Lombroso e o Espiritismo

Por um “acaso” desses que um bom darwinista poderia explicar ((rs)), deparei-me com um periódico religioso, intitulado “Revista Internacional de Espiritismo”, publicado no mês de fevereiro de 2009, ANO LXXXIV, Nº 01. Estando a folheá-lo indiscretamente fiz achar a seção “Ponto de Vista”, que, nesta edição, tinha o título:“Lombroso e o Espiritismo”, de autoria de Eliseu Mota Júnior. Causou-me arrepios, mas não pensem que foram os espíritos! ((rs))

O que me chamou a atenção foi o destaque que o autor concedia ao médico italiano Cesare Lombroso, autor, entre outros, do livro “O Homem Delinquente”. Lombroso também foi o criador da teoria da criminalidade inata e da disciplina denominada antropologia criminal.

Vejamos alguns trechos do referido periódico espírita:

"Com efeito, valendo-se da frenologia, parcialmente inspirado pelo evolucionismo darwiniano do final do Século XIX e depois de examinar exaustivamente inúmeros crânios de infratores vivos e mortos, em busca de alguma relação entre a formação craniana dessas pessoas e seus crimes, Lombroso inicialmente classi¬ficou os criminosos em natos, epiléticos, passionais, insanos e ocasionais, além dos matóides, alcoólatras e histéricos.

De todas essas categorias, a mais polémica é a do criminoso nato que, segundo Lombroso, seria atávico por degeneração, com deformações e anomalias anatómicas, fisiológicas e psíquicas. Desse modo, por causa do atavismo, que é a presença hereditária de certos caracteres físicos ou psíquicos de ascendentes remotos em descendentes atuais, esse tipo de pessoa já nasce delinquente, fato que implica na aceitação do determinismo penal, verdadeiro dogma para os positivistas, com exclusão do livre-arbítrio, que é sustentado pêlos clássicos.

Mais tarde, influenciado pêlos citados estudos de Ferri e Garofalo, e depois de inabalavelmente convencido da realidade dos fenómenos espíritas, sobretudo após o seu encontro com a médium Eusápia Paladino, quando assistiu estupefato à materialização do Espírito da sua própria mãe, Lombroso teve de curvar-se à inexorabilidade do livre-arbítrio na base do móvel das ações humanas, inclusive as criminosas” (p .4).

Bem. Nada vou dizer sobre a exótica experiência espírita de Lombroso. Minha atenção volta-se para o próprio Lombroso em si, e de como um racista no sentido mais exato do termo, mereceu destaque numa publicação religiosa, e, detalhe: em pleno século XXI. E, ninguém melhor do que Stephen Jay Gould, para falar acerca deste ideólogo, o qual até criou um método para "distinguir" “criminosos” por seus traços anatômicos:
"A teoria de Lombroso não foi apenas uma vaga afirmação do caráter hereditário do crime — tese bastante comum em sua época — mas também uma teoria evolucionista específica, baseada em dados antropométricos. Os criminosos são tipos atávicos, do ponto de vista da evolução, que perduram entre nós. Em nossa hereditariedade jazem germes em estado letárgico, provenientes de um passado ancestral. Em alguns indivíduos desafortunados, esse passado volta à vida. Essas pessoas se vêem levadas, devido à sua constituição inata, a se comportar como um macaco ou um selvagem normais, mas esse comportamento é considerado criminoso por nossa sociedade civilizada.

Felizmente, podemos identificar os criminosos natos porque seu caráter simiesco se traduz por determinados sinais anatômicos. Seu atavismo é tanto físico quanto mental, mas os sinais físicos, ou estigmas, como os chamaria Lombroso, são decisivos. A conduta criminosa também pode surgir nos homens normais, mas reconhecemos o "criminoso nato" por sua anatomia. De fato, a anatomia identifica-se com o destino, e os criminosos natos não podem escapar a essa mancha hereditária: "Somos comandados por leis silenciosas que nunca deixam de atuar e que regem a sociedade com mais autoridade que as leis inscritas em nossos códigos. O crime... parece ser um fenómeno natural" (Lombroso, 1887, p. 667).

Para que o argumento de Lombroso ficasse completo, não bastava reconhecer a presença de traços atávicos simiescos nos criminosos pois essas características físicas simiescas só poderiam explicar o comportamento bárbaro de um homem se os selvagens e os animais inferiores tivessem uma inclinação natural para a criminalidade. Se alguns homens parecem macacos, mas os macacos são bons, o argumento é falho. Assim, Lombroso devotou a primeira parte de sua obra mais importante (O homem criminoso, publicada em 1876) ao que podemos considerar a mais ridícula incursão ao antropomorfismo jamais publicada: uma análise do comportamento criminoso dos animais.

Cita, por exemplo, o caso de uma formiga cuja fúria assassina levou-a a matar e esquertejar um pulgão; o de uma cegonha adúltera que assassinou o marido com a ajuda do amante; o de castores que se associaram para matar um congénere solitário; e o de uma formiga-macho que, sem acesso às fêmeas, violentou uma operária com órgãos atrofiados, provocando-lhe a morte em meio a dores atrozes; chega mesmo a afirmar que, quando o inseto come determinadas plantas, sua conduta "equivale a um crime" (Lombroso, 1887, pp. 1-18).

Então, Lombroso dá o seguinte passo lógico: compara os criminosos com os grupos "inferiores". "Eu compararia", escreveu um de seus seguidores franceses, "o criminoso com um selvagem que, por atavismo, surgisse na sociedade moderna; podemos achar que nasceu criminoso porque nasceu selvagem" (Bordier, 1879, p. 284). Lombroso aventurou-se pelo terreno da etnologia para identificar a criminalidade como um comportamento normal entre os povos inferiores. Escreveu um pequeno tratado sobre os dinka do Alto Nilo. Nele, referiu-se às profusão de tatuagens que esse povo faz no corpo, e ao seu alto grau de resistência à dor — na puberdade, quebram os incisivos com um martelo. Sua anatomia normal exibia uma série de estigmas simiescos: "seu nariz... não só é achatado mas também trilobado como o dos macacos".

Seu colega G. Tarde afirmou que alguns criminosos "teriam sido a aristocracia moral e o orgulho de uma tribo de peles-vermelhas" (in Ellis, 1910, p. 254). Havelock Ellis destacou o fato de que, com frequência, os criminosos e os indivíduos pertencentes a grupos inferiores não sabem o que é enrubescer. "A impossibilidade de enrubescer sempre foi considerada um traço concomitante do crime e da falta de vergonha. Os idiotas e os selvagens raramente enrubescem. Os espanhóis costumavam declarar o seguinte a respeito dos índios sul-americanos: 'Como confiar em homens que não sabem enrubescer?'" (1910, p. 138). E o que ganharam os inças por terem confiados nos espanhóis?

Lombroso engendrou praticamente todos os seus argumentos de forma a torná-los imunes à contestação; portanto, do ponto de vista científico, eram todos inócuos. Embora mencionasse abundantes dados numéricos para conferir um ar de objetividade à sua obra, esta continuou sendo tão vulnerável que até mesmo os membros da escola de Broca se opuseram à sua teoria do atavismo. Toda vez que Lombroso topava com um fato que não se enquadrava nessa teoria, recorria a algum tipo de acrobacia mental que lhe permitisse incorporá-lo ao seu sistema.

Esta atitude fica muito evidente no caso de suas teses a respeito da depravação dos povos inferiores pois, repetidas vezes, viu-se à frente de relatos que falavam do valor e da capacidade daqueles a quem pretendia denegrir. Ele distorceu todos esses relatos para que se adaptassem ao seu sistema. Se, por exemplo, tinha de aceitar um traço favorável, associava-o a outros que pudesse depreciar. Citando a autoridade um tanto distante de Tácito, concluiu o seguinte: "Ainda que a honra, a castidade e a piedade possam existir entre os selvagens, a impulsividade e a indolência são características sempre presentes entre eles. Os selvagens têm horror ao trabalho contínuo, de forma que somente a seleção ou a escravatura conseguem forçá-los ao trabalho metódico e ativo" (1911, p. 367).

Vejamos o elogio que, de má vontade, faz da raça, inferior e criminosa, dos ciganos:
”São vaidosos, como todos ss delinquentes, mas não têm medo ou vergonha. Tudo o que ganham é gasto com bebidas e ornamentos. Podem andar descalços, mas suas roupas são sempre de cores vivas ou enfeitadas com fitas; podem não usar meias, mas ostentam sapatos amarelos. São tão pouco previdentes quanto o selvagem ou o criminoso... Devoram carne quase podre. São dados a orgias, encanta-lhes o barulho, e fazem grande alarido nos mercado. Matam a sangue frio para roubar, e já se suspeitou que praticassem o canibalismo... É preciso observar que esta raça, moralmente tão baixa e tão incapaz de qualquer desenvolvimento cultural e intelectual, uma raça que nunca conseguiu se dedicar de forma contínua a nenhuma indústria, e cuja poesia jamais superou a lírica mais elementar, criou na Hungria uma arte musical maravilhosa: mais uma prova de que, no criminoso, podemos encontrar a genialidade mesclada ao atavismo (1911, p. 40)”.

Fonte:
Stephen Jay Gould: “A Falsa Medida do Homem”, Editora Martins Fontes, p. 122-125.


Embora pessoalmente mantenho meu respeito por toda forma de crença, não posso concordar que homens como Lombroso mereçam destaque positivo seja religiosa ou filosoficamente. Sim, devemos nos lembrar dele, mas não com o intuito de fazer qualquer tipo de encômios às suas ideologias perversas. Do contrário, o pensamento religioso ou filosófico não passa de mera alienação. E que grande alienação!

Em tempo:
Um fenômeno curioso que tenho notado é a tendência de darwinistas aderirem ao espiritismo. Por quê? Seria apenas pelo fato de Allan Kardec ter se utilizado da filosofia evolucionista para construir sua filosofia espiritualista?

Interessante que neste mesma edição da revista supracitada, há outro artigo intitulado “Criacionismo ou Evolucionismo?” em que se lê:

"Aceitamos a teoria da evolução das espécies proposta por Darwin, por ser um raciocínio muito bem elaborado em observações e experiências” [...] “Aceitamos apenas um ponto sob a ótica criacionista, de que tudo foi criado por Deus, portanto, o Espiritismo não é extremista” [...] Portanto a posição espírita frente à temática é um Doutrina Evolucionista DEÍSTA” (p. 10).

É isso!


Darwin sem censura (em espanhol)

Fonte:

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A Autobiografia de Darwin, publicada em 1877, foi podada por sua esposa, que não digeria muito bem os ataques de Darwin contra o cristianismo, para ele "uma doutrina detestável". Os trechos em negrito, a seguir, são aqueles censurados por Emma:

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Durante aquellos dos años me vi inducido a pensar mucho en la religión. Mientras me hallaba a bordo del Beagle fui completamente ortodoxo, y recuerdo que varios oficiales (a pesar de que también lo eran) se reían con ganas de mí por citar la Biblia como autoridad indiscutible sobre algunos puntos de moralidad. Supongo que lo que los divertía era lo novedoso de la argumentación. Pero, por aquel entonces, fui dándome cuenta poco a poco de que el Antiguo Testamento, debido a su versión manifiestamente falsa de la historia del mundo, con su Torre de Babel, el arco iris como signo, etcétera y al hecho de atribuir a Dios los sentimientos de un tirano vengativo, no era más de fiar que los libros sagrados de los hindúes o las creencias de cualquier bárbaro. En aquel tiempo se me planteaba continuamente la siguiente cuestión, de la que era incapaz de desentenderme: ¿resulta creíble que Dios, si se dispusiera a revelarse ahora a los hindúes, fuese a permitir que se le vinculara a la creencia en Vishnú, Shiva, etcétera, de la misma manera que el cristianismo está ligado al Antiguo Testamento? Semejante proposición me parecía absolutamente imposible de creer. (...)

El hecho de que muchas religiones falsas se hayan difundido por extensas partes de la Tierra como un fuego sin control tuvo cierto peso sobre mí.
Por más hermosa que sea la moralidad del Nuevo Testamento, apenas puede negarse que su perfección depende en parte de la interpretación que hacemos ahora de sus metáforas y alegorías. No obstante, era muy reacio a abandonar mis creencias. Y estoy seguro de ello porque puedo recordar muy bien que no dejaba de inventar una y otra vez sueños en estado de vigilia sobre antiguas cartas cruzadas entre romanos distinguidos y sobre el descubrimiento de manuscritos, en Pompeya o en cualquier otro lugar, que confirmaran de la manera más llamativa todo cuanto aparecía escrito en los Evangelios. Pero, a pesar de dar rienda suelta a mi imaginación, cada vez me resultaba más difícil inventar pruebas capaces de convencerme. Así, la incredulidad se fue introduciendo subrepticiamente en mí a un ritmo muy lento, pero, al final, acabó siendo total. El ritmo era tan lento que no sentí ninguna angustia, y desde entonces no dudé nunca ni un solo segundo de que mi conclusión era correcta. De hecho, me resulta difícil comprender que alguien deba desear que el cristianismo sea verdad, pues, de ser así, el lenguaje liso y llano de la Biblia parece mostrar que las personas que no creen -y entre ellas se incluiría a mi padre, mi hermano y casi todos mis mejores amigos- recibirán un castigo eterno.

Y ésa es una doctrina detestable.

Aunque no pensé mucho en la existencia de un Dios personal hasta un periodo de mi vida bastante tardío, quiero ofrecer aquí las vagas conclusiones a las que he llegado. El antiguo argumento del diseño en la naturaleza, tal como lo expone Paley y que anteriormente me parecía tan concluyente, falla tras el descubrimiento de la ley de la selección natural. Ya no podemos sostener, por ejemplo, que el hermoso gozne de una concha bivalva deba haber sido producido por un ser inteligente, como la bisagra de una puerta por un ser humano. En la variabilidad de los seres orgánicos y en los efectos de la selección natural no parece haber más designio que en la dirección en que sopla el viento.Todo cuanto existe en la naturaleza es resultado de leyes fijas. Pero éste es un tema que ya he debatido al final de mi libro sobre La variación en animales y plantas domésticos, y, hasta donde yo sé, los argumentos propuestos allí no han sido refutados nunca.

Pero, más allá de las adaptaciones infinitamente bellas con que nos topamos por todas partes, podríamos preguntarnos cómo se puede explicar la disposición generalmente beneficiosa del mundo. Algunos autores se sienten realmente tan impresionados por la cantidad de sufrimiento existente en él, que dudan -al contemplar a todos los seres sensibles- de si es mayor la desgracia o la felicidad, de si el mundo en conjunto es bueno o malo. Según mi criterio, la felicidad prevalece de manera clara, aunque se trata de algo muy difícil de demostrar. Si admitimos la verdad de esta conclusión, reconoceremos que armoniza bien con los efectos que podemos esperar de la selección natural. Si todos los individuos de cualquier especie hubiesen de sufrir hasta un grado extremo, dejarían de propagarse; pero no tenemos razones para creer que esto haya ocurrido siempre, y ni siquiera a menudo. Además, otras consideraciones nos llevan a creer que, en general, todos los seres sensibles han sido formados para gozar de la felicidad.

Cualquiera que crea, como creo yo, que todos los órganos corporales o mentales de todos los seres (excepto los que no suponen ni una ventaja ni una desventaja para su poseedor) se han desarrollado por selección natural o supervivencia del más apto, junto con el uso o el hábito, admitirá que dichos órganos han sido formados para que quien los posee pueda competir con éxito con otros seres y crecer así en número. (...)

Nadie discute que en el mundo hay mucho sufrimiento. Por lo que respecta al ser humano, algunos han intentado explicar esta circunstancia imaginando que contribuye a su perfeccionamiento moral. Pero el número de personas en el mundo no es nada comparado con el de los demás seres sensibles, que sufren a menudo considerablemente sin experimentar ninguna mejora moral. Para nuestra mente, un ser tan poderoso y tan lleno de conocimiento como un Dios que fue capaz de haber creado el universo es omnipotente y omnisciente, y suponer que su benevolencia no es ilimitada repugna a nuestra comprensión, pues, ¿qué ventaja podría haber en los sufrimientos de millones de animales inferiores durante un tiempo casi infinito? Este antiquísimo argumento contra la existencia de una causa primera inteligente, derivado de la existencia del sufrimiento, me parece sólido; mientras que, como acabo de señalar, la presencia de una gran cantidad de sufrimiento concuerda bien con la opinión de que todos los seres orgánicos han evolucionado mediante variación y selección natural.

Actualmente, el argumento más común en favor de la existencia de un Dios inteligente deriva de la honda convicción interior y de los profundos sentimientos experimentados por la mayoría de la gente. Pero no se puede dudar de que los hindúes, los mahometanos y otros más podrían razonar de la misma manera y con igual fuerza en favor de la existencia de un Dios, de muchos dioses, o de ninguno, como hacen los budistas. También hay muchas tribus bárbaras de las que no se puede decir con verdad que crean en lo que nosotros llamamos Dios: creen, desde luego, en espíritus o espectros, y es posible explicar, como lo han demostrado Tylor y Herbert Spencer, de qué modo pudo haber surgido esa creencia.

Anteriormente me sentí impulsado por sensaciones como las que acabo de mencionar (aunque no creo que el sentimiento religioso estuviera nunca fuertemente desarrollado en mí) a sentirme plenamente convencido de la existencia de Dios y de la inmortalidad del alma. En mi diario escribí que, en medio de la grandiosidad de una selva brasileña, "no es posible transmitir una idea adecuada de los altos sentimientos de asombro, admiración y devoción que llenan y elevan la mente". Recuerdo bien mi convicción de que en el ser humano hay algo más que la mera respiración de su cuerpo. Pero, ahora, las escenas más grandiosas no conseguirían hacer surgir en mi pensamiento ninguna de esas convicciones y sentimientos. Se podría decir acertadamente que soy como un hombre afectado de daltonismo, y que la creencia universal de la gente en la existencia del color rojo hace que mi actual pérdida de percepción no posea la menor validez como prueba. Este argumento sería válido si todas las personas de todas las razas tuvieran la misma convicción profunda sobre la existencia de un solo Dios; pero sabemos que no es así, ni mucho menos. Por tanto, no consigo ver que tales convicciones y sentimientos íntimos posean ningún peso como prueba de lo que realmente existe. El estado mental provocado en mí en el pasado por las escenas grandiosas difiere de manera esencial de lo que suele calificarse de sentimiento de sublimidad; y por más difícil que sea explicar la génesis de ese sentimiento, apenas sirve como argumento en favor de la existencia de Dios, como tampoco sirven los sentimientos similares, poderosos pero imprecisos, suscitados por la música.

Respecto a la inmortalidad, nada me demuestra tanto lo fuerte y casi instintiva que es esa creencia como la consideración del punto de vista mantenido ahora por la mayoría de los físicos de que el Sol, junto con todos los planetas, acabará enfriándose demasiado como para sustentar la vida, a menos que algún cuerpo de gran magnitud se precipite sobre él y le proporcione vida nueva. Para quien crea, como yo, que el ser humano será en un futuro distante una criatura más perfecta de lo que lo es en la actualidad, resulta una idea insoportable que él y todos los seres sensibles estén condenados a una aniquilación total tras un progreso tan lento y prolongado. La destrucción de nuestro mundo no será tan temible para quienes admiten plenamente la inmortalidad del alma.

Para convencerse de la existencia de Dios hay otro motivo vinculado a la razón y no a los sentimientos y que tiene para mí mucho más peso. Deriva de la extrema dificultad, o más bien imposibilidad, de concebir este universo inmenso y maravilloso -incluido el ser humano con su capacidad para dirigir su mirada hacia un pasado y un futuro distantes- como resultado de la casualidad o la necesidad ciegas. Al reflexionar así, me siento impulsado a buscar una Primera Causa que posea una mente inteligente análoga en algún grado a la de las personas; y merezco que se me califique de teísta.

Hasta donde puedo recordar, esta conclusión se hallaba sólidamente instalada en mi mente en el momento en que escribí El origen de las especies; desde entonces se ha ido debilitando gradualmente, con muchas fluctuaciones. Pero luego surge una nueva duda: ¿se puede confiar en la mente humana, que, según creo con absoluta convicción, se ha desarrollado a partir de otra tan baja como la que posee el animal más inferior, cuando extrae conclusiones tan grandiosas? ¿No serán, quizá, éstas el resultado de una conexión entre causa y efecto, que, aunque nos da la impresión de ser necesaria, depende probablemente de una experiencia heredada? No debemos pasar por alto la probabilidad de que la introducción constante de la creencia en Dios en las mentes de los niños produzca ese efecto tan fuerte y, tal vez, heredado en su cerebro cuando todavía no está plenamente desarrollado, de modo que deshacerse de su creencia en Dios les resultaría tan difícil como para un mono desprenderse de su temor y odio instintivos a las serpientes.

No pretendo proyectar la menor luz sobre problemas tan abstrusos. El misterio del comienzo de todas las cosas nos resulta insoluble; en cuanto a mí, deberé contentarme con seguir siendo un agnóstico.

La persona que no crea de manera segura y constante en la existencia de un Dios personal o en una existencia futura con castigos y recompensas puede tener como regla de vida, hasta donde a mí se me ocurre, la norma de seguir únicamente sus impulsos e instintos más fuertes o los que le parezcan los mejores. Así es como actúan los perros, pero lo hacen a ciegas. El ser humano, en cambio, mira al futuro y al pasado y compara sus diversos sentimientos, deseos y recuerdos. Luego, de acuerdo con el veredicto de las personas más sabias, halla su suprema satisfacción en seguir unos impulsos determinados, a saber, los instintos sociales. Si actúa por el bien de los demás, recibirá la aprobación de sus prójimos y conseguirá el amor de aquellos con quienes convive; este último beneficio es, sin duda, el placer supremo en esta Tierra. Poco a poco le resultará insoportable obedecer a sus pasiones sensuales y no a sus impulsos más elevados, que cuando se hacen habituales pueden calificarse casi de instintos. Su razón podrá decirle en algún momento que actúe en contra de la opinión de los demás, en cuyo caso no recibirá su aprobación; pero, aun así, tendrá la sólida satisfacción de saber que ha seguido su guía más íntima o conciencia. En cuanto a mí, creo que he actuado de forma correcta al marchar constantemente tras la ciencia y dedicarle mi vida. No siento el remordimiento de haber cometido ningún gran pecado, aunque he lamentado a menudo no haber hecho el bien más directamente a las demás criaturas. Mi única y pobre excusa es mi frecuente mala salud y mi constitución mental, que hace que me resulte extremadamente difícil pasar de un asunto u ocupación a otros. Puedo imaginar con gran satisfacción que dedico a la filantropía todo mi tiempo, pero no una parte del mismo, aunque habría sido mucho mejor haberme comportado de ese modo. Nada hay más importante que la difusión del escepticismo o el racionalismo durante la segunda mitad de mi vida. Antes de prometerme en matrimonio, mi padre me aconsejó que ocultara cuidadosamente mis dudas, pues, según me dijo, sabía que provocaban un sufrimiento extremo entre la gente casada. Las cosas marchaban bastante bien hasta que la mujer o el marido perdían la salud, momento en el cual ellas sufrían atrozmente al dudar de la salvación de sus esposos, haciéndoles así sufrir a éstos igualmente. Mi padre añadió que, durante su larga vida, sólo había conocido a tres mujeres escépticas; y debemos recordar que conocía bien a una multitud de personas y poseía una extraordinaria capacidad para ganarse su confianza. Cuando le pregunté quiénes eran aquellas tres mujeres, tuvo que admitir que, respecto a una de ellas, su cuñada Kitty Wedgwood, sólo tenía indicios sumamente vagos, sustentados por la convicción de que una mujer tan lúcida no podía ser creyente. En la actualidad, con mi reducido número de relaciones, sé (o he sabido) de varias señoras casadas que creen un poco menos que sus maridos. Mi padre solía citar un argumento irrebatible con el que una vieja dama como la señora Barlow, que abrigaba sospechas acerca de su heterodoxia, esperaba convertirlo: "Doctor, sé que el azúcar me resulta dulce en la boca, y sé que mi Redentor vive". -

Autobiografía. Charles Darwin. Editorial Laetoli/Universidad Pública de Navarra. Precio: 12,87. Fecha de publicación: 9 de febrero.

É isso!

Tedeísmo: o plano e o planejador

Tem sido cada vez mais comum entre os oponentes do Tedeísmo (Teoria do Desenho Inteligente) a crítica sobre quem, afinal, teria sido o Planejador. Sobre isso faz-se mister esclarecer os seguintes pontos:

1 – A TDI não tem por objetivo especular sobre a natureza do Planejador, mas apenas encontrar sinais de planos na natureza.

2 - Para se deduzir que houve um plano não é preciso ter um candidato para o papel de planejador.

3 - É possível concluir que alguma coisa foi planejada sem que saibamos absolutamente nada acerca da identidade de quem a planejou.

4 - Podemos chegar à conclusão de que um sistema foi planejado pelo simples exame desse mesmo sistema.

5 – A inferência de que houve um plano pode ser feita com bastante segurança, mesmo que o planejador seja figura muito remota.

6 – Da mesma forma que não é possível submeter a teste os supostos ancestrais extintos, assim também não é possível colocar em um tubo de ensaio o Planejador.

7 –
Do mesmo que muitos darwinistas religiosos atribuem a Deus o suposto “pontapé inicial” da evolução, da mesma maneira muitos Tedeístas acreditam ter sido Deus o Planejador. Em ambos os casos, portanto, o que conta é apenas a fé.

8 – A Teoria do Desenho Inteligente, tal qual o darwinismo, pode ter implicações religiosas. Richard Dawkins declarou, por exemplo, que “apenas depois de Darwin foi possível ser um ateu intelectualmente realizado”. Também o sociobiologista E. O. Wilson que se utiliza da biologia darwinista numa a fim de tentar desconstruir a religião e as ciências humanas.

9 – A origem do universo e o aparecimento da vida são os alicerces físicos que resultaram em um mundo cheio de agentes conscientes. Não há razão a priori para pensar que esses eventos básicos devam ser explicados da mesma maneira que outros eventos físicos (BEHE).

10 – Resumindo: as máquinas biológicas, por sua própria irredutibilidade, têm que ter sido planejadas – seja por Deus seja por alguma outra inteligência superior.

Referência bibliográfica:
Michael Behe. "A Caixa Preta de Darwin". Editora Zahar.

É isso!

Os frágeis argumentos contra o Tedeísmo

Certa feita, quando indagado acerca do por que a Teoria do Desenho Inteligente seria a mesma cousa que Criacionismo, um desses darwinistas birrentos justificou seu argumento com a seguinte explicação (SIC):

"A partir do momento que afirma que algo só pode ter sido criado por uma "mente superior" (sobrenatural) e não ter qualquer evidências do que afirma e ainda por cima não se utilizar de qualquer metodologia científica para tal, já pode ser considerado como criacionista. E a Academia Nacional de Ciência dos EUA já rebaixou o DI a essa categoria há um bom tempo...”.

Sempre achei os argumentos darwinistas contra o Tedeísmo fraquinhos e cheios de retóricas vazias e repetitivas. A prova está aí. Se não vejamos:

1 – "A partir do momento que afirma que algo só pode ter sido criado por uma "mente superior" (sobrenatural)...
Em qual regra científica, em qual o livro de ciência, em qual o estauto de sociedades científicas consta que o “sobrenatural” (entenda-se "Inteligência Superior") nunca afetou a natureza?

A falácia, "em princípio, a ciência não deve utilizá-lo, seja verdadeiro ou não", é tão importante para a ciência quanto a biografia da minha vida. Parafraseando e indagando com o Behe:

De que maneira esse argumento contribui para alguma coisa?
Por acaso ele diz quais questões estão além da competência da ciência?
Fornece diretrizes para separar a ciência da pseudociência?
Oferece uma definição do que seja ciência?

Ora, por esta estupenda lógica qualquer argumento de "tamborete de praça" poderia reivindicar o título de “ciência” pelo simples fato de não invocar o "sobrenatural". Isso, é claro, se quisermos ser o mínimo coerentes.

Ou seja: apesar de, a priori, não se ter nenhuma razão para acreditar que nada existe além da natureza, simplesmente é dito que não constitui boa ciência oferecer o sobrenatural como explicação de um evento natural. Ora, se se não pode submeter a teste o Planejador Inteligente, também não se pode fazer o mesmo em relação aos supostos ancestrais extintos. Isso é lógico! O que importa são as evidências que apontam para o plano. Sim, afinal, o fato de não podermos submeter a teste a pessoa de Santos Dumont, isso em nada implica que o avião não exista e que não funciona bem. Da mesma maneira, o fato de não podermos testar a presença do Planejador num tubo de ensaio em nada significa que o motor flagelar e sua irredutibilidade não existam! Como diz Behe:

“A ciência pode ser capaz de estudar o movimento de cometas que atualmente aparecem nos céus e submeter a teste as leis da mecânica newtoniana que descrevem o movimento dos cometas. Ela, porém, jamais poderá estudar o cometa que supostamente chocou-se com a terra há milhões de anos. Pode, no entanto, observar os efeitos duradouros dele na Terra moderna. De forma análoga, pode observar os efeitos que um planejador produziu sobre a vida”. Assim, querer restringir a ciência ao máximo da mesma coisa, recusando-se a considerar uma explicação basicamente diferente, ou tentar colocar a realidade em uma caixa elegante, em nada vai alterar a realidade dos fatos. Isso é ideologia!

2- ..."e não ter qualquer evidências do que afirma e ainda por cima não se utilizar de qualquer metodologia científica para tal, já pode ser considerado como criacionista”.

As evidências da TDI já foram amplamente discutidas, e estão fundamentadas essencialmente na Complexidade Irredutível – CI (Michael Behe: “
A Caixa Preta de Darwin”) e na Complexidade Especificada – CE (William Dembski “The Design Inference"). O fato de alguém alguém ACHAR que não se trata de evidências científicas não as tornam menos evidentes! A mera opinião pessoal, neste caso, é tão útil quanto água em pó: para diluir acrescente água!

3 – “E a Academia Nacional de Ciência dos EUA já rebaixou o DI a essa categoria há um bom tempo...”.

Essa é boa! Então quer dizer que a Academia rebaixou? Como assim rebaixou?
Quer dizer que agora a ciência é feita por decreto, por voto da maioria ou por decisão judicial? ((rs))

Ora, na época da flogística a Academia da época havia “rebaixado” teorias alternativas, e o resultado consta nos anais da história: caiu a teoria e a reboque se seguiu a Academia!

Como já havia escrito em outra ocasião, em 2002, por exemplo, o comitê da AAAS publicou uma resolução atacando frontalmente a Teoria do Desenho Inteligente como não-científica. Todavia, em tal processo foram utilizadas todas as armas, menos àquelas relacionadas à ciência. Prova disso é que, após tal resolução ser publicada, perguntou-se aos membros do Comitê da AAAS quais livros e artigos escritos por cientistas do Desenho Inteligente eles tinham lido antes de tomar esta resolução, e a resposta foi simplesmente que o assunto havia sido analisado por todo o grupo. Outros membros apenas disseram que havia lido cuidadosamente fontes identificadas na Internet. Ou seja, fica claro que os membros do comitê da AAAS aparentemente votaram pura e simplesmente com intenção de declarar o Desenho Inteligente como não-científico, sem estudar eles mesmos os livros acadêmicos e artigos apresentados pelos cientistas que propunham esta teoria. Não custa lembrar ainda que um bom número dos cientistas que apóiam o Desenho Inteligente são membros da AAAS, de modo que o Comitê da AAS claramente não falou por todos os membros de sua organização.

Ciência não se decide em tribunais, por decreto, por unanimidade acadêmica ou por consenso de um grupo. Mas, lamentavelmente a ciência real nunca foi neutra e sempre refletiu interesses de grupos específicos. Ademais, a posição da maioria de um grupo não reflete a posição do grupo como um todo.

É isso!

Crença religiosa e atentados suicidas

Quais seriam as motivações primárias que levariam as pessoas a cometer atentados suicidas? Será que a crença religiosa é de fato suficiente e necessária para gerar homens-bomba?

Bem. Dawkins (e seus discípulos) não tem a menor dúvida disso:
“Nossos políticos ocidentais evitam mencionar a palavra que começa com R (religião), e em vez disso caracterizam sua batalha como uma guerra contra o "terror", como se o terror fosse uma espécie de espírito ou força, com vontades e razões. Ou caracterizam os terroristas como pessoas motivadas pela pura "maldade". Mas elas não são motivadas pelo mal. Por mais equivocadas que as consideremos, elas são motivadas, como os assassinos cristãos de médicos que fazem abortos, pelo que elas entendem ser a execução correta e fiel daquilo que sua religião lhes diz. Não são psicóticos; são idealistas religiosos que, ao seu próprio ver, são racionais. Percebem seus atos como bons, não por causa de uma idiossincrasia pessoal distorcida, e não porque tenham sido possuídos por Satã, mas porque foram ensinados, desde o berço, a ter uma fé total e indiscutível”.

Fonte:
Richard Dawkins. “Deus, um Delírio”, p. 313, 314.

Pois bem. A conclusão de Dawkins (e de seus discípulos) não pode ser encarada sem levar em conta seu compromisso com o ateísmo dogmático. Sim, pois à luz dos dados observados, a realidade não é tão simples assim como tenta supor esse ideólogo inglês.

Por exemplo, num estudo realizado pelo professor Robert Pape (da Universidade de Chicago), em que foram analisados os 188 ataques suicidas efetuados entre 1980 e 2001, concluiu-se que o terrorismo não está essencialmente ligado ao fervor religioso. O exame de todos os atos de terrorismo suicida ao longo dos últimos 25 anos, levou-o a concluir que homens-bomba são conduzidos principalmente por "uma ideologia perversa independente de outras circunstâncias".

Disse ele:
"Os fatos são que desde 1980 metade dos ataques têm sido seculares. Poucos dos terroristas ajustam-se ao estereótipo padrão... Metade deles não são de todo fanáticos religiosos. De fato, mais de 95 por cento dos ataques suicidas por todo o mundo não são por motivos religiosos, mas para um objetivo específico estratégico — obrigar os Estados Unidos e outros países ocidentais a abandonar compromissos militares na Península Arábica e em países que eles encaram como sua pátria ou estimam grandemente...

A ligação entre a cólera as ações militares americanas, britânicas e ocidentais e a capacidade da al-Qaeda para recrutar terroristas suicidas para nos matar não poderia ser mais estreita". Em outras palavras, o terrorismo, muito mais do que resultado de crença religiosa, é conseqüência lógica da "política externa" de alguns países, como os Estados Unidos e Inglaterra.

Em seu estudo, Pape afirma que “desde 2002, Al Kaeda esteve envolvida em 17 atentados que mataram mais de 700 pessoas – mais ataques e vítimas do que em todas as ações que precederam 11/9”. Todavia, segundo ele, o objetivo estratégico deste grupo, muito mais do que propagar o fundamentalismo muçulmano, é forçar a retirada das tropas dos EUA e seus aliados do Oriente Médio e de outros países muçulmanos.

A grande parte dos terroristas vem da Arábia Saudita e de outros países do Golfo Pérsico, seguidos pelos principais aliados americanos no mundo muçulmano: Egito, Turquia, Paquistão, Indonésia e Marrocos. Ou seja. Não saiu de países que o Departamento de Estado acusa de fomentar o terrorismo, como Irã, Iraque, Líbia e Sudão.

O Afeganistão e o Iraque, principais alvos da contra-ofensiva dos EUA, só produziram seus próprios terroristas suicidas depois das invasões americanas, embora o primeiro fosse claramente o principal centro de treinamento dos jihadistas, com apoio direto do regime criado pela milícia dos Talebã (estudantes) em meio ao caos criado depois da retirada soviética, em 1989.

A seguir, transcrevo uma entrevista de Robert Pape à Folha de S. Paulo, na qual ele aborda com clareza a questão:

Ocupações impulsionam terror, diz especialista

GUSTAVO CHACRA
Colaboração para a Folha de S.Paulo, em Nova York

O terrorismo suicida é lógico, não tem motivação religiosa e poderia ser reduzido ou até mesmo eliminado se os Estados Unidos, seus aliados e Israel se retirassem de territórios ocupados. A afirmação é de Robert Pape, professor da Universidade de Chicago e autor do livro "Dying to Win: The Strategic Logic of Suicide Terrorism" (morrendo para vencer: a estratégia lógica do terrorismo suicida). Leia a seguir, trechos da entrevista à Folha de S.Paulo concedida por telefone, de Chicago.

FOLHA - Afinal, qual é a lógica de pessoas que querem se explodir em aeronaves, restaurantes, ônibus, metrôs e prédios?

ROBERT PAPE - O problema do terrorismo é o da ocupação de território por forças estrangeiras. Isto é, os Estados Unidos estão no Iraque e estavam na Arábia Saudita ou no Líbano desde que se tornaram alvos de ataques terroristas. Não havia ações contra os americanos anteriormente. Israel sofreu ataques suicidas no Líbano quando ocupou o território libanês. Após a sua retirada em 2000, nunca mais foi alvo. O mesmo vale para a ocupação dos territórios palestinos.

FOLHA - São apenas motivações nacionalistas, como o senhor escreveu no seu livro? Não há um fanatismo religioso islâmico?

PAPE - Ao se analisar todos os ataques suicidas cometidos por organizações não-governamentais desde 1980, verifica-se que 95% delas tiveram motivação nacionalista ou secular. Apenas 5% teriam cunho religioso, o que pode ocorrer em qualquer tipo de ataque, não apenas suicida. O grupo que mais cometeu atentados suicidas é Tigres Tâmeis, do Sri Lanka, e eles não são muçulmanos. Todos os líderes da rede terrorista Al Qaeda já deixaram claro que querem a desocupação de territórios ocupados por forças ocidentais e dos regimes aliados locais. Não se trata de uma motivação religiosa, mas territorial ou política. No 11 de Setembro, os EUA tinham tropas na Arábia Saudita. Os líderes dos ataques terroristas contra Londres também deixaram claro que queriam o fim da ocupação do Iraque.

FOLHA - Isso explica o porquê de o Hizbollah reduzir seus ataques após a retirada israelense do sul do Líbano, em maio de 2000?

PAPE - O Hizbollah matou 700 israelenses quando Israel ocupava o sul do Líbano, no anos 1990. Entre 2000 e julho deste ano, quando Israel esteve fora do Líbano, foram apenas 11 israelenses mortos, todos soldados e ainda assim nas fazendas de Shebaa [área ainda ocupada por Israel]. O ataque contra os militares israelenses que serviu de detonador do conflito é algo comum onde há tensão fronteiriça em várias partes do mundo. Com a nova ocupação, mais de cem israelenses já foram mortos. Então é óbvio que o melhor para os israelenses é não ocupar o Líbano. O mesmo se aplica também para os territórios palestinos.

FOLHA - Mas os palestinos continuaram atacando Israel após a retirada da faixa de Gaza.

PAPE - Continuaram porque Israel ainda ocupa a Cisjordânia.

Folha - Tanto o Hamas em Gaza como o Hizbollah no Líbano têm usado mísseis em vez de atentados suicidas. Por quê?

PAPE - Porque eles têm armamentos melhores agora. Assim que o arsenal do Hizbollah diminuir, o grupo voltará a praticar atentados suicidas contra israelenses. Não apenas no Líbano mas também em Tel Aviv desta vez. Porém, se Israel se retirar do Líbano, o Hizbollah encerrará os ataques. Não podemos confundir os grupos. O Hizbollah não atacou Israel na Intifada. Quem atacava era o Hamas, o Jihad Islâmico, as Brigadas dos Mártires de al Aqsa, que são palestinos. Sem ocupação, não há ataques.

FOLHA - É por esse motivo que o Hizbollah praticamente nunca comete ataques fora da região, e o Hamas jamais os realizou?

PAPE - O Hizbollah nunca agiu fora do Líbano ou de Israel. As ações contra alvos judaicos na Argentina nos anos 1990 são atribuídas ao grupo, mas acho que não é obra do Hizbollah. Mesmo que fosse, seria um caso isolado. O Hizbollah, se quisesse, atingiria alvos judaicos em Nova York, mas estrategicamente não é o caso e nem será. Claro que o Hizbollah é anti-semita e odeia Israel, mas taticamente o grupo não levará adiante ataques como os de agora se não houver ocupação.

FOLHA - E as pessoas com ligações com a Al Qaeda que realizaram atentados em Londres, bem longe das zonas de conflito? Como o senhor explica?

PAPE - Esses cidadãos têm dupla lealdade, isto é, também seguem os seus países de origem ou países e povos com os quais simpatizam com a causa. Eles não querem que os EUA, o Reino Unido, Israel ou quem quer que seja ocupe o Iraque, o Afeganistão, o Líbano ou os territórios palestinos. Basta ler o que dizem os comunicados deles. Sempre fazem referência à ocupação desses países. Eles querem que desocupem suas terras, não querem ocupar a de ninguém.

FOLHA - Os EUA e Israel estão errados nas suas políticas para combater a Al Qaeda e o Hizbollah?

PAPE - Estão completamente errados. Israel tem de sair o quanto antes do Líbano. Os israelenses ficariam mais seguros longe de lá. Os EUA também precisam sair do Iraque e do Afeganistão. O terrorismo contra os americanos diminuiria quase 100% se não houvesse ocupação de territórios árabes ou muçulmanos.

P.S.:
Tais dados também servem como refutação ao dogmatismo ateísta de Richard Dawkins e de seus discípulos, que vêem na crença religiosa a raiz de todos os males.

É isso!

“Vide os experimentos de Miller...”

- "Vide os experimentos de Miller... diz que isso é crença Iba... refute...”

Esta frase, dita por um darwinista num desses banais debates de Internet, reflete o desejo da galerinha de Darwin em "criar condições favoráveis" para o mito da abiogênese. Abiogênese?

- Não, biopoiese, diria outro mais animado!

Sim, pois, embora o experimento de Miller tenha sido um verdadeiro fiasco científico, ele ainda é comemorado por muitos, principalmente darwinistas deslumbrados com o maravilhoso mundo de Darwin, como se fosse a orgástica descoberta do “ponto G da ciência”. Mas por trás dessa veneração abiogenética, há toda uma paixão secreta, já que oficialmente tenta-se separar a geração espontânea da teoria evolucionista. Todavia, todo darwinista comprometido com o materialismo filosófico nutre, ainda que latentemente, uma atração arrebatadora pela abiogênese. Se ele não declara isso a plenos pulmões é porque tal experiência revelou-se um jibóico delírio. Do contrário, júbilos se fariam ouvir internet afora. ((rs))

Já havia discorrido acerca disso numa outra ocasião, mas penso ser relevante trazê-lo à tona mais uma vez. Vejamos, pois, porque a experiência de Miller não merece crédito, e porque a crença da galerinha de Darwin nesse experimento não difere muito daquela expressada pelos fiéis da Santa Vó Rosa.
DEIXANDO CLARO QUE...

1 - Fabricar as moléculas da vida através de processos químicos fora da célula é, na realidade, muito fácil. Qualquer químico competente pode comprar alguns elementos químicos em uma fornecedora comercial, pesá-los na proporção correta, dissolvê-los em um solvente apropriado, aquecê-los em um frasco durante um período predeterminado de tempo e purificar o produto químico desejado, separando os elementos químicos que não quer e que são produzidos por reações colaterais.

2 - O químico pode não somente fabricar aminoácidos e nucleotídeos—os blocos de armar—mas também usá-los e construir os próprios edifícios: proteínas e ácidos nucléicos. Na verdade, o processo para se conseguir isso foi automatizado e máquinas que misturam e fazem com que elementos químicos reajam para gerar proteínas e ácidos nucléicos são vendidas por várias empresas.

3 - Qualquer estudante de graduação pode ler o manual de instruções e produzir em um ou dois dias uma longa peça de ADN — talvez o gene que codifica uma proteína conhecida.

AGORA VAMOS AOS FATOS, SEGUNDO BEHE

1 - Não havia químicos há quatro bilhões de anos.

2 - Tampouco havia fornecedores de produtos químicos, retortas, nem muitos dos outros aparelhos que o químico moderno usa diariamente em seu laboratório e que são necessários para se obter bons resultados.

3 - Um cenário convincente da origem da vida requer que a direção inteligente das reações químicas seja minimizada tanto quanto possível.

4 - Ainda assim, a participação de algum tipo de inteligência é inevitável.

5 - Se as condições na Terra primitiva se parecessem de fato com as malsucedidas tentativas de Miller, então, na realidade, nenhum aminoácido poderia ter sido produzido.

6 - Além do mais, ligar muitos aminoácidos para formar uma proteína dotada de atividade biológica útil constitui um problema químico muito mais difícil do que fabricar aminoácidos.

7 - A grande dificuldade em encadear aminoácidos é que, quimicamente, isso envolve a remoção de uma molécula de água em cada aminoácido ligado à cadeia em crescimento da proteína. De modo oposto, a presença de água cria enorme dificuldade ao aminoácido para formar a proteína.

8 - Uma vez que a água é tão abundante na Terra, e tendo em vista que os aminoácidos nela se dissolvem facilmente, os pesquisadores da origem da vida foram obrigados a propor cenários incomuns para contornar esse problema.

9 - Um cientista chamado Sidney Fox, por exemplo, sugeriu que talvez alguns aminoácidos tivessem sido jogados do oceano primordial sobre uma superfície muito quente, tal como a borda de um vulcão em atividade. Nessa altura, continua a história, eles seriam aquecidos acima do ponto de ebulição da água; desaparecida a água, os aminoácidos poderiam se interligar.

10 - Infelizmente, outros pesquisadores haviam mostrado antes que aquecer aminoácidos produz um alcatrão marrom escuro, malcheiroso, e não proteínas detectáveis.

11 - A circunstância especial necessária para produzi-los — condições quentes, secas (supostamente representando locais raros como bordas de vulcão), com volumes exatos de aminoácidos já purificados, pesados de antemão — lança uma escura nuvem sobre a importância desses experimentos.

12 - Pior ainda, uma vez que proteinóides não são proteínas de fato, o grande problema de formar proteínas autênticas permanece insolúvel.

13 - Embora um químico possa produzir com facilidade nucleotídeos em laboratório, sintetizando os componentes em separado, purificando-os e, em seguida, recombinando-os, reações químicas não dirigidas geram, esmagadoramente, produtos indesejáveis e uma massa amorfa no fundo do tubo de ensaio.

14 - O cianeto de hidrogênio e a amônia não são usados na biossíntese do AMP. Mesmo que existissem na antiga Terra, e ainda que isso tivesse algo a ver com a origem da vida (o que é problemático por algumas outras razões), a síntese da adenina a partir de moléculas simples no frasco do químico não nos fornece informação nenhuma sobre como surgiu o caminho para fabricar a molécula na célula.

15 - Na verdade, se dissolvêssemos em água (usando os nomes químicos formais) ribose-5-fosfato, glutamina, ácido aspártico, glicina, n10-formil-THF, dióxido de carbono e pacotes de energia de ATP e GTP — todas as pequenas moléculas que são usadas pela célula para construir o AMP e as deixássemos em repouso por um longo tempo (digamos, mil ou um milhão de anos), não conseguiríamos qualquer AMP".

RESUMO DA ÓPERA, OU MELHOR, DO DRAMA

"Sapatos podem ser tudo de que necessitamos para ir de Milão a Roma, mas precisaremos de mais do que isso para ir de Roma à Sicília; vamos precisar de um barco". Ademais, as probabilidades da formação da vida por geração espontânea são tão pequenas que exigem um ‘milagre’ abiogenético equivalente a um argumento teológico.

Referência bibliográfica:
Michael Behe: “A Caixa Preta de Darwin”, Zahar Editor, 1997.

É isso!

O erro da Fuvest

Como já era de esperar, o maior vestibular do país, o da USP, em comemoração aos 150 anos de publicação de "A Origem das Espécies", introduziu em sua prova de Biologia uma questão específica acerca do naturalista inglês Charles Darwin:

Em 2009, comemoram-se os 150 anos da publicação da obra
A Origem das espécies, de Charles Darwin. Pode-se afirmar que a história da biologia evolutiva iniciou-se com Darwin, porque ele

a) foi o primeiro a propor um sistema de classificação para os seres vivos, que serviu de base para sua teoria evolutiva da sobrevivência dos mais aptos.
b) provou, experimentalmente, que o ser humano descende dos macacos, num processo de seleção que privilegia os mais bem adaptados.
c) propôes um mecanismo para explicar a evolução das espécies, em que a variabilidade entre os indivíduos, relacionada à adaptação ao ambiente, influi nas chances de eles deixarem descendentes.
d) demonstrou que mudanças no DNA, ou seja, mutações, são fonte de variabilidade genética para a evolução das espécies por meio da seleção natural.
e) foi o primeiro cientista a propor que as espécies não se extinguem, mas se transformam ao longo do tempo.

E, aqui, o erro crasso da Fuvest:

Ignorou o papel preponderante do outro naturalista Alfred Russel Wallace, o qual parece ter sido o verdadeiro pioneiro na criação do conceito de Seleção Natural. Mas é como diz o ditado: "perequito come milho, papagaio leva a fama!"

Os senhores biólogos convidados pela Fuvest para elaborar as questões de Biologia são tão "maria-vai-com-as-outras" quanto a Folha de São Paulo, o Globo, O Estadão e toda a mídia ideologicamente comprometida com o "GRANDE FATO" que nunca se prova!

Mas já dizia o pensador:

Para a mentira ser segura
e atingir profundidade,
deve trazer à mistura
qualquer coisa de verdade...
Antônio Aleixo

É isso!

Newton, Pasteur e Darwin

O que distinguiria Isaac Newton e Louis Pasteur do naturalista Charles Darwin?

É comum (e na Internet isso virou uma verdadeira festa) a galera de Darwin comparar às realizações de Newton, por exemplo, àquela desenvolvida por Darwin.

O quanto existiria de coerência nesta comparação?

Bem, se levarmos em conta apenas aquilo que serve para estabelecer uma verdade por verificação ou demonstração, neste caso a comparação, como, diria Otto Lara Resende, é simplesmente escalafobética!

A razão é simples. Vejamos....

NEWTON:
A ciência pode perfeitamente estudar o movimento de cometas que atualmente aparecem nos céus e submeter a teste as leis da mecânica newtoniana que descrevem o movimento desses mesmos cometas. As três leis de Newton também pode ser submetidas a testes, sem grande dificuldade:
Lex I:
“Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare” (Qualquer corpo permanece no estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme se a resultante das forças que atuam sobre esse corpo for nula).

Lex II:
“Mutationem motis proportionalem esse vi motrici impressae, etfieri secundum lineam rectam qua vis illa imprimitur” (“A aceleração adquirida por um corpo é diretamente proporcional à intensidade da resultante das forças que agem sobre o corpo, tem direção e sentido dessa força resultante e é inversamente proporcional à sua massa”).

Lex III:
“Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi” (Para toda ação existe uma reação igual e de sentido oposto, ou, as ações mútuas de dois corpos entre si são sempre iguais e dirigidas em direções opostas).

Todas essas leis, portanto, são factuais e podem tranqüilamente ser postas à prova, não dependendo, portanto, de meras inferências especulativas.

PASTEUR:
A grande experiência de Louis Pasteur, a biogênesis, (Omne vivum ex vivo ou Omne vivum ex ovo), pode com a mais absoluta certeza ser observada, testada e aprovada. Dentre os muitos benefícios advindos das descobertas desse grande cientista temos: a vacinação, práticas sanitárias e a conhecida pasteurização do leite. Ou seja: pode perfeitamente ser posta a prova e aproveitada para o bem geral da sociedade. Não esquecendo que as descobertas de Pasteur derrubaram o mito da geração espontânea.

DARWIN:
E agora, Darwin?
O mérito de Darwin (para ser um tanto imparcial, já que se sabe que talvez tenha plagiado as idéias de Wallace), consiste na seguinte premissa:

“A preservação das diferenças individuais favoráveis e as variações, e a destruição daquelas que são prejudiciais, eu chamei de seleção natural, ou a sobrevivência do mais apto”
(“A Origem das Espécies”, cap. 4 Seleção natural, 6ª. Ed.).

Em outras palavras: os “mais aptos” são os que sobrevivem, ao passo que os “menos aptos” são os que não deixa sobreviver. Numa última análise, a seleção natural não significa a sobrevivência do “mais apto”, e sim a sobrevivência daquele que sobrevive. Sobre isso, diz Popper:

“Dizer que uma espécie hoje viva está adaptada a seu meio é, em verdade, quase tautológico. Com efeito, empregamos os termos “adaptação” e “seleção” de modo tal que se torna cabível afirmar que, se a espécie não se houvesse adaptado, ela teria sido eliminada por seleção natural. De outra parte, se uma espécie foi eliminada, isso deverá ter ocorrido pelo fato de ela se adaptar mal às condições. A adaptação (ou aptidão) é definida pelos modernos evolucionistas como um valor de sobrevivência, e pode ser medida em ter de êxito efetivo quanto à sobrevivência: dificilmente haveria possibilidade de submeter a prova uma teoria tão frágil quanto essa”(Autobiografia Intelectual, p. 181).

Mas, e quais as conseqüências práticas para a sociedade advindas das idéias de Darwin ou do seu conceito de Seleção Natural?

Na área médica, por exemplo, o darwinismo apenas diz que as bactérias resistentes a antibióticos sobrevivem a exposição aos antibióticos como conseqüência da seleção natural. Em outras palavras: as bactérias sobrevivem aos antibióticos aos quais elas não são sensíveis, de modo que as bactérias que não morreram eventualmente suplantarão as bactérias que morreram. Ou seja: volta à mesma tautologia evolutiva ad infinitum.

De tudo isso se conclui que é muita falta de bom senso colocar, não a pessoa de Darwin, mas suas “descobertas” no mesmo páreo daquelas realizadas por cientistas tais como Isaac Newton, Pasteur, Lavoisier etc.

É, mas como disse J. Bailey:

“A primeira e pior de todas as fraudes é enganar-se a si mesmo. Depois disto, todo o pecado é fácil”.

É isso!

“Bárbaros, selvagens e incivilizados”

Em seu excelente ensaio “Pueblos primitivos, pueblos civilizados: Ideologías subyacentes a los lenguajes documentales”, Edgardo Civallero, da Universidad Nacional de Córdoba (Argentina), trata da importância que a lingugem exerceu sobre o processo de dominação entre os povos ao longo da história, especialmente após o advento do evolucionismo de Herbert Spencer, o qual, segundo o autor, foi uma das primeiras escolas de pensamento em antropologia cultural.

De acordo com Spencer, as sociedades, da mesma maneira que os organismos vivos, progrediram da forma simples para a complexa, seguindo por leis imutáveis. Foi deste conceito que Tylor, Morgan e Lubbock desenvolveram um esquema evolutivo com uma série de etapas, as quais iam desde o “selvagerismo” até à “civilização”, passando pelo “barbarismo”. Tanto Tylor quanto Morgan assinalaram que o “primitivo” seria para o “civilizado” o que o menino seria para o adulto.

Todavia, durante todo o longo processo histórico até os dias de hoje, o conceito de “bárbaro, selvagem, incivilizado, subdesenvolvido” e outros de natureza semelhante, sempre foram utilizados por um determinado grupo para definir o “outro” como “inferior ao mesmo tempo em que logravam para si a posição de “superioridade”. Os antigos romanos, por exemplo, consideravam “bárbaros” todos quantos viviam além das fronteiras do Império e que não possuíam a sua cultura.

Os antigos colonizadores europeus consideravam igualmente tanto o índio quanto o negro como povos selvagens, incivilizados e sem alma. Desta forma justificavam as chacinas em nome da “civilização”. O mesmo fez os imperialistas no século XIX e XX, mas desta feita usando argumentos considerados “científicos”, com os quais afirmavam que as “raças inferiores”, isto é, os povos dominados, estavam abaixo na escala evolutiva e, portanto, deviam submeter-se aos seus senhores “civilizados”.

Na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, o ditador Hitler, por sua vez, rotulava os judeus de “raça degradada”, ao passo que os alemães eram tidos como modelos de desenvolvimento físico, moral e intelectual. A própria natureza, segundo Hitler, incumbia-se de eliminar os “fracos”:

A própria natureza costuma agir no sentido de limitar o aumento de população de determinadas terras ou raças, em épocas de grandes necessidades ou más condições climáticas, bem como de pobreza do solo; e isso com um método tão sábio quão inexorável. Ela não impede a capacidade de procriação em si e sim, porém, a conservação dos rebentos, fazendo com que eles fiquem expostos a tão duras provações que o menos resistente é forçado a voltar ao seio do eterno desconhecido, o que ela deixa sobreviver às intempéries está milhares de vezes experimentado e capaz de continuar a produzir, de maneira que a seleção possa recomeçar” ("Minha Luta - Mein Kampf").

E, para quem imagina que tais deturpações foram cousas do passado, é preciso lembrar que de uma outra maneira esses mesmos conceitos ainda prevalecem sorrateiramente como algo natural e aceitável em nossos dias. As expressões “países subdesenvolvidos” e “terceiro mundo”, por exemplo, são termos que de algum modo remetem aos mesmos conceitos discriminatórios do passado, só que latentemente oficializados como capazes de designar a realidade dos povos atuais.

A realidade, porém, nem sempre reflete a posição dos "donos do saber". Tomando como exemplo as idéias desenvolvidas pelo naturalista Charles Darwin, é bem comum em suas obras a dualidade entre “raças superiores e civilizadas” e “raças inferiores e selvagens”. Em a “A Origem das Espécies” ele fala claramente de algumas “raças desfavorecidas pela natureza” no processo da evolução. Obviamente que a “raça favorecida” era o homem branco. Os índios, os africanos e os nativos do resto do planeta constituíam as raças incivilizadas no dito processo evolutivo.

Já em seu livro “A Descendência do Homem”, Darwin fez igualmente muitas suposições a respeito da “óbvia desigualdade entre as raças”. Expressou claramente suas inclinações racistas ao definir os nativos da Terra do Fogo visitados por ele em sua viagem em 1871. Os descreveu como humanos “totalmente nus; submergidos em tintas; comendo o que encontravam e iguais aos animais selvagens; descontrolados; cruéis com qualquer que não seja de sua tribo; sentindo prazer nas torturas e seus inimigos; oferecendo sacrifícios cruéis; assassinando os seus filhos e as suas esposas; cheios de superstições (próprias de) ignorantes”. Contudo, W.P. Snow, que havia estado na dita região uma década antes, descreveu aos mesmos nativos como “elegantes, fortes, orgulhosos de seus filhos, engenhosos inventores de técnicas, com noção á propriedade privada de algumas coisas e respeitosos com a autoridade dos mais velhos e da comunidade”. O motivo porque Darwin aviltou tão exageradamente a este povo se deve ao seu anseio de defini-lo como “uma raça que se havia caído do trem da história no processo evolutivo”.

Como afirmou Nélio Marco:
“Escreveu Darwin numa carta a um amigo, W. Graham, em julho de 1881, pouco antes de morrer: "Posso contestar que a seleção natural mais fez para o progresso da civilização do que V. parece inclinado a admitir... As chamadas raças caucasianas mais civilizadas derrotaram o turco falso na luta pela existência. Olhando para o mundo num futuro não muito distante, creio que um número considerável de raças inferiores terão sido eliminadas pelas raças mais altamente civilizadas através do mundo!".

Pelas passagens já reproduzidas e por tantas outras que se encontram em seus escritos, não resta dúvida de que Darwin era um cidadão orgulhoso de sua nacionalidade. Mais que isto, estava convencido de que a sociedade baseada na competição generalizada era a única forma de se atingir o estágio ‘superior’ de ‘civilização’. Ainda jovem, a bordo do Beagle, lamentou as relações igualitárias que os índios da Terra do Fogo mantinham.

Escreveu ele em seu diário: “A perfeita igualdade entre os indivíduos que compõem as tribos da Terra do Fogo deverá retardar-lhes, por muito tempo, a civilização (...) até que algum chefe se levante com poder suficiente para garantir-se a posse de vantagens adquiridas, simples animais domésticos por exemplo, parece quase impossível que o estado político do país possa melhorar. Atualmente, o simples pedaço de tecido que se dá a um índio é rasgado em mil pedaços para contentar a todos, nenhum ficando mais rico do que o outro.

Era com esses olhos que Darwin observava a natureza à sua volta. Vendo uma pradaria sul-americana coberta por uma única espécie vegetal, não tardava a pensar que o lugar tinha sido originalmente ocupado por muitas espécies nativas, que teriam sido exterminadas pela conquistadora.E indo além, adiantava que tal espécie era era européia! Só podia ser mesmo. Europeus massacrando nativos e impondo seu domínio em terras distantes não era nada de incomum naqueles tempos" (BIZZO, O que é darwinismo).

Discorrendo sobre a idéia de superioridade de sua nação, Darwin escreveu no mesmo livro anteriormente citado: “O notáveis êxitos dos ingleses como colonizadores, em comparação com outras nações européias, foram atribuídos à sua energia audaz e persistente. Um resultado que ficou evidenciado ao compararmos o progresso dos canadenses de extração inglesa e francesa” (Origem do Homem, p. 170).”

É bem verdade que essa visão racista era comum naquela era vitoriana. Uma boa parcela da elite inglesa nutria do mesmo sentimento que Charles Darwin. Quiçá por isso o naturalista tenha sua culpa minimizada; no entanto: até que ponto seus ideais ainda não estão vivos e atuantes, hoje, em muitas mentes que o idolatram?

É algo para ser pensado!

É isso!

Programa Adaptacionista ou Paradigma Panglossiano

"Entrevista" com o Doutor Pangloss, respeitado por sua defesa cega e irrestrita ao Programa Adaptacionista, também chamado Paradigma Panglossiano (vide Voltaire e Gould).

- Doutor Pangloss, supondo que a seleção natural guiou o processo de evolução, qual seria, em sua opinião, a vantagem adaptativa de se possuir orelha?

- Bem. Homens sem orelhas teriam uma reduzida audição e teriam sido exterminados por predadores, ou por tribos de homens primitivos, com orelhas.

- Mas onde estão as evidências dos “homens sem orelha”, doutor? Não são as orelhas feitas de cartilagens, as quais se decompõem facilmente sem deixar registro fóssil?

- Olha, veja bem. Se você quiser acreditar que acredite, se não, então mantenha-se em sua tosca ignorância!

- Está bem, doutor, deixemos as orelhas aos otorrinolaringologistas e vamos ao ginecologista, que parece bem mais interessante! Curto e grosso doutor: qual teria sido a vantagem adaptativa da menstruação para a mulher?

- Então você não sabe? Ora, a menstruação surgiu para o bem da própria mulher, como um mecanismo para proteger o útero e as trompas de Falópio contra os micróbios nocivos trazidos pelos espermatozóides. Simples! Eu, hein!!!

- Sendo assim, doutor, se o sangramento colabora na prevenção de infecções, deveria as mulheres evitar então o uso de contraceptivos que eliminem a menstruação?

- Que pergunta mais imbecil! Ora, é assim e pronto. Santa ignorância, meu Darwin!

- Está bem darwiníssimo doutor. Deixemos agora de lado o ginecologista e partamos diretamente para Freud. Doutor, responda-me sem rodeios qual seria a vantagem adaptativa do suicídio?

- O quê? Santa fanfarronice!!! Então você não sabe que o impulso de se matar pode ser a expressão de um instinto na direção do auto-sacrifício, para o bem dos parentes que sobrevivem, ou porque esses parentes serão salvos de suas próprias mortes, ou porque se beneficiarão generosamente dos recursos que lhes caberão agora? Dessa forma, os parentes sobreviventes vão, por sua vez, passar adiante os genes da vítima sacrifical. Simples!

- Mas, doutor, desculpe-me pelo atrevimento, mas, como é possível submeter a teste esta sua premissa?

- Simples, suicide-se e verás. Do contrário, continue nessa sua limitação criacionista, nesse seu mundinho restrito de ilusão. Ora, onde já se viu algém com uma dúvida dessa. Que coisa!

- Certo, doutor, continuemos então com o Freud! Doutor, responda-me com todo esse seu cabedal de conhecimentos darwinísticos qual teria sido a vantagem adaptativa do homossexualismo?

- Ah, não! Não acredito que você ignore a resposta para uma pergunta tão primária em biologia! Ora, leigozinho infantil, a sociedade humana ancestral estava organizada em unidades familiares inimigas. Algumas dessas unidades eram formadas exclusivamente por heterossexuais; outras unidades continham membros homossexuais que agiam como “ajudantes” na caça e na criação e cuidados das crianças. Ou seja, os homossexuais embora não tivessem filhos ajudavam a criar seus parentes geneticamente próximos. Desta forma, tal comportamento favorecia seus genes já que quanto maior a quantidade de parentes que ajudassem a criar, maior probabilidade de que transmitissem genes parecidos aos seus. Desta forma, as unidades que incluíam homossexuais acabaram prevalecendo sobre os que eram heterossexuais, o que explica a sobrevivência dos supostos “genes da homossexualidade”! Entendeu, ignorante, tapado e estúpido! Eu, hein!!!

- Estou me esforçando doutor, estou me esforçando! Mas, sapientíssimo mestre, estaria essa sua conclusão fundamentada em dados colhidos em laboratório? E se esta especulação genética estiver errada, ou seja, se se defende um argumento dizendo que as pessoas foram diretamente programadas para ele, como se pode continuar a defendê-lo caso a especulação esteja errada?

- Desisto de você. Nunca vi alguém assim tão ignorante assim, meu santo Darwin. Haja paciência e saco! ((rs))

- Então boa adaptação, doutor! ((rs))

É isso!