claudio Tognolli: “A Falácia Genética: A ideologia do DNA na imprensa”. Editora Escrituras. São Paulo, 2003.

Bertrand Russell: "o darwinismo aplicado à política"

Segundo Bertrand Russel, ao ser estendido para a esfera política, o darwinismo perdeu seu “status” de ciência. Em um outro texto que farei menção em uma outra ocasião, Russel enfatiza como o grande mérito darwinista o fato de ter tirado da religião o “monopólio” sobre os assuntos ligados às origens. Por enquanto, vamos com esse, com o qual ele tece crítica ao uso do lema “sobrevivência do mais apto” no o âmbito social:

“A aplicação da ciência às questões sociais é ainda mais recente do que as suas aplicações à Psicologia. É bem verdade que, desde o início do século XIX, já se pode reconhecer nos estudos sociais vários campos em que há indícios de uma atitude científica. A teoria da população de Malthus, seja ela considerada falsa ou verdadeira, é, seguramente, científica. Os argumentos de que ele se serve para sustentá-la não são pontos de vista pessoais, mas baseiam-se em estatísticas demográficas e em dados a respeito dos recursos agrícolas. Adain Smith e Ricardo também demonstraram atitude científica nos seus trabalhos de Economia Política. Não quero, com isto, afirmar que as teorias por eles expostas sejam sempre verdadeiras, mas apenas que os seus pontos de vista e os seus raciocínios apresentam as características do método científico. Influenciado por Malthus, apareceu Darwin e, com Darwin, o darwinismo que, ao ser aplicado à política, perdeu o seu caráter científico. A frase “sobrevivêneia dos mais aptos” é empregada pelos intelectuais que especulam a respeito de questões sociais, muito mais freqüentemente do que seria justo. Essa expressão “mais aptos” parece ter implicações éticas, seguindo daí que a nação, a raça e a classe a que um escritor pertence deve ser necessariamente “a mais apta”. Assim, sob a égide de uma filosofia pseudo-darwinista chegamos às doutrinas do Perigo Amarelo, da Austrália para os australianos, da superioridade da raça nórdica etc. Por causa dessas implicações éticas, devemos encarar com muita suspeita as aplicações do darwinismo às questões sociais. Isto não se aplica somente às diferenças entre raças, mas também as diferenças entre as classes de uma nação. Todos os escritores darwinistas pertencem às chamadas classes intelectuais, e, por causa disso, a afirmação de que essas classes são as mais desejáveis biologicamente falando constitui um postulado da politica darwinista. Segue daí que os filhos dessas classes devem receber, às expensas públicas, uma educação melhor do que a que é dada aos filhos dos assalariados. É impossível reconhecer em todos estes argumentos uma aplicação da ciência às questões práticas. Há, apenas, o emprego de certa linguagem científica, com a finalidade de dar respeitabilidade a um ponto de vista pessoal” (p. 147, 148).

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É isso!

Fonte:
Bertrand Russel: “A Perspectiva Científica”. Tradução: José Severo de Camargo Pereira. Companhia Editora Nacional. São paulo, 1977.

O comovente apelo de Jimmy Wales

Quem se deu ao trabalho de pesquisar algum verbete na Wikipédia recentemente, deve ter notado um efusivo apelo do seu fundador, Jimmy Wales, por doações para a manutenção do site:

Todos os anos, por volta desta altura, vimos pedir-lhe e a outros da comunidade da Wikipédia para ajudar a sustentar a nossa empreitada conjunta com uma doação modesta de €20, €35, €50 ou mais.
Se valoriza a Wikipédia como fonte de informação - e de inspiração - espero que escolha agir agora.
Atenciosamente,
Jimmy Wales

Bom. Se o Wales fosse depender de um centavo meu, a Wikipédia há muito teria ido para o lugar que lhe devido.

Se se tratasse de um veículo realmente democrático, certamente daria uns trocados com muito prazer; todavia, é notório o uso tendencioso da enciclopédia para os mais variados fins. Pegue-se, por exemplo, o verbete “Design Inteligente”. Ora, quem está por trás de sua edição? Não são porventura os seus “inimigos”, ou seja, os próprios darwinistas?

Não vejo nenhum problema de um darwinista editar um texto sobre o Design Inteligente ou seja lá qual for o verbete. O problema consiste em se utilizar do “poder” para manipular as informações com o objetivo de tirar proveitos delas. Por exemplo:

O movimento do design inteligente é um rebento direto do criacionismo da década de 1980. As comunidades científica e acadêmica, junto com a corte Federal Americana, consideram o design inteligente como uma forma de criacionismo ou como um descendente direto que é estreitamente interligado com o criacionismo tradicional; e vários autores referem-se explicitamente a ele como "criacionismo do design inteligente".

Fica mais que evidente a tentativa de ligar o Tedeísmo (Teoria do Desenho Inteligente) ao Criacionismo. Com isso, eles pretendem anular o mérito científico da TDI e, consequentemente, proclamar o darwinismo como única e exclusiva explicação científica para os fenômenos biológicos.

A Wikipédia, portanto, nos seus moldes atuais e em âmbitos editoriais específicos, é tão confiável quanto os gibis da Turma da Mónica, ou, já que estamos falando em donativos, é tão democrática quanto a Folha Universal do bispo Edir Macedo.

É isso!

Pra não esquecer o Piltdown

A famigerada farsa do Homem de Piltdown teve seu enlace em 1953, quando descobriram que o deslumbrante “elo” era apenas uma montagem feita a partir de uma mandíbula de um símio com partes do crânio de um homem.

Tenho aqui em mãos um “fóssil literário”, uma raridade intitulada “A Génese da Humanidade”, de C. Arambourg (professor no Museu de História Natural de Paris), publicado em Língua Portuguesa no ano de 1950, pela antiga Publicações Europa-América (e na França, em 1948). Ou seja, 5 anos antes da farsa vir a público.

O trecho a seguir, não obstante traga em si indícios de suspeita sobre a veracidade do fóssil, está incluso no livro com objetivo de explicar como se deu o surgimento do homem. Não deixa também de ser interessante pelos nomes envolvidos na trama. Para quem gosta de história, vale a pena uma rápida lidinha:

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Os fósseis de Piltdown (Eoantropus dawsani)

"Trata-se de diversos restos ósseos descobertos na Inglaterra, no condado de Sussex, ao norte de Newhaven, em dois pontos diferentes de uma mesma formação geológica. Numa primeira jazida encontraram-se alguns fragmentos de caixa craniana, um fragmento de mandíbula com dois pré-molares no seu lugar e um canino inferior isolado; todos estes vestígios foram sucessivamente recolhidos por C. Dawson e Smith Woodward com intervalos de meses ou anos, mas na vizinhança uns dos outros. Uma segunda jazida afastada alguns quilómetros da primeira forneceu mais tarde outros fragmentos de um segundo crânio com um molar isolado.

A formação geológica que contém todos estes restos é uma mistura de areia e cascalho pouco espessa, cobrindo uma superfície topográfica situada a cerca de 25 metros acima do talweg dos vales correspondentes. Esta camada de cascalho e areia encerra uma fauna onde os calhaus rolados atestam o desmantelamento de formações mais antigas da idade pliocénica, assim como na indústria de lascas do tipo clactonense-levailoisense. Mesmo que se admita que estas camadas não sofreram modificações posteriormente à sua formação (o que não é absolutamente seguro), a sua idade continua ainda incerta porque tem sido, conforme, os autores, atribuida ao 1º , 2º ou 3º interglaciares; a indústria que contém apoiaria tlpológicamente a segunda opinião.

Os vestígios ósseos humanóides, que daí provêm, apresentam uma associação de caracteres bastante paradoxal: enquanto que a caixa craniana reconstituida se aproxima da dos homens actuais, a mandibula e a dentição são perfeitamente simiescas. As controvérsias, que desde as primeiras descobertas opuseram entre si os mais eminentes antropologistas, diziam,também, respeito à contemporaneidade de todas estas peças, à sua antiguidade e idade real e sobretudo à atribuição a um mesmo individuo e a uma mesma espécie do crânio e da mandíbula encontrados na primeira jazida. No seu livro sobre Os Homens Fósseis, Boule discutia longamente estes diversos pontos de vista; não tendo surgido depois dessa obra recomendamos esse trabalho para quem queira mais amplos esclarecimentos.

Foram tentadas várias reconstituições do primeiro crânio por diversos autores: Smith Woodward, E. Smith, A. Keith, Weinert. Todos diferem entre si sobre vários pontos, mas todos estão de acordo em revelar que se trata de um crânio que se assemelha em muitos pontos de vista ao do Homo sapiens actual: pela forma geral, pela capacidade de 1.350 c. c. pelo perfil frontal e occipital pela ausência de tórus circum-orbital e estrutura da região temporal e mastóidea, etc. Em contrapartida, a moldagem endocraniana revela, segundo Elliot-Smith, caracteres primitivos e simiescos absolutamente surpreendentes. Enfim, todos os ossos são particularmente espessos e maciços como nos antropóides e nos homineos primitivos.

A mandíbula apresenta um enorme canino saliente, urna região sinfisária longa e fortemente inclinada para trás, assim como uma série dental rectilínea, formada por molares alongados, idênticos, na sua estrutura, aos dos chimpanzés; o aspecto geral desta mandibula é nitidamente antropóide e, como o fez notar Boule, se tivesse sido encontrada isolada, ninguém teria discutido a sua atribuição a um antropólde do Quaternário. Há, também, autores que pensam que esta mandíbula não pertence ao crânio com o qual foi encontrada; foi a primeira opinião de Boule; é a de Miller, de Gregory e este propôs o nome de Pan vetus para designar o chimpanzé fóssil a que teria pertencido. Mas não é essa a opinião de Smith Woodward, de Keith, nem, também, de Boule, para os quais crânio e mandíbula pertencem a um único e mesmo ser de caracteres mistos.

Os restos do segundo crânio, descobertos a alguns quilómetros do primeiro, compreendem em particular um fragmento de frontal que (partindo do principio que é da mesma idade que o outro), confirma a ausência de viseira supra-orbital já observada no anterior. Um pré-mo- lar encontrado ao mesmo tempo é do mesmo tipo que os da primeira mandibula, o que favoreceria a opinião de Smith Woodward.

Seja como for, as diversas tentativas de reconstituição, de que se tratou, fizeram salientar, conforme as tendências dos seus autoras, ou os caracteres «humanos» do fóssil de Piltdown ou, pelo contrário, os seus caracteres «primitivos». A atribuição da mandíbula chimpanzóide continua a ser a grande dificuldade; dois pontos de vista se apresentam irreconciliáveis: 1º o ponto de vista que, fazendo abstracção da mandíbula, quer ver no «Homem de Piltdown» um precursor directo do Homo sapiens representando um ramo distinto dos Pitecantropídeos e dos Neandertalenses; 2° o ponto de vista para o qual a associação de uma morfologia craniana humana com dentição e cérebro humanos pertence à mesma ordem dos factos observados nos Pitecantropideos onde uma morfologia craniana primitiva se alia a uma dentição e membros humanos.

Por agora, o enigma de Piltdown continua, a controvérsia prossegue e durará, talvez, muito tempo ainda, até à descoberta de documentos mais completos e datados com mais certeza” (p. 103-105).

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É isso!

Fonte:
A. Arambourg: “A Génese da Humanidade”. Publicações Europa-América. Lisboa, 1950.

"Para não dizer que não falei de flores..."

Não tenho por hábito ler livros de auto-ajuda, mas abrir uma exceção para “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins. Auto-ajuda?

Ora, se existem livros de auto-ajuda para religiosos que odeiam ateus, por que não livros de auto-ajuda para ateus que odeiam religiosos? Relevada as devidas proporções ideológicas, qual a diferença de um livro do tipo “Um ateu garante: Deus existe” e outro do tipo “Um cristão garante: Deus não existe”?

No fim o objetivo é mesmo, ou seja, nem provar nem desaprovar a existência de Deus, mas apenas manter uma discussão que rende muito, inclusive dinheiro.

Quando um ateu que se diz convicto de sua descrença ou quando um religioso que se diz convencido de sua crença tentam provar a todo custo que Deus inexiste ou existe, o que realmente eles querem é provar para si próprios que sua descrença ou crença faz algum sentido.

Mas voltando ao Dawkins, de vez em quando ele consegue “dá uma dentro” quando critica a religião. Por exemplo, ao citar alguns dos corriqueiros argumentos usados por religiosos a fim “provar” a existência de Deus, tais como:

Argumento da Devastação Incompleta
: Um avião caiu matando passageiros e tripulantes. Mas uma criança sobreviveu só com queimaduras de terceiro grau. Portanto, Deus existe.
Argumento dos Mundos Possíveis: Se as coisas tivessem sido diferentes, as coisas seriam diferentes. Isso seria ruim. Portanto, Deus existe.
Argumento do Puro Desejo: Creio mesmo em Deus! Creio mesmo em Deus! Creio, creio, creio, creio. Creio mesmo em Deus! Portanto, Deus existe.
Argumento da Descrença: A maioria da população do mundo é de pessoas que não acreditam em Deus. Isso era exata-mente o que Satã queria. Portanto, Deus existe.
Argumento da Experiência Após a Morte: A pessoa X morreu atéia. Hoje ela percebe seu erro. Portanto, Deus existe.
Argumento da Chantagem Emocional: Deus o ama. Como você pode ser tão insensível e não acreditar nele? Portanto, Deus existe (Companhia das Letras, 2007, p. 96).

Sempre me pergunto sobre o que é mais fácil: provar que Deus existe ou deixar que Deus mesmo se faça provar? Aliás, pensando teologicamente, será que Deus (levando em conta sua existência) quer realmente ser “provado”? Por que, afinal, não tomar a crença em Deus como um atributo exclusivo da fé?

É isso!

Darwin nos vestibulares - VIII

Aos que vão prestar vestibular, seguem novas questões de Biologia, todas referentes a temas relacionados à Teoria da Evolução, tais como: especiação, Seleção Natural, mutações, transformismo, gradualismo, adaptacionismo e outros enigmas evolutivos:

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QUESTÃO 1 (PUC-MG):
Considere a seqüência abaixo:
População original - separação - duas populações evoluindo independentemente - populações morfologicamente distintas - populações voltando a viver juntas - populações se cruzando e originando descendentes férteis
É correto concluir que as duas populações, formadas a partir de um único estoque, são:
a) espécies distintas, porém ainda se cruzam.
b) da mesma espécie, possuindo idêntico conjunto genotípico.
c) espécies distintas, mas com o mesmo tipo de genes sexuais.
d) exemplo típico de um processo evolutivo de convergência adaptativa.
e) exemplo de um processo inicial de especiação, mas que não ocorreu.

QUESTÃO 2 (CESGRANRIO):
Encontram-se abaixo etapas de um processo de especiação.
I. Quando a temperatura da região se eleva, duas populações se isolam nas encostas de montanhas diferentes.
II. Uma espécie de pássaro, adaptada ao frio, habita todo um vale.
III. As diferenças genéticas acumuladas durante o período de isolamento não permitem que os membros das duas populações se cruzem.
IV. Após milhares de anos, a temperatura volta a baixar e as duas populações espalham-se pelo vale.
A seqüência lógica dessas etapas é:
a) I, II, III, IV. - b) II, I, III, IV - c) II, I, IV, III - d) II, III, IV, I - e) IV, III, II, I.

QUESTÃO 3 (UNIV. CAXIAS DO SUL-RS):
Ao fenômeno de formação de espécies novas, a partir de uma população ancestral, originadas pelo estabelecimento de um isolamento geográfico que permitiu a ocorrência de mutações dando lugar a raças geográficas distintas, dá-se o nome de:
a) adaptação.
b) seleção natural.

c) especiação.

d) isolamento reprodutivo.
e) recombinação gênica.

QUESTÃO 4 (CESGRANRIO):
Analise as afirmativas a seguir, a respeito das mutações:
I. Sempre que o ambiente se torna desfavorável, o ser vivo reage sofrendo uma mutação gênica.
II. As mutações transmitidas às gerações futuras são aquelas que ocorrem em células germinativas.
III. As mutações ocorridas em células somáticas são de grande valor adaptativo para a perpetuação da espécie.
Está(ão) correta(s):
a) I apenas. - b) II apenas. - c) III apenas. - d) I e II apenas. - e) II e III apenas.

QUESTÃO 5 (UNIFOR-CE) Considere a seguinte situação:
"Os indivíduos de uma população foram isolados, por uma barreira geográfica, em dois grupos (A e B); após um longo espaço de tempo, a barreira desaparece e os dois grupos voltam a viver numa área comum, porém os cruzamentos entre eles não são mais possíveis". Com base nesses dados, é possível inferir que:
a) haverá extinção de A e B.
b) ocorrerá aumento de A e diminuição de B.
c) haverá aumento de B e diminuição de A.
d) as diferenças acumuladas em A e B desaparecerão.
e) A e B poderão ser consideradas espécies diferentes.

QUESTÃO 6 (UNIFOR-CE):
Uma população do continente coloniza duas ilhas. A adaptação aos diferentes ambientes das ilhas leva à diferenciação das populações A e B. Se as populações entrarem em contato, elas não poderão mais intercruzar.
Esse relato descreve uma situação de:
a) heterose.
b) especiação.
c) competição.
d) convergência adaptativa.
e) recombinação genética.

QUESTÃO 7 (UNIV. ESTÁCIO DE SÁ-RJ):
O isolamento reprodutivo entre duas populações vizinhas da mesma espécie pode provocar a especiação, uma vez que:
a) as populações possuem habitats distintos, sem haver, porém, isolamento geográfico.
b) a taxa de mutações adaptativas se altera.
c) interrompe o intercâmbio genético entre elas.
d) estimula o surgimento de novas subespécies nessas populações.
e) há um decréscimo na taxa de mutações em cada população.

QUESTÃO 8 (UNIFOR-CE):
Um modelo de especiação pressupõe a ocorrência de:
I. diversificação gênica;

II. isolamento reprodutivo;
III. isolamento geográfico.
Até surgir uma nova espécie, a seqüência mais provável dessas etapas é:
a) I–II–III. - b) I–III–II - c) II–I–III - d) III–I–II - e) III–II–I

QUESTÃO 9 (UFPR):
Segundo a moderna genética de populações humanas, qual é a mais realista das definições de raças?

a) São populações caracterizadas por marcantes diferenças fenotípicas.
b) São populações que diferem entre si relativamente às freqüências de traços hereditários.
c) São conjuntos de indivíduos homozigotos relativamente a alelos condicionadores de características fenotípicas marcantes.
d) São populações que ocupam diferentes áreas geográficas.
e) São agrupamentos geneticamente diferentes e que se encontram isolados de outros agrupamentos pertencentes à mesma espécie.

QUESTÃO 10 (UFPA):
Na borda norte e na borda sul do Grand Canyon habitam duas populações de esquilos com diferenças morfológicas marcantes que, em condições naturais, sem as barreiras geográficas, não são capazes de se intercruzarem. As duas populações constituem ______________ diferentes, devido principalmente a (ao) _________________.

a) raças - isolamento reprodutivo
b) espécies - isolamento reprodutivo
c) raças - isolamento geográfico
d) espécies - isolamento geográfico
e) raças - diferenças morfológicas.

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É isso!

Darwin e sua causa nada sagrada

O choque cultural pelo qual Darwin passou quando viu pela primeira vez os fueguinos causou-lhe um impacto tão forte que ele chega a finalizar seu livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual” com um relato que sintetiza toda sua visão sobre estes indígenas da Terra do Fogo: “Jamais esquecerei o espanto que tive quando pela primeira vez vi uma reunião de fueguinos numa praia selvagem e impérvia, diante da ideia que logo me veio à mente — assim eram os nossos antepassados. Esses homens estavam completamente pelados e tinham o corpo pintado, com os longos cabelos emaranhados, as bocas espumavam de excitação e tinham uma expressão selvagem, apa­vorada e cheia de suspeita. Malmente tinham alguma arte e viviam como animais selvagens daquilo que conseguiam capturar e eram impiedosos com o que não fosse da sua tribo. Quem tiver visto um selvagem em sua terra nativa não sentirá muita vergonha se for constrangido a reconhecer que em suas veias corre o sangue das mais humildes criaturas. Quanto a mim, quisera antes ter descendido daquela pequena e heróica macaquinha que desafiou o seu terrível inimigo para salvar a vida do próprio guarda; ou daquele velho babuíno que, des­cendo da montanha, levou embora triunfante um companheiro seu jovem, livrando-o de uma matilha de cães estupefatos, ao invés de descender de um selvagem que sente prazer em tor­turar os inimigos, que encara as mulheres corno escravas, que não conhece o pudor e que é atormentado por enormes su­perstições” (Hemus Editora, 1974, p. 711).

As narrativas, a seguir, todas extraídas do seu diário à bordo do Beagle (“
Viagem de um naturalista ao redor do mundo”, publicado em Língua Portuguesa pela Abril Cultural), parecem vir de encontro à tese de um Darwin que idealizou sua teoria da evolução em prol de uma causa sagrada. Sua repulsa, seu nojo e desprezo por este povo serve como uma pequena mostra de como o “civilizado, cristão e superior homem europeu” via o “incivilizado, pagão e selvagem indígena”.

Sim, é bem verdade que este tipo de mentalidade não era exclusividade do autor de “A Origem das Espécies”. Em vez disto, refletia a forma de pensar quase generalizada do inglês vitoriano. Vá lá, levemos em conta o contexto cultural da época, mas, por que, afinal, essa tentativa ilógica de atribuir a Darwin uma luta que nunca foi a dele? Ele era abolicionista? Sim, mas, a abolição da escravatura também não era uma necessidade imposta pela coroa inglesa naquele instante histórico?

Ora, se Darwin era um abolicionista por desejar ver o bem dos africanos, por que não nutria ele do mesmo apreço para com os pobres fueguinos?

Pois é...
Mas, vamos a Darwin:

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"VIAGEM DE UM NATURALISTA AO REDOR DO MUNDO":

"Pela manhã, o capitão expediu uma embaixada que fosse entender-se com os fueguinos. Logo que chegamos à distância de poder ouvir, um dos quatro aborígines que se tinham adiantado para nos receber pôs-se a gritar com grande veemência, desejando indicar-nos o local onde poderíamos desembarcar. Quando nos viram em terra, porém, pareceram um tanto alarmados, contudo continuaram a falar e gesticular rapidamente. Era, sem exceção, o espetáculo mais interessante e curioso a que jamais me foi dado assistir: nunca poderia ter acreditado na enormidade da diferença que separa o selvagem do homem civilizado; é maior do que a que existe entre a fera e o animal domesticado, por isso que, no homem, há mais capacidade de aperfeiçoamento..."

"O ancião possuía uma testeira de penas brancas que lhe escondia parcialmente o emaranhado das tranças pretas e rudes. Atravessavam-lhe horizontalmente o rosto duas barras lárgas: uma, pintada de encarnado brilhante, ia-lhe de uma orelha à outra, abrangendo o lábio superior; a outra, branca como giz, se estendia paralelamente acima da primeira, cobrindo-lhe dessa cor até as pálpebras. Os outros se achavam sarapintados de pó negro, feito de carvão vegetal. O grupo, francamente, mais parecia encarnar os demônios que aparecem no palco em peças do gênero de Der Freischzutz.
A própria atitude já era abjeta, e a expressão que se lhes desenhava no semblante era de surpresa, suspeita e alarma. Recebidos que foram os presentes que lhes levávamos, constando de fazenda escarlate e que se apressaram em amarrar em torno do pescoço, logo se acamaradaram. Isso nos deu a entender o velho, batendo levemente em nosso peito, e fazendo um ruído cacarejante, semelhante ao que se faz quando se dá milho à criação. Caminhei algum tempo em sua companhia, e essa demonstração de amizade se repetiu várias vezes; completavam-na três fortes palmadas que me dava simultaneansente no peito e nas costas. Descobria, depois, o busto para que eu lhe retribuisse o cumprimento, que, uma vez feito, aparentemente o enchia de grande satisfação. A linguagem desse povo, de acordo com a noção que dela fizemos, quase nem merece ser descrita como articulada. Comparou-a o Çapitão Cook ao som que um indivíduo produz quando procura desimpedir a laringe; certamente, porém, nenhum europeu jamais desimpediu a garganta fazendo cacarejos tão guturais e roucos como aqueles..."

"Até aqui não falei ainda a respeito dos fueguinos que trazíamos a bordo. Durante a viagem anterior do Adventure e do Beagle, de 1826 a 1830, o Capitão Fitz Roy prendera um grupo de nativos como reféns contra o roubo de um barco, cuja falta seriamente embaraçou a comissão de vistoria. Estes aborígines, e mais uma criança que havia comprado por um botão de pérolas, levou-os à Inglaterra, comprometendo-se a educá-los e dar-lhes instrução religiosa por sua própria conta. Um dos principais motivos que induziram o Capitão Fitz Roy a empreender a presente viagem foi restabelecer esses indígenas na sua terra natal..."

"Ao verem um dos nossos braços, pasmaram-se ante a sua brancura, exatamente como fizera um orangotango que eu tinha visto no jardim zoológico."

"Quando descíamos, um dia, próximo à ilha Wollaston, acercamo-nos de uma canoa em que iam seis fueguinos. Eram as criaturas mais abjetas e miserandas que tinha visto onde quer que fosse."

"Em outro ponto não muito afastado, veio para perto do navio uma mulher nua que trazia ao peito um recém-nascido. Sem dar atenção ao granizo que caía e se fundia ao calor do seio e do corpo do seu filhinho, ali permaneceu longo tempo, presa de simples curiosidade! As míseras criaturas estavam atrofiadas; tinta gordurosa pintava-lhes o semblante horrível, a pele cobria-se de graxa e imundície, os cabelos andavam desgrenhados, a voz era dissonante e os gestos, violentos. Olhando-se para aqueles homens, custava-nos crer que fossem criaturas da nossa espécie e habitassem o mesmo mundo. É assunto comum de conjeturas o prazer que acaso possam ter na vida alguns dos animais inferiores: que dizer-se daqueles bárbaros, tomando-os como objeto de tais meditações! Cinco ou seis criaturas humanas, nuas e mal protegidas contra a inclemência da chuva e do vento desse clima borrascoso, deitam-se sobre o solo úmido para passar a noite, enrolados como pobres irracionais..."

"O depoimento do rapaz que acompanhava Mr. Low, se bem que independente, corrobora as declarações de Jemmy Button, segundo as quais, quando premidos pela fome, no inverno, sacrificam e devoram as mulheres velhas, antes de se decidirem a matar o cães. Interrogado por Mr. Low, o rapaz replicou que “cães apanham lontras; mulheres velhas, não”. Descreveu também o modo pelo qual sufocam a vítima na fumaça, imitando-lhe pitorescamente os gritos, e dizendo quais as partes do corpo que se reputavam mais saborosas ao paladar. Horrível como deve ser a morte dessas pobres mulheres, infligida assim pelos próprios parentes e amigos, deve ser ainda mais pungente o medo que as acomete, nas ocasiões em que a fome começa a se fazer sentir. Contam que, muitas vezes, fogem para as montanhas, mas vão buscá-las os homens e são reconduzidas ao altar do sacrificio: a própria lareira!"
Nunca pôde o Capitão Fitz Roy certificar-se se os fueguinos possuem alguma crença definida sobre a vida futura. Enterram por vezes os seus mortos em cavernas, ou então nas florestas das montanhas. Não sabemos que ritual celebram. Jemmy Button não se decidia a comer aves terrestres, por isso que elas se alimentam de “homens mortos”. Recusam-se até mesmo a fazer menção dos amigos falecidos. Não temos base para crer que pratiquem alguma forma de adoração religiosa, entretanto, poder-se-ia considerar como cerimônia dessa natureza a prece do ancião murmurada sobre a banha que distribuía à família esfomeada..."

Não podem conhecer a sensação de possuir um lar, e muito menos a dos afetos domésticos, pois o marido é para a mulher o que é para o laborioso escravo um senhor brutal. Que quadro de perpetração mais horrenda-se poderá contemplar do que a cena que Byron presenciara na costa ocidental, quando uma desventurada mãe desceu para erguer o filhinho ensangüentado e moribundo que o marido lançara impiedosaniente de encontro às pedras, por ter deixado cair um cesto de ovos marinhos! Quão pouco podem as faculdades mais nobres da mente ser postas em ação: que haverá ali que a imaginação se possa representar, a razão comparar, ou sobre que o julgamento se decidir? Para arrancar um marisco do rochedo, nem sequer astúcia é preciso, essa mais rudimentar faculdade da mente. A sua habilidade em muitos respeitos é comparável ao instinto dos animais, pois não se aperfeiçoa com a experiência. A canoa, o produto máximo do seu engenho, miserável como é, tem, como no-lo informa Drake, permanecido a mesma durante os últimos 250 anos.
Quando se contempla esse povo selvagem, pergunta-se, a si mesmo, de onde teria procedido? Que sedução poderia ter atraído esses indivíduos, ou que alterações haveriam forçado essas tribos a deixarem as belas regiões do norte, viajarem através da cordilheira, a espinha dorsal da América, para inventarem e construírem canoas que não se usam nas tribos do Chile, do Peru e do Brasil, e entrarem numa das mais inóspitas regiões no limite dos confins do globo? Conquanto tais reflexões possam a princípio apoderar-se da mente, podemos, entretanto, ter certeza de que são parcialmente errôneas. Não há motivo de se supor que o número dos fueguinos esteja em declínio, de sorte que é lícito acreditar-se que gozam de certa soma de felicidade, seja ela de que natureza for, e que lhes torna a vida digna de ser vivida. A natureza, que tudo prevê pela onipotência do hábito e dos seus efeitos hereditários, amoldou os fueguinos au clima e aos produtos da sua miseranda pátria..."

"Nunca me hei de esquecer do aspecto imorigerado e selvagem de um grupo de quatro ou cinco indígenas que, abeirando-se subitaniente do precipício, absolutamente nus, os cabelos compridos a rolar-lhes pelas faces, se puseram a saltar, acenar com varas grosseiras e vociferar os mais terríficos guinchos. (. ..)"

"Vários deles haviam corrido tanto, que o sangue lhes brotava do nariz, e a boca se enchia de espuma, da pressa com que falavam. E, pela nudez do corpo besuntado de preto, branco e vermelho, mais pareciam demônios que regressavam de encarniçada refrega.
Na manhã seguinte à nossa chegada (dia 24), começaram os fueguinos a aparecer de todas as direções, vindo também a mãe e os irmãos de Jemmy. Este havia reconhecido, de prodigiosa distância, a voz estentórea de um dos seus irmãos. O encontro foi menos interessante que o de um cavalo que, sendo solto num pasto, ali deparasse com velho camarada seu. Não houve a menor demonstração de afeto. Limitaram-se a fitar-se durante alguns minutos, a mãe logo se afastando, a cuidar da sua canoa. Soubemos, no entanto, por York, que ela tinha ficado inconsolável com a perda de Jemmy; que o havia procurado por toda parte, julgando que tivessem esquecido de levá-lo no navio. As mulheres acolheram Fuegia com muita bondade. Já tínhamos percebido que Jemmy quase não se lembrava mais da língua materna. Acho que não poderia haver outra criatura humana que possuísse menor cabedal de vocábulos, pois o seu inglês era paupérrimo. Se bem que o lamentássemos, não pudemos deixar de achar graça em vê-lo dirigir-se em inglês ao irmão, e, logo a seguir, perguntar-lhe em espanhol: “No sabe?”..."

"Os três fueguinos, embora tivessem mantido contato de somente três anos com homens civilizados, gostariam, estou certo, de se aterem aos seus novos hábitos, mas via-se que isso seria impossível. Receio até que seja duvidoso se a sua visita à civilização lhes tivesse realmente valido qualquer proveito concreto..."

"Quando me achava na baleeira, cheguei até a criar ódio pelo mero som da sua voz, tantos dissabores ela nos tinha, a todos, custado. A primeira e a última palavras eram sempre yammerschooner. Entrando em alguma baiazinha sossegada, pensando que fôssemos passar uma noite tranqüila, eis que ressoa, inesperadamente, partida de um canto obscuro, a palavra estridente e odiosa, fazendo-se a notícia espalhar pela fumaça do fogo sinaleiro. Sempre que deixávamos um ancoradouro, costumávamos dizer: “Graças aos céus, estamos ficando livres desses míseros mortais !“ Contudo, uma derradeira vez, através de prodigiosa distância, se fazia ouvir o eco mortiço de uma palavra na qual ainda reconhecíamos claramente o detestável yammerschooner. Entretanto agora, quanto mais fueguinos encontramos no caminho, tanto mais divertimento nos propiciamos. Tanto eles como nós, rindo-se, admirando-se e pasmando-se uns dos outros; nós, apiedando-nos deles por nos fornecerem tão excelentes peixes e siris a trocâ de farrapos sem valor; eles, afoitando-se em agarrar a oportunidade de encontrar gente tão maluca que trocava, por um bom almoço, tão esplêndido atavio.

Disse que tinha construído uma canoa, e gabou-se de já poder falar um pouco do seu próprio idioma! O mais curioso é que parecesse ter ensinado um pouco de inglês a toda a sua tribo, pois um ancião, espontaneamente, apresentou-nos a moça, dizendo: “Jemmy Buton’s wife”. Jemmy perdeu tudo quanto possuía. Disse-nos que York Minster tinha feito uma grande canoa e que, havia vários meses, ele e sua esposa Fuegia tinham voltado à terra natal. Despediu-e perpetrando um gesto da mais consumada vilania. Depois de persuadir Jemmy e sua mãe a acompanhá-lo, desertou-os durante uma noite, roubando-lhes absolutamente toda a bagagem...

A perfeita igualdade entre os indivíduos que compõem as tribos de Terra do Fogo deverá retardar-lhes, por longos anos, a civilização. Como nos animais, cujo instinto os obriga a viverem em sociedade, sob a obediência de um chefe, e que vemos mais capazes de melhoramento, assim também com as raças da humanidade. Onde quer que procuremos a causa ou conseqüência dos mais civilizados, encontramo-la sob as formas mais artificiais de governo. Por exemplo, os habitantes de Otaheite, que, quando descobertos, se faziam governar por reis hereditários, tinham atingido cultura mais alta do que outro ramo da mesma raça, os da Nova Zelândia, que, conquanto beneficiados pela atenção que foram compelidos a dar à agricultura, eram republicanos no mais absoluto sentido da palavra. Na Terra do Fogo, até que algum chefe se levante com poder suficiente para garantir-se a posse de vantagens adquiridas como sejam os animais domésticos, parece quase impossível que o estado político do país possa melhorar. Presentemente, o simples pedaço de tecido que se dá a um índio é rasgado em mil pedaços para contentar a todos, nenhum ficando mais rico do que o outro. De outro lado, difícil é compreender-se como poderia elevar-se um chefe, capaz de manifestar sua superioridade e subir ao poder, senão quando houvesse algum conceito acerca da propriedade, que a isso o ajudasse, distinguindo-o dentre os demais.
Creio que nesta parte extrema da América do Sul as condições de melhoramento em que o homem vive são muito inferiores às de qualquer outra parte do mundo. Os ilhéus do mar do Sul, das duas raças que povoam o Pacífico, são comparativamente civilizados. Os esquimós nas suas grutas subtenâneas gozam de algum conforto na vida, e, quando saem completamente equipados em suas canoas, manifestam o domínio de grandes habilidades. Algumas das tribos sul-africanas, perambulando à cata de raízes, e vivendo ocultas nas extensões planas e áridas, são já bastante inditosas. Os australianos, na simplicidade das artes da vida, são os que mais se aproximam dos fueguinos. Podem, entretanto, gabar-se do seu bumerangue, da sua lança, do seu processo de escalar árvores, seguir a pista dos animais e caçar. Pelo fato de o australiano ser superior nas suas aquisições não se deve, contudo, deduzir que seja igualmente superior na sua capacidade mental; muito ao contrário, pelo que observei dos fueguinos, quando a bordo, e pelo que tenho lido sobre os australianos, sinto-me inclinado a pensar que é justamente o contrário que se dá."

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É isso!

Fonte:
Charles Darwin: “Viagem de naturalista ao redor do mundo”. Abril Cultural. São Paulo, p.59-67:


Alfred Wallace e o Espiritismo

É fato comum as religiões tentar achar na ciência indícios que corroborem com seus preceitos ou doutrinas. O Espiritismo é um caso exemplar. Daí a proliferação de livros sobre o assunto. Por exemplo: “Darwin e Kardec: um diálogo possível”, “Fundamentação da Ciência Espírita”, “A Ciência dos Espíritos”, “O Espiritismo Perante a Ciência” etc. Especificamente em relação a este último título, o conteúdo a seguir me chamou atenção, não pelas “evidências científicas” apresentadas, mas por uma carta atribuída a Alfred Wallace, que versa sobre fenômenos de natureza espiritualista.

É bem verdade que Wallace era um espiritualista confesso. Ao contrário do naturalista Charles Darwin, que se utilizou da Seleção Natural para explicar todos os fenômenos relacionados à vida, Wallace nunca foi capaz de aplicá-la à mente humana. Isso explica em partes porque a maioria dos intelectuais elegeram Darwin como o baluarte da evolução. Mas essa é uma outra história...

Vamos à suposta carta de Alfred Wallace à revista Times (o “suposta” é por não ter encontrado o ano e a edição do referido periódico onde a missiva teria sido publicada):

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“Pode parecer ridículo colocar-se alguém diante de uma mesa e acreditar que um dos seus finados parentes venha conversar por meio desse móvel. É isto, porém, uma verdade, e entre os milhares de fatos narrados pelos mais honoráveis homens de ciência citaremos a seguinte carta de Alfred Wallace, não só por ser particularmente probante, como porque o autor está acima de qualquer suspeita.

Carta de Alfred Russel Wallace ao editor do Times.

“Senhor. Apontado por muitos de vossos correspondentes como um dos homens de ciência que crêem no Espiritismo, seja-me permitido estabelecer, ligeiramente, as provas sobre as quais se funda minha crença.

Comecei minhas investigações há cerca de oito anos, e considero circunstância feliz para mim que os fenômenos maravilhosos fossem, nessa época, menos comuns e muito menos acessíveis que hoje; isto me levou a experimentá-los em larga escala, na minha casa e em companhia de amigos, nos quais podia confiar.

Tive, assim, a satisfação de demonstrar, com o auxílio de grande variedade de experiências rigorosas, a existência de ruídos e movimentos que não podem ser explicados por nenhuma causa física conhecida ou concebível.

Assim, familiarizado com esses fenômenos, cuja realidade não deixa a menor dúvida, estive em condições de comparálos com as mais poderosas manifestações de médiuns de profissão e pude reconhecer a identidade de causa entre uns e outros, em vista de semelhanças não muito numerosas, mas bastante características.

Consegui igualmente obter, graças a paciente observação, provas certas da realidade de alguns fenômenos dos mais curiosos, que me pareceram e ainda me parecem dos mais concludentes. Os pormenores dessas experiências exigiriam um volume, mas talvez me fosse permitido descrever sucintamente uma delas, pelas notas tomadas no momento, a fim de mostrar, por um exemplo, como é possível evitar as fraudes de que o observador paciente é vítima, muitas vezes, sem o suspeitar.

Uma senhora, que nunca vira um desses fenômenos, pediunos, a minha irmã e a mim, que a acompanhássemos a um médium de profissão, bem conhecido Lá fomos e tivemos uma sessão particular, em plena claridade, por um dia de verão. Depois de grande número de movimentos e pancadas, como de hábito, nossa amiga perguntou se o nome da pessoa falecida, com quem desejava comunicar-se, podia ser
soletrado. Sendo afirmativa a resposta, a senhora apontou, sucessivamente, as letras de um alfabeto impresso, enquanto eu anotava as que correspondiam às três pancadas afirmativas.

Nem minha irmã nem eu conhecíamos o nome que nossa amiga desejava saber, como ignorávamos o de seus defuntos pais; não pronunciara ela o próprio nome e nunca havia visto o médium antes.

Descreverei exatamente o que se passou, alterando apenas o nome da família, por não ter autorização para publicá-lo. – As letras que notei foram: Y, R, N, E, H, N, O, S, P, M, O, H, T. Pronunciadas as três primeiras letras, Y, R, N, disse minha amiga: é um contra-senso, seria melhor recomeçar. Justo, nesse instante, seu lápis estava na letra E, e as pancadas foram dadas. Veio-me uma idéia (tinha lido um fato semelhante, sem ter sido nunca testemunha), e disse: – Peço que continue; penso saber o que isto quer dizer.

Quando minha amiga acabou de soletrar, apresentei-lhe o papel; ela não viu sentido nenhum. Fiz uma divisão depois da primeira letra H, e pedi à senhora que lesse as duas partes, às avessas. Com grande espanto seu, surgiu, corretamente escrito, o nome Henry Thompson, que era o de seu filho morto e de quem ela queria informações. Justamente, por essa época, eu ouvira falar, à saciedade, da destreza maravilhosa da médium no apanhar as letras do nome que os visitantes enganados esperavam, apesar do cuidado que tinham em passar o lápis nas mesmas, com perfeita regularidade. Essa experiência (de que garanto a exata descrição feita no relato precedente), era e é, a meu ver, a refutação completa de todas as explicações apresentadas até aqui sobre os meios empregados para indicar, por pancadas, os nomes das pessoas falecidas.

Sem dúvida, não espero que os céticos, quer se ocupem ou não de ciência, aceitem tais fatos, de que poderia, aliás, citar grande número de minha própria experiência, mas também, por seu lado, não devem eles esperar que eu ou milhares de homens inteligentes, a quem foram dadas provas assim irrecusáveis, lhes adotemos o curto e fácil modo de explicação.

Permiti que faça, ainda, algumas observações sobre as idéias falsas que grande número de homens de ciência conceberam, no que toca à natureza destas pesquisas. Tomarei como exemplo as cartas de vosso correspondente Dircks.

Parece ele considerar como argumento contra a realidade dessas manifestações a impossibilidade de produzi-las e mostrá-las à vontade; outro argumento é o de que não podem ser explicadas por nenhuma lei conhecida. Mas, nem a catalepsia, nem a queda das pedras meteóricas, nem a hidrofobia podem ser produzidas quando se quer; entretanto, são fatos. O primeiro foi algumas vezes simulado, o segundo negado outrora e os sintomas do terceiro grandemente exagerados; por isso nenhum desses fatos foi definitivamente admitido no domínio da ciência, e entretanto ninguém se servirá desse argumento para recusar-se a deles ocupar-se.

Além disso, é estranho que um homem de ciência motive sua recusa em examinar o Espiritismo, no estar este em oposição a todas as leis naturais conhecidas, especialmente a da gravitação, e em contradição aberta com a química, a fisiologia humana e a mecânica. Ora, os fatos, se são reais, dependem de uma ou de muitas causas, capazes de dominar ou contrariar o efeito daquelas diferentes forças, exatamente
como elas contrariam ou dominam outras. Deveria ser isto forte estímulo para levar um homem de ciência a examinar o caso.

Não pretendo o título de verdadeiro homem de ciência; há muitos, entretanto, que merecem esse nome e que não foram absolutamente considerados especialistas pelo vosso correspondente. Julgo como tais o finado Dr. Robert Chambers, o professor William Gregory, de Edimburgo, e o professor Hare, de Filadélfia, infelizmente mortos, bem como o Doutor Guilly de Malvern, sábio médico, e o juiz Edmonds, um dos melhores jurisconsultos da América, os quais fizeram as mais amplas pesquisas no assunto. Todos esses vultos estavam não só convencidos da realidade dos fatos maravilhosos, senão ainda que aceitavam a teoria do Espiritismo moderno como a única que poderia englobar todos os fenômenos e explicá-los. Conheço também um fisiologista vivo, de elevada posição, que é, ao mesmo tempo, hábil investigador e fervoroso crente.

Para concluir (aviso a Bersot), posso dizer que, apesar de ter ouvido falar em grande número de embustes, nunca os descobri; e se a maior parte dos fenômenos extraordinários são burlas, só podem ser produzidos por máquinas ou aparelhos engenhosos, e estes ainda não foram descobertos. Não exagero declarando que os principais fatos estão agora bem estabelecidos e são tão fáceis de estudar como qualquer outro fenômeno excepcional da natureza, cuja lei ainda não se conhece.

São fatos de grande importância estes para a interpretação da História, cheia de casos semelhantes, assim como para o estudo do princípio da vida e da inteligência sobre o qual as ciências físicas lançam fraca e incerta luz. Creio firme, convictamente, que cada ramo da filosofia deve ser permitido, até que seja escrupulosamente examinado e tratado como constituindo parte essencial dos fenômenos da natureza
humana.

Seu muito respeitador Alfred R. Wallace.”

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É isso!

Fonte:
Gabriel Delanne: “O Espiritismo Perante a Ciência”. Edição Digitalizada.