O "darwinismo espiritual" de Allan Kardec

Assim como outros contemporâneos de Charles Darwin, tais como Spencer, Galton e Haeckel, o religioso Allan Kardec também se enveredou pelo mesmo caminho da evolução como progresso. Todavia, ao contrário de Darwin, que atribuía à evolução apenas um mecanismo materialista como a Seleção Natural, para Kardec o principal agente evolucionário eram os espíritos. "A evolução orgânica é fruto da evolução espiritual, contínua no tempo, resultado de uma constante passagem dos seres por dois mundo: o mundo terreno e o espiritual" (SOUSA, Hebe Laghi, 2007, p. 47).

Segundo a autora acima citada, em seu livro
"Darwin e Kardec, um diálogo possível": "Nosso primeiro corpo físico nada mais era que uma gota de material gelatinoso mas que possuía uma propriedade fantástica: a de se auto-reproduzir e povoar os mares, onde surgiram inúmeras outras gotas gelatinosas. Foi assim que iniciamos a exploração deste planeta, cuja atmosfera nem ainda era propícia à vida de um ser humano.
Passou o tempo e sofremos inúmeras transformações, desde os organismos mais rudimentares até os mais complexos, como peixes e répteis; aprendemos a voar nas asas de uma ave, chegamos aos mamíferos e, depois deles, aos símios e então aos hominídeos... Finalmente, alcançamos o Homem que hoje somos
" (Editora Allan Kardec, p. 51).

Parece consensual que todos aqueles que à época de Darwin, incluindo o próprio naturalista, os quais defendiam o conceito de evolução como progresso, acreditavam igualmente num "aperfeiçoamento social" entre os povos. No caso da doutrina de Kardec, o fator "espírito" seria assim essencial para que um povo superasse seu estágio selvagem e primitivo. Lembrando que Kardec nasceu de uma família burguesa na França, ou seja, era um "europeu civilizado".

Em seu famoso "
Livro dos Espíritos" Allan Kardec aborda a questão, é claro, "à luz dos espíritos". Em "Sucessão e aperfeiçoamento das raças", por exemplo, indaga e responde:

Há, neste momento, raças humanas que evidentemente decrescem. Virá momento em que terão desaparecido da Terra?
“Assim acontecerá, de fato. É que outras lhes terão tomado o lugar, como outras um dia tomarão o da vossa.”

Os homens atuais formam uma criação nova, ou são descendentes aperfeiçoados dos seres primitivos?
“São os mesmos Espíritos que voltaram, para se aperfeiçoar em novos corpos, mas que ainda estão longe da perfeição. Assim, a atual raça humana, que, pelo seu crescimento, tende a invadir toda a Terra e a substituir as raças que se extinguem, terá sua fase de crescimento e de desaparição. Substituí-la-ão outras raças mais aperfeiçoadas, que descenderão da atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos.”

Do ponto de vista físico, são de criação especial os corpos da raça atual, ou procedem dos corpos primitivos, mediante reprodução?
“A origem das raças se perde na noite dos tempos. Mas, como pertencem todas à grande família humana, qualquer que tenha sido o tronco de cada uma, elas puderam aliarse entre si e produzir tipos novos.”

Qual, do ponto de vista físico, o caráter distintivo e dominante das raças primitivas?
“Desenvolvimento da força bruta, à custa da força intelectual. Agora, dá-se o contrário: o homem faz mais pela inteligência do que pela força do corpo. Todavia, faz cem vezes mais, porque soube tirar proveito das forças da Natureza, o que não conseguem os animais.”

Será contrário à lei da Natureza o aperfeiçoamento das raças animais e vegetais pela Ciência? Seria mais conforme a essa lei deixar que as coisas seguissem seu curso normal?
“Tudo se deve fazer para chegar à perfeição e o próprio homem é um instrumento de que Deus se serve para atingir Seus fins. Sendo a perfeição a meta para que tende a Natureza, favorecer essa perfeição é corresponder às vistas de Deus.”

Mas, geralmente, os esforços que o homem emprega para conseguir a melhoria das raças nascem de um sentimento pessoal e não objetivam senão o acréscimo de seus gozos. Isto não lhe diminui o mérito?
“Que importa seja nulo o seu merecimento, desde que o progresso se realize? Cabelhe tornar meritório, pela intenção, o seu trabalho. Demais, mediante esse trabalho, ele exercita e desenvolve a inteligência e sob este aspecto é que maior proveito tira" (p. 332-334).

O estado físico e moral dos seres vivos é perpetuamente o mesmo em cada minuto?
“Não; os mundos também estão sujeitos à lei do progresso. Todos começaram, como o vosso, por um estado inferior e a própria Terra sofrerá idêntica transformação. Tornar-se-á um paraíso, quando os homens se houverem tornado bons.” É assim que as raças, que hoje povoam a Terra, desaparecerão um dia, substituídas por seres cada vez mais perfeitos, pois que essas novas raças transformadas sucederão às atuais, como estas sucederam a outras ainda mais grosseiras" (p. 127).

6º Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes de um menino hotentote recém-nascido e o educardes nos nossos melhores liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um Newton?
"À vista da sexta interrogação acima, dirão naturalmente que o hotentote é de raça inferior. Perguntaremos, então, se o hotentote é ou não um homem. Se é, por que a ele e à sua raça privou Deus dos privilégios concedidos à raça caucásica? Se não é, por que tentar fazê-lo cristão? A Doutrina Espírita tem mais amplitude do que tudo isto. Segundo ela, não há muitas espécies de homens, há tão-somente cujos espíritos estão mais ou menos atrasados, porém, todos suscetíveis de progredir. Não é este princípio mais conforme à justiça de Deus?" (p. 148, 149).

Fonte:
"
O Livro dos Espíritos". Allan Kardec. Tradução: Guillon Ribeiro. Federação Espírita Brasileira, 1994.

É isso!

Eu li isso...

MANDEVILLE:
"A evolução é essencialmente um processo caprichoso, que generosamente permite a sobrevivência de criacionistas, astrólogos e até meteorologistas."

HAUGHTON, 1860:
"Nenhum progresso nas ci
ências naturais será pos­sível enquanto os homens tomarem as suas grosseiras conjecturas da verdade como fatos." (Revista de História Naturat)

MACBETH, 1971:
"Darwin era um amador. Não ensinou numa uni­versidade nem trabalhou num laboratório." (Recuperando Dar­win)

SEDGWICK, 1859:
"Muitas das suas conclusões são baseadas em supo­sições que não podem nem ser provadas nem desaprovadas." (Carta a C. Darwin)

HOPKINS, 1860:
"O grande defeito desta teoria é a falta de todas as provas positivas." (Fraser's Magazine)

MIVART, 1871:
"As conclus
ões do Sr. Darwin podem estar corretas, mas sentimos que agora temos, na verdade, o direito de exigir que sejam provadas antes de concordar com elas." (Quarterly Review)

MILL, 1875:
"O Sr. Darwin nunca pretendeu que a sua teoria fosse provada." (Sistema de lógica; oitava edição)

SEDGWICK, 1860:
"Há uma luz pela qual o homem pode ver e com­preender fatos e verdades como estes. Mas Darwin propositada­mente oculta-a dos nossos sentidos." (Spectator)

BRONN, 1860:
"Não precisamos mais duvidar, como antes, da possi­bilidade de descobertas posteriores que gradualmente irão preen­cher as imensas lacunas que agora nos confrontam... No entanto, enquanto isso não é possível, a teoria de Darwin é tão impossível como antes." (Neues Jahrbuch für Mineralogie)

FAWCETT, 1860:
"Pode parecer, de acordo com o registro geológico, que grupos inteiros de espécies aparentadas surgiram, de repente, sobre a face da Terra." (Macmillan's Magazine)

GOULD, 1977:
"A reconciliação de nossas ideias gradualistas com a aparência de descontinuidade é um problema clássico da história intelectual." (Ontogenia efïlogenia)

OLDROYD, 1980:
"Dificilmente poderemos supor que a teoria de Darwin nos dirá, com precisão semelhante, quais espécies irão sobreviver no futuro e quais se extinguirão." (Impactos darwinianos)

MAE-WAN HO E PETER SAUNDERS:
"Passou-se aproximadamente meio século desde a formulação da síntese neodarwiniana. Grande volume de pesquisa foi realizado dentro do paradig­ma que ela define. Ainda assim, os sucessos da teoria se limitam às minúcias da evolução, tal como a mudança adaptativa da coloração de mariposas, ao mesmo tempo que pouquíssimo tem a dizer sobre as questões que mais nos interessam, como, para começar, de que maneira surgiram as mariposas."

JPHN MCDONALD:
"Os resultados dos últimos vinte anos de pesquisa sobre a base genética da adaptação levaram-nos a um grande paradoxo darwimano. Aqueles [genes] que são obviamente variáveis em populações naturais não parecem cons­tituir a base de muitas das grandes mudanças adaptativas, enquanto que aqueles [genes] que parecem constituir, de fato, o fundamento de muitas, se­não da maioria, das grandes mudanças adaptativas, aparentemente não são variáveis em populações naturais.''

GEORGE MIKLOS:
"O que, então, essa teoria geral e abrangente de evolução prevê? Dado um punhado de postulados, tal como mudanças aleatórias e coeficientes de seleção, ela prognosticará frequências [em genes] ao longo do tempo. E assim que deve ser uma teoria geral da evolução?"

JERRY COYNE:
"Concluímos — inesperadamente — que há poucas provas que sustentem a teoria neodarwiniana: seus alicerces teóricos são fracos, assim como as evidências experimentais que a apóiam."

JOHN ENDLER:
"Embora se saiba muita coisa sobre mutação, ela ainda é, na maior parte, uma "caixa preta" no que diz respeito à evolução. Funções bioquímicas novas parecem ser raras na evolução, e a base de sua origem é virtualmente desco­nhecida."

SCHÜTZENBERGER:
"Há uma grande lacuna na teoria neodarwiniana da evolução, e acreditamos que ela deva ser de tal natureza que não possa ser conciliada com a concepção corrente da biologia."

STUART KAUFFMAN:
"Darwin e a evolução nos dominam, quaisquer que sejam as queixas dos cientistas criacionistas. Mas será correia essa tese? Melhor ainda, será adequada? Acredito que não. Não é que Darwin tenha errado, mas sim, compreendido apenas parte da verdade."

MIVART:
"O que caberia alegar (contra o darwinismo), poderia ser resumido da seguinte maneira: que a "seleção natural" é incapaz de explicar os estágios incipientes de estruturas úteis. Que não se harmoniza com a coexistência de estruturas muito semelhantes, de origem diferente. Que há fundamentos para pensar-se que diferenças específicas podem ser desenvolvidas súbita, e não gradualmente. Que ainda é sustentável a opinião de que as espécies têm limites definidos, embora muito diferentes, para sua variabilidade. Que certas formas transicionais fósseis estão ausentes, quando se poderia esperar que estivessem presentes... Que há numerosos fenómenos notáveis em formas orgânicas sobre os quais a "seleção natural" pouco tem a dizer."

Extraído de:
1 - Wilma George: "As Idéias de Darwin". Editora Culturix. São Paulo, 1982.
2 - Michael Behe: "A Caixa Preta de Darwin". Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1996.

É isso!

O "progresso" de Herbert Spencer

O conceito de evolução como "progresso" estava profundamente arraigado na sociedade inglesa quando Charles Darwin publicou seu livro "A Origem das Espécies". O título inicial desta obra ('Sobre a Origem das Espécies por meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida") já comportava em si este conceito de "progressão evolutiva" entre as "raças". O homem, vindo de uma ínfima origem progrediu gradualmente ao longo dos tempos rumo ao seu supremo ápice: o branco europeu. Em "Do progresso - sua lei e sua causa", o influente filósofo da era vitoriana Herbert Spencer trata desta questão e aponta o europeu como o mais perfeito exemplo de civilidade e inteligência entre os povos:

"Seja ou não o progresso do homogêneo para o heterogêneo bastante visível na história biológica do globo, ele aparece, com relevo suficiente, no desenvolvimento do ser mais moderno e mais heterogêneo, — o
Homem. É inegável que, desde o período em que a terra foi povoada, aumentou a heterogeneidade do organismo humano entre os grupos civilizados da espécie; também a heterogeneidade desta última, considerada como um todo, aumentou por virtude da multiplicação das raças e da sua diferenciação entre si.

Como prova da primeira tese, podemos citar o fato de que no desenvolvimento relativo dos membros, os homens civilizados se afastam muito mais dos tipos placentários que as raças humanas inferiores. As pernas dos
papuas , que têm freqüentemente os braços e o corpo bem desenvolvidos, são muito curtas, lembrando os quadrúmanos, que não oferecem grande contraste no tamanho das extremidades toráxicas e das abdominais. Nos europeus, pelo contrário, é muito visível o maior comprimento e robustez das pernas, apresentando-se neles, portanto, uma maior heterogeneidade entre estas extremidades e as superiores. Outro exemplo da mesma verdade é a diferente relação que existe entre o desenvolvimento dos ossos do crânio e os da face, no selvagem e no homem civilizado.

Nos vertebrados, em geral, o progresso manifesta-se pela heterogeneidade crescente da coluna vertebral e, sobretudo, pela heterogeneidade das vértebras em que assenta o crânio, distinguindo-se as formas mais elevadas pelo tamanho relativamente maior dos ossos que cobrem o cérebro comparados com os maxilares, etc. Pois bem, este caráter, mais acentuado no homem do que em nenhum outro indivíduo do grupo, acentua-se mais no europeu do que no selvagem. Por outro lado, a julgar pela maior extensão e variedade das funções que desempenha, podemos inferir que o homem civilizado possui também o sistema nervoso mais complexo ou heterogêneo do que o homem não civilizado, fato que corresponde à maior relação que o cérebro do primeiro tem com os gânglios subjacentes.

Se fosse necessário dilucidar mais este tema, bastaria fixarmo-nos nas crianças. A criança européia tem muitos pontos de semelhança com a das raças inferiores, como se vê no achatamento das asas do nariz, na depressão deste, na divergência e abertura das narinas, na forma dos lábios, na distância entre os olhos e na pequenez das pernas. Pois bem, como o processo evolutivo que transformou estes traços nos do adulto europeu, é a continuação do precedente desenvolvimento do embrião, — asserção admitida por todos os fisiólogos, — daqui resulta que o processo paralelo, em virtude do qual os traços semelhantes das raças bárbaras se converteram nos das civilizadas, foi também a continuação da mudança do homogêneo para o heterogêneo" (p. 11).
Fonte:
"
Do progresso - sua lei e sua causa". Herbert Spencer. Tradução: Eduardo Salgueiro. Editorial Inquérito, Lisboa, 2002.

Nota 1:
Não custa lembrar que partiu de Spencer o lema "sobrevivência do mais apto". Darwin remete a esse fato em seu já citado livro "A Origem das Espécies":
"Dei a este princípio, em virtude do qual uma variação, por insignificante que seja, se conserva e se perpetua, se for útil, o nome de seleção natural, para indicar as relações desta seleção com a que o homem pode operar. Mas a expressão que M. Herbert Spencer emprega: «a persistência do mais apto», é mais exata e algumas vezes mais cômoda. Vimos que, devido à seleção, o homem pode certamente obter grandes resultados e adaptar os seres organizados às suas necessidades, acumulando as ligeiras mas úteis variações que lhe são fornecidas pela natureza. Mas a seleção natural, como veremos mais adiante, é um poder sempre pronto a atuar; poder tão superior aos fracos esforços do homem como as obras da natureza são superiores às da arte" (p. 76).

Nota 2:
Para Herbert Spencer, mediante uma contínua marcha do homogêneo para o heterogêneo, os seres tornam-se cada vez mais diferenciados e complexos, de maneira que sua existência, relacionada com os meios de conservação, progride em permanente luta, em que triunfam os "mais aptos". O europeu ao fazer sucumbir uma determinada tribo africana que se rebelou contra sua autoridade, apenas exerceu o "legítimo" direito de prevalecer sobre "os mais fracos". O darwinismo social desta forma ofereceu forte munição aos imperialistas que se sentiam assim justificados em sua ganância pelo vil metal em terra alheias.

É isso!

Darwin no divã de Freud

O que poderia haver de comum entre o freudismo e o darwinismo e a Seleção Natural e o complexo de Édipo?

Bem. Da mesma forma que Sigmund Freud reduziu tudo no complexo de Édipo, Charles Darwin sintetizou na Seleção Natural a origem e o fim de todas as cousas. Tanto o complexo de Édipo quanto a Seleção Natural são conceitos redutivistas, circulares e totalitários. Ademais, ambas as idéias sofrem do mesmo dilema da irrefutabilidade, isto é, não podem ser submetidas a testes ou corroboradas pela prova empírica. A especulação é assim preponderantemente a mola-mestra tanto do darwinismo quanto do freudismo. Outra característica comum entre ambos os conceitos refere-se à influência ideológica que exerceram e ainda exercem sobre a sociedade de um modo em geral. Tem-se ainda em comum a postura ditatorial exercida para com aqueles que se esforçam por oferecer novas alternativas aos dogmas estabelecidos. Acrescente-se ainda a tudo isso, as constantes menções que Freud sempre fez em relação às idéias de Darwin, a quem denominou de “grande Darwin”. Por exemplo:

Em:Sobre a psicopatologia da vida cotidiana”:
“- O grande Darwin estabeleceu uma “regra de ouro” para o trabalhador científico, baseada em seu discernimento do papel desempenhado pelo desprazer como motivo para o esquecimento” (p. 98).

Em: Totem e tabu e outros trabalhos”:
“Essa tentativa baseia-se numa hipótese de Charles Darwin sobre o estado social dos homens primitivos. Deduziu ele dos hábitos dos símios superiores, que também o homem vivia originalmente em grupos ou hordas relativamente pequenos, dentro dos quais o ciúme do macho mais velho e mais forte impedia a promiscuidade sexual. ‘Podemos na verdade concluir, do que sabemos do ciúme de todos os quadrúpedes masculinos, armados, como muitos se acham, de armas especiais para bater-se com os rivais, que as relações sexuais promíscuas em um estado natural são extremamente improváveis (…) Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo (…) a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe (…) a visão mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os outros homens. Ou pode ter vivido sozinho com diversas esposas, como o gorila, pois todos os antigos “concordam que apenas um macho adulto é visto num grupo; quando o macho novo cresce, há uma disputa pelo domínio, e o mais forte, matando ou expulsando os outros, estabelece-se como chefe da comunidade”. (Dr. Savage, no Boston Journal of Nat. Hist., vol. V, 1845-7, p. 423.) Os machos mais novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito estreita dentro dos limites da mesma família.’ (Darwin, 1871, 2, 362 e seg.)
Atkinson parece ter sido o primeiro a perceber que a conseqüência prática das condições reinantes na horda primeva de Darwin deve ter sido a exogamia para os jovens do sexo masculino. Cada um deles poderia, depois de ter sido expulso, estabelecer uma horda semelhante, na qual a mesma proibição sobre as relações sexuais imperaria, por causa do ciúme do líder. Com o decorrer do tempo, isto produziria o que se tornaria uma lei consciente: ‘Nenhuma relação sexual entre os que partilham de um lar comum’. Após o estabelecimento do totemismo, a regra assumiria outra forma e diria: ‘Nenhuma relação sexual dentro do totem’” (p. 91).

“A psicanálise revelou que o animal totêmico é, na realidade, um substituto do pai e isto entra em acordo com o fato contraditório de que, embora a morte do animal seja em regra proibida, sua matança, no entanto, é uma ocasião festiva - com o fato de que ele é morto e, entretanto, pranteado. A atitude emocional ambivalente, que até hoje caracteriza o complexo-pai em nossos filhos e com tanta freqüência persiste na vida adulta, parece estender-se ao animal totêmico em sua capacidade de substituto do pai. Se, agora, reunirmos a interpretação psicanalítica do totem com o fato da refeição totêmica e com as teorias darwinianas do estado primitivo da sociedade humana, surge a possibilidade de uma compreensão mais profunda - um vislumbre de uma hipótese que pode parecer fantástica, mas que oferece a vantagem de estabelecer uma orrelação insuspeita entre grupos de fenômenos que até aqui estiveram desligados.
Naturalmente, não há lugar para os primórdios do totemismo na horda primeva de Darwin.Tudo o que aí encontramos é um pai violento e ciumento que guarda todas as fêmeas para si próprio e expulsa os filhos à medida que crescem. Esse estado primitivo da sociedade nunca foi objeto de observação. O tipo ais primitivo de organização que realmente encontramos – que ainda se acha em vigor, até os dias de hoje, em certas tribos - consiste em grupos de machos; esses grupos são compostos de membros com direitos iguais e estão sujeitos às restrições do sistema totêmico, inclusive a herança através da mãe. Poderia essa forma de organização ter-se desenvolvido a partir da outra? E, se assim foi, ao longo de que linhas?” (p. 101).

“Todos sabemos que, há pouco mais de meio século, as pesquisas de Charles Darwin e seus colaboradores e precursores puseram fim a essa presunção por parte do homem. O homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele próprio tem ascendência animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espécies, e mais distanciadamente com outras. As conquistas que realizou posteriormente não conseguiram apagar as evidências, tanto na sua estrutura física quanto nas suas aptidões mentais, da analogia do homem com os animais. Foi este o segundo, o golpe biológico no narcisismo do homem” (p. 87)

Em: História de uma neurose infantil”:
“Em outras palavras, precisamos de mais informações sobre a origem da reprodução sexual e dos instintos sexuais em geral. Trata-se de problema capaz de atemorizar um leigo, e que os próprios especialistas ainda não foram capazes de resolver. Assim, forneceremos apenas o mais breve resumo do que parece pertinente à nossa linha de pensamento, entre as minhas assertivas e concepções discordantes. Uma dessas concepções despoja o problema da reprodução de sua fascinação misteriosa, representando-o como manifestação parcial do crescimento. (Cf. a multiplicação por fissão, brotação e gemiparidade). A origem da reprodução por células germinais sexualmente diferenciadas pode ser representada segundo sóbrias linhas darwinianas, imaginando-se que a vantagem da anfimixia, a que se chegou em determinada ocasião pela conjugação fortuita de dois protistas, foi retida e posteriormente explorada para desenvolvimento ulterior. Segundo essa concepção, o ‘sexo’ não seria nada de muito antigo e os instintos extraordinariamente violentos, cujo objetivo é ocasionar a união sexual, estariam repetindo algo que outrora ocorrera por acaso e desde então se estabelecera, por ser vantajoso” (p. 37).

"Em 1912 concordei com uma conjectura de Darwin, segundo a qual a forma primitiva da sociedade humana era uma horda governada despoticamente por um macho poderoso. Tentei demonstrar que os destinos dessa horda deixaram traços indestrutíveis na história da descendência humana e, especialmente, que o desenvolvimento do totemismo, que abrange em si os primórdios da religião, da moralidade e da organização social, está ligado ao assassinato do chefe pela violência e à transformação da horda paterna em uma comunidade de irmãos. Para dizer a verdade, isso constitui apenas uma hipótese, como tantas outras com que os arqueólogos se esforçam por iluminar as trevas dos tempos pré-históricos, uma ‘estória mais ou menos’, como foi divertidamente chamada por um crítico inglês sem maldade; porém essa hipótese para mim tem mérito se se mostrar capaz de trazer coerência e compreensão a um número cada vez maior de novas regiões” (p. 76).

Em: O ego e o ID”:
“Se novamente voltamos os olhos para as diversas resistências à psicanálise antes enumeradas, evidencia-se que apenas uma sua minoria pertence ao tipo que habitualmente surge contra a maior parte de inovações científicas de qualquer importância considerável. A maioria delas se deve ao fato de que poderosos sentimentos humanos são feridos pelo tema geral da teoria. A teoria darwiniana de descendência defrontou-se com a mesma sorte, de vez que pôs

abaixo a barreira arrogantemente erguida entre os homens e os animais. Chamei a atenção para essa analogia em um trabalho anterior, no qual demonstrava como a visão psicanalítica da relação do ego consciente com um inconsciente irresistível constituía um golpe severo para o amor-próprio humano. Descrevi-o como sendo o golpe psicológico ao narcisismo dos homens, e o comparei com o golpe biológico desfechado pela teoria da descendência e o golpe cosmológico, mais antigo, a ele dirigido pela descoberta de Copérnico” (p. 132).

É isso!

Charles Darwin, Alfred Wallace e a Seleção Natural

Pouca importa se quem primeiro idealizou o conceito de Seleção Natural foi Darwin, Wallace ou outro qualquer. No que tange à formação e evolução das espécies este mecanismo (o remédio para todos os males na natureza) há tempo se mostrou frágil e insuficiente. Na realidade, se não fora o comprometimento ideológico dos defensores de Darwin, a Seleção Natural há muito teria o mesmo legado que a antiga flogística ou que a velha e carcomida teoria do éter. Seja como for, o fato é que Charles Darwin aproveitou-se muito bem da Seleção Natural, com a qual aplicou com grande êxito seu famigerado chavão “sobrevivência do mais apto”. A posição sócio-econômica de Darwin na sociedade inglesa foi sem dúvida preponderante e decisiva para que ele, e não Wallace (ou outro qualquer) fosse aclamado como o legítimo “criador da Seleção Natural” ou o "pai da evolução". Ao Wallace restava o amargo gosto da derrota, que ele por sorte soube camuflar com uma modéstia salvadora. Antes o segundo lugar do que o pleno esquecimento. Seria perda de tempo atacar de frente os poderosos clãs Wedgwoods e Darwins. A assim sobreviveu o “mais apto”.

Bom. O famoso
"bulldog de Darwin", Thomas Henry Huxley, foi um dos que, na história do darwinismo, mais colaboraram na criação do mito da “originalidade de Darwin”. Em um de seus ensaios, por exemplo, ele discorre sobre esta questão, pondo-se como sempre na apaixonada defesa de seu grande mestre. Escreveu ele:

O crítico que queira ata­car o sr. Darwin só precisa ler a sua obra com a vontade de observar os seus defeitos e não os seus méritos, e ele encontrará facilmente mais sugestões adversas do que provavelmente seriam sugeridas pela sua pró­pria argúcia, sem a ajuda da auto-abnegação do sr. Darwin.
Ora, essa qualidade de sinceridade científica não é tão comum a pon­to de ser desencorajada; a meu ver, ela merece um tratamento diferente daquele adotado pelo revisor, que trata o sr. Darwin como um velho advo­gado trataria um homem contra o qual ele procura conseguir uma condena­ção, per fas aut nefas, e abre o seu caso tentando criar para os jurados um preconceito contra o prisioneiro. Em sua ânsia de realizar esse louvável objetivo, o revisor não pôde nem sequer apresentar a história da doutrina da seleção natural sem uma oblíqua e totalmente injustificada tentativa de de­preciar o sr. Darwin. Suas palavras são: "Para o sr. Darwin e (pela reticên­cia do sr. Wallace) somente para o sr. Darwin, é devido o crédito de ter sido o primeiro a apresentá-la proeminentemente e a demonstrar sua verdade". Ninguém poderia desejar, menos do que eu, apresentar uma dúvida sobre a originalidade do sr. Wallace ou questionar sua reivindicação ao mérito por ser um dos criadores da doutrina da seleção natural, mas a afirmação do sr. Darwin possui o único crédito de originar a doutrina porque a reticência do sr. Wallace é simplesmente ridícula. E a prova disso, em primeiro lugar, é fornecida pelo próprio sr. Wallace, cuja nobre ausência de qualquer ciúme mesquinho nesse assunto muita gente deveria imitar, e que assim escreveu: "Durante toda a minha vida senti, e ainda sinto, a satisfação mais sincera pelo trabalho do si Darwin que, muito antes de mim, não deixou a oportunidade de escrever A Origem das Espécies. Há muito tempo, medi a minha força e sei que ela não estaria à altura dessa tarefa". Portanto, se houvesse qualquer reticência a respeito do assunto, seria a do sr. Darwin que, durante esses longos vinte anos de estudo, interviria entre a concepção e a publicação de sua teoria que deu ao sr. Wallace a oportunidade de ser o descobridor independente da importância da seleção natural. E, finalmente, ao lembrar que os ensaios do sr. Darwin e do sr. Wallace foram publicados simultaneamente na Revista da Sociedade Lineana de 1858, é possível que o revisor, ao depreciar indiretamente os esforços do sr. Darwin, na realidade concedeu-lhe uma prioridade que, na estrita legalidade, não existe. O sr. Mivart, cujas opiniões tão frequentemente coincidem com aque­las do revisor da Quarterly Review, coloca o caso de uma maneira que, a meu juízo, eu lamento ter de dizer que também seja incorreta, apesar de a injustiça ser menos berrante. Ele diz que a teoria da seleção natural é, de modo geral, exclusivamente associada ao nome do sr. Darwin "por causa da auto-abnegação do sr. Wallace". Corno eu já disse, ninguém poderia honrar o sr. Wallace mais do que eu, tanto pelo que fez quanto pelo que ele não fez em sua relação com o sr. Darwin. E talvez nada possa ser mais creditado a ele do que sua honesta declaração de que não poderia ter escri­to uma obra como A Origem das Espécies; e por meio dessa declaração a pessoa mais diretamente interessada no assunto repudia, por antecipação, a sugestão do sr. Mivart de que a eminência do sr. Darwin se deva, mais ou menos, à modéstia do sr. Wallace.”

Fonte:
“Darwiniana: ‘A Origem das Espécies' em Debate”. Thomas Henry Huxley. Editora Madras. Tradução: Fulvio Lubisco. São paulo, 2006, p. 108-109.

É isso!

Existe uma lei da evolução?

Por: Karl Popper, em "A Miséria do Historicismo". Edusp, 1980, p. 59, 60:

"As doutrinas do historicismo que denominei “naturalísticas” têm muito em comum com as doutrinas antinaturalísticas. Exemplificativamente, elas estão sob a influência do pensamento holístico e nascem de inadequada interpretação atribuída ao papel dos métodos empregados pelas Ciências Naturais. Uma vez que as doutrinas representam esforço mal orientado de imitação desses métodos, elas podem ser descritas como doutrinas “cientísticas” (para adotar a terminologia de Hayek). São típicas do historicismo, exatamente como as doutrinas antinaturalísticas – mas talvez se revistam de importância maior. Mais especificamente, a crença de que compete às Ciências Sociais exibir, em toda sua nudez, a lei da evolução da sociedade, com o propósito de determinarlhe o futuro (idéia já examinada nas seções 14 a 17, acima), poderia ser dada, possivelmente, como a doutrina historicista por excelência. Com efeito, essa concepção de uma sociedade que se move através de sucessivos períodos é a concepção que gera, de um lado, o contraste entre um mundo social em mutação e um mundo físico imutável; de outro lado, é a mesma concepção que gera a crença naturalística (e científica) em “leis naturais de sucessão” – crença que podia reclamar apoio das previsões a longo prazo, próprias da Astronomia, nos tempos de Comte e Mill, e reclamar apoio do darwinismo, em dias mais recentes. Na verdade, a voga do historicismo pode ser vista como simples reflexo da voga do evolucionismo – uma filosofia que deve sua influência, em grande parte, ao choque violento entre uma brilhante hipótese científica, relativa à história de várias espécies de animais e plantas que vivem na Terra, e uma antiga teoria metafísica que, por sinal, fazia parte de uma crença religiosa bem-estabelecida.

A chamada hipótese evolutiva é uma explicação de numerosas observações biológicas e paleontológicas (e.g., de certas similaridades entre vários gêneros e várias espécies), feita com base no pressuposto de uma ancestralidade comum de formas relacionadas. Essa hipótese não tem o status de lei universal, embora algumas leis universais da natureza, como as leis de hereditariedade, segregação e mutação, acompanhem a hipótese, na explicação em que se traduz. A hipótese tem, melhor dizendo, o caráter de um enunciado histórico particular (singular, ou específico). (Tem, a rigor, o mesmo
status do enunciado histórico “Charles Darwin e Francis Galton possuíam um mesmo ancestral” – ambos eram netos de uma dada pessoa.) O fato de a hipótese evolutiva não ser uma lei natural universal, mas um enunciado histórico particular (ou, mais precisamente, um enunciado histórico singular) acerca dos antepassados de vários animais e de várias plantas terrestres, vê-se freqüentemente obscurecido pelo fato de o termo “hipótese” ser usualmente utilizado para caracterizar o status de leis universais da natureza. Não olvidemos, porém, que o termo também é empregado, com freqüência, em sentido diverso. Exemplificando, seria perfeitamente correto descrever como hipótese um diagnóstico médico, embora essa hipótese tenha caráter histórico e singular, e não caráter de lei universal. Dito de outra maneira: o fato de que todas as leis da natureza são hipóteses não deve contribuir para que olvidemos que nem todas as hipóteses são leis – e que, em particular, as hipóteses históricas são, em geral, enunciados singulares (não universais) a respeito de um evento individualizado ou de um grupo de eventos individualizados.

Existe uma lei de evolução? Pode haver uma lei científica no sentido pretendido por T. H. Huxley quando ele escreveu: “(...) deve ser apenas meio filósofo aquele que (...) duvida de a ciência, mais cedo ou mais tarde, (...) vir a englobar a lei da evolução das formas orgânicas – a ordem invariável da grande cadeia de causas e efeitos (...) cujos elos são todas as formas orgânicas, passadas e presentes (...)”?

Creio que a resposta a essa pergunta deve ser “Não” e que a busca da lei da ordem invariável, na evolução, está impossibilitada de ver-se abrangida pelo escopo do método científico, seja em Biologia, seja em Sociologia. As razões que sustentam minha crença são muito simples. A evolução da vida na Terra (como a evolução da sociedade humana) é um processo histórico peculiar. Esse processo – podemos admiti-lo tem lugar em consonância com todos os tipos de leis causais, como, digamos, as leis da mecânica, da Química, da hereditariedade e da segregação, da seleção natural, e assim por diante. Sua descrição, entretanto, não é uma lei, mas apenas um enunciado histórico singular. As leis universais fazem afirmações a propósito de alguma ordem invariável, como sugere Huxley, ou seja, fazem afirmações a propósito de todos os processos de determinado tipo. Não há razão, é claro, que nos impeça, a partir de um caso particular único, de formular uma lei universal; também não há razão para supor que não possamos, se tivermos sorte, atingir uma verdade. Contudo, é óbvio que qualquer lei – seja qual for o modo que conduziu à sua formulação – deve ser submetida a testes, perante novos casos, antes de ver-se admitida no reino da ciência. Mas não podemos esperar submeter a testes uma hipótese universal, como não podemos encontrar uma lei natural aceitável, se nos confinamos à observação de um processo peculiar e único. A observação de um processo peculiar e único também não pode ajudar-nos a prever seu futuro desenvolvimento."

É isso!

Sobre o lamarckismo de Charles Darwin

Além de Thomas Malthus e Herbert Spencer, outro nome que exerceu forte influência na obra de Darwin diz respeito a Jean-Baptieste Lamarck, um naturalista francês que elaborou o conceito de herança de caracteres adquiridos. Em todo o seu famoso livro “A Origem das Espécies”, Darwin remete constantemente à idéia de uso e desuso. Por exemplo:
“Nos animais, o uso ou não uso das partes tem uma influência mais considerávelainda. Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem.Ora, pode incontestavelmente atribuir-se esta alteração a que o canário doméstico voa menos e marcha mais que o canário selvagem. Podemos ainda citar, como um dos efeitos do uso das partes, o desenvolvimento considerável, transmissível por hereditariedade, das mamas das vacas e das cabras nos países em que há o hábito de ordenhar estes animais, comparativamente ao estado desses órgãos nos outros países. Todos os animais domésticos têm, em alguns países, as orelhas pendentes; atribui-se esta particularidade ao fato de estes animais, tendo menos causas de alarme, acabarem por se não servir dos músculos da orelha, e esta opinião parece bem fundada" (p. 24). E mais adiante:


"EFEITOS PRODUZIDOS PELA SELEÇÃO NATURAL SOBRE O AUMENTO DO USO OU NÃO USO DAS PARTES

Os fatos citados no primeiro capítulo não permitem, creio eu, dúvida alguma sobre este ponto: que o uso, nos animais domésticos, reforça e desenvolve certas artes, enquanto que o não uso as diminui; e, além disso, que estas modificações são hereditárias. No estado de natureza, não temos termo algum de comparação que nos permita julgar os efeitos de um uso ou de um não uso constante, porque não conhecemos as formas-tipo; mas, muitos animais possuem órgãos de que somente se pode explicar a presença pelos efeitos do não uso.

Não há, como o professor Owen o fez notar, anomalia maior na natureza do que uma ave que não possa voar; contudo, há muitas neste estado. O ganso de asas curtas da América Meridional deve contentar-se em bater com as asas a superfície da água, e estão elas, para ele, quase nas mesmas condições das do pato doméstico de Ailesbúria; demais, se é necessário acreditar M. Cunningham, estes patos podem voar quando são muito novos, enquanto que são incapazes de o fazer no estado adulto. As grandes aves que se nutrem sobre o solo, apenas voam para fugir ao perigo; épois provável que a falta das mesmas asas, em muitas das aves que habitam atualmente ou que, ultimamente ainda, habitavam as ilhas oceânicas, onde se nãoencontrava nenhum animal de presa, provêm do não uso das asas. O avestruz, éverdade, habita os continentes e está exposto a muitos perigos aos quais não pode subtrair-se pelo vôo, mas pode, bem como um grande número de quadrúpedes, defender-se dos seus inimigos a coices. Estamos autorizados a acreditar que um antepassado do gênero avestruz tinha hábitos semelhantes aos da betarda, e que, à medida que o tamanho e o peso do corpo desta ave aumentavam durante longas gerações sucessivas, o avestruz se serviu sempre mais das pernas e menos das asas, até que por fim se lhe tornou impossível voar"
(Hemus Editora, 1994, p. 151, 152).

Sintetizando o lamarckismo de Darwin, conclui-se que:
1. O que Darwin criticava em Lamarck não era sua concepção de hereditariedade, mas a importância que a vontade própria dos animais tinha sobre as mudanças orgânicas.
2. A mudança dos hábitos, segundo Darwin, alterava os órgãos. Por exemplo: mudança na alimentação. Para Darwin, se um determinado animal fosse superalimentado, iria crescer e engordar. E, como conseqüência disso, seus filhos seriam maiores e mais pesados. Se o tipo de alimentação fosse mudado, o animal poderia até alterar sua cor, de maneira que esta mudança passaria para os seus futuros descendentes.
3. Mudanças no clima também alteravam as características dos animais, segundo Darwin. Por exemplo, se o tempo ficasse mais frio os animais desenvolveriam pelagem mais grossa.
4. Para Darwin toda característica, qualquer que fosse ela, era transmitida por hereditariedade.
5. No conceito de Darwin, se as alterações não fossem hereditárias, não haveria evolução, pois na geração seguinte os descendentes nasceriam todos iguais, de modo que não poderiam em conseqüência disto continuar ocorrendo competição e as diferenças adquiridas não se acumulariam.
6. Mesmo após vinte anos de publicação de “As Origem das Espécies”, Darwin ainda continuava firmemente convencido dos efeitos hereditários das modificações orgânicas adquiridas durante a vida dos organismos. Finalizando, cito aqui as palavras do darwinista Nélio Bizzo (um profundo conhecedor da pessoa e obra de Darwin):

“Apesar de Darwin ter manifestado, como vimos, aversão às idéias de lamarck, jamais as contestou; pelo menos em seus elementos centrais. Muito pelo contrário: procurou desenvolve-las e sofisticá-las. Isto não pode ser atribuído a uma simples “fase” da vida do mestre. O ‘Origem” nasceu lamarckista e assim permaneceu. Este é um fato que os seguidores de Darwin omitiram deliberadamente.Algumas pessoas afirmam que Darwin passou a ser lamarckista só no final de sua vida, tentando explicar as variações dos seres vivos. No entanto, a opção não declarada por Lamarck já aparece no rascunho escrito em 1842, assim como no ensaio de 1844. Ele começava o ensaio dizendo: “Nos animais, o tamanho, vigor do corpo, o porte, idade da maturidade, características da mente e do temperamento são modificados ou adquiridos durante a vida do indivíduo e tornam-se características hereditárias. Há razões para crer que o grande desenvolvimento muscular adquirido através de um programa de exercícios, ou por outro lado seu atrofiamento pelo desuso, sejam também herdados”
(Nélio Marco - “O que é Darwinismo” – Editora Brasiliense, 1989, p. 19).

Darwin, pois,"nasceu" larmarckista e morreu lamarckista. Não sei porque seus seguidores tentam suprimir este fato!

É isso!