O Darwin que muitos não querem ver

“Ao contrário do que alguns ainda podem imaginar, as bases da história evolutiva moderna não se fizeram exclusivamente sobre o estudo dos animais e plantas in natura. Muitos dos fatores mais importantes utilizados nas discussões evolutivas são provenientes das observações relacionadas às sociedades humanas.

Freqüentemente, Charles Darwin em A Origem do Homem faz comparações entre humanos (civilizados e selvagens) e outros animais, sempre que possível correlacionando os grupos, populações e sociedades. Ridley (2004) afirma que Darwin foi pioneiro na idéia de procurar o caráter do homem no comportamento do macaco, além de ter tentado demonstrar que existem características universais presentes em todos os humanos, como sorrir ou sentir raiva. Ao mesmo tempo em que Darwin perseguia a ancestralidade comum dos homens, conseguiu deixar um rastro de preconceito onde quer que tenham chegado os seus escritos.

Há uma carta de Karl Marx para Engels em que o autor de o Capital ironiza as teorias darwinianas, taxando-as de mera cópia para os animais e plantas do modelo da sociedade inglesa da época (Freire-Maia, 1988). O próprio Friedrich Engels (1979) criticou contundentemente as idéias de Charles Darwin, alertando para os perigos da transposição de teorias reacionárias e questionáveis da esfera humana para a história natural, revertendo-as posteriormente em “história da sociedade”. As preocupações de alguns “sociólogos” em relação às teorias darwinistas estiveram presentes nas primeiras divulgações de A Origem das Espécies. O mote da polêmica foi provavelmente a consonância entre evolução biológica e capitalismo selvagem.

Além de se referir ao longo tempo que Charles Darwin levou para divulgar seu trabalho, os biólogos evolucionistas comumente ressaltam que após a leitura do ensaio de Malthus, Darwin finalmente conseguiu identificar um agente para a seleção natural.

É fato que a obra de Charles Darwin tem forte raiz na teoria econômica moderna e nas formas precursoras do capitalismo que hoje conhecemos. Negar estas correlações não é conveniente na análise dos próprios rumos tomados pelas teorias evolutivas “pós-darwinistas”.

Matt Ridley (2000) afirma que Thomas Hobbes foi o antepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta e, ao apresentar sua “genealogia de influências”, revela que muitos conceitos econômico-ocidentais devem continuar a ocupar um nicho epistemológico na biologia moderna (porventura na pós-moderna...):

Hobbes (1651) gerou David Hume (1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerou Thomas Robert Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foi depois de ler Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competição entre grupos e passou a pensar sobre competição entre indivíduos... O diagnóstico hobbesiano – embora não a receita – ainda está no centro tanto da economia quanto da biologia evolutiva moderna (... Darwin gerou Dawkins) (Ridley, 2000, p. 284).

Darwin observava com maior facilidade (talvez todos nós) as relações entre populações distintas – raposas perseguindo faisões ou gatos devorando ratos. A evolução, contudo, não poderia ser explicada “apenas” sob este aspecto. A análise mais atenta do naturalista levou-o a conclusão que a evolução só poderia ocorrer através da variedade presente nos indivíduos da mesma espécie e a conseqüente competição intra-específica, que acarretaria no favorecimento (ou não) de algumas características sobre outras. O ensaio de Malthus “revelou” a Darwin que a competição entre os indivíduos seria inevitável, pelo fato destes necessariamente utilizarem os mesmos recursos. Como conseqüência, Darwin passou a “ter que ver” todas as diferenças possíveis que pudessem desencadear o processo evolutivo. Nesta perspectiva, uma das conclusões alcançadas pela A Origem do Homem é que a seleção natural teria eliminado os seres humanos considerados “fracos de mente”, daí a “baixa” freqüência destes nas populações em geral. Para as proposições darwinistas, todo “estranho” (albinos em uma população negra; baixos em uma população alta etc...) seria efêmero, e esperava-se que deixasse poucos descendentes.

A xenofobia é um tema recorrente em A Origem do Homem. Em muitos trechos Charles Darwin observa que, entre indivíduos de um mesmo povo, pode se esperar fidelidade, mas entre indivíduos de povos diferentes jamais, especialmente entre “selvagens” e “civilizados” (Darwin, 2002). As comparações feitas por Darwin (2002) podem ser interpretadas como uma referência ao maior grau de proximidade entre as “raças inferiores” e os animais em geral. Embora nunca diga isto de forma sistemática ou clara, em alguns trechos da obra, Charles Darwin demonstra seus preconceitos. Ele até considera as “raças bárbaras” próximas das civilizadas, mas não mais do que um símio ou um idiota o são.

A grande tendência, nos nossos afins mais próximos, os símios, nos microcéfalos idiotas e nas raças bárbaras melânicas do gênero humano, em imitar qualquer coisa que ouçam se torna digna de nota... (Darwin, 2002, p. 108- 109 - destaque meu).

Quando é impelido pelo contexto a comparar animais e homens, Darwin (2002) parece preferir fazê-lo entre animais domésticos com homens civilizados e criaturas selvagens com os povos bárbaros e primitivos (ou designados de forma generalizante como “raças melânicas”). Uma das conclusões alcançadas com base nestes tipos de comparações é a de que os domésticos (animais e homens) são mais fecundos e resistentes às doenças e variações do que os selvagens (... também, animais e homens), menos profílicos e frágeis, especialmente quando retirados de seus ambientes naturais.

A sombra perversa do preconceito passeava pela Europa desde o colonialismo ajudando, a criar um cenário ideal para que entrassem em cena o racismo científico e a adoção de classificações que excluíam seres humanos desta condição. A impressão que tenho é a de que Darwin não enxergava tantas diferenças ou, pelo menos, não as enxergava em maior número do que as semelhanças. Talvez pelo fato de estar envolto em uma cultura tradicionalmente racista, Darwin devesse a satisfação social de apontar alguma superioridade européia. É possível que algumas posturas textuais de Darwin se dessem em função dos convencionalismos dos acadêmicos ingleses ou até para tornar o livro mais acessível aos seus elitizados leitores. Todavia, muitos desdobramentos de sua teoria evolutiva serviram como fomento de práticas tão perversas que terminaram por levar o darwinismo ao patamar de um dos grandes algozes da humanidade em todos os tempos (Rose, 2000).

Os fatos observados no final do século XIX até a primeira metade do século XX foram o estopim de uma cultura de guerra há muito instaurada. Nesta perspectiva, responsabilizar unicamente Charles Darwin pela fundamentação científica da intolerância e do extermínio não me parece justo; em outra, minimizar suas influências para algumas das mais terríveis formulações teóricas e práticas dos períodos subseqüentes à divulgação de seus trabalhos é improcedente. Desde sua concepção, o darwinismo foi uma das poucas propostas que obtiveram o demérito de ofender a praticamente todos – a esquerda política, por levantar a possibilidade de determinismo genético; a direita, por solapar os valores tradicionais da sociedade e dos intelectuais em geral, por simplificar e reduzir as ações humanas a atitudes individuas, instintivas e egoístas (Foley, 2003). O desagrado, entretanto, parece ter sido substituído pelo fatalismo de uma verdade que somente foi questionada depois de causar grandes estragos.

A leitura de A Origem do Homem e a Seleção Sexual deixa claro que as portas do racismo científico, eugenia e dominação estavam mais abertas e largas. As discussões sobre as diferenças entre as “raças” estavam na atmosfera científica da época e muitos trabalhos corriam nos meios intelectuais revelando as mais variadas concepções antropológicas. Darwin (2002) refere muitos artigos e ensaios, mas dedica atenção especial aquele que hoje é considerado como um dos maiores aliados para a desigualdade entre as populações - o texto de Galton.

Francis Galton publicou em 1869 Hereditary Genius: and Inquiry into its Laws and Consequences, considerado o texto fundador da eugenia (Schwarcz, 2002) e mencionado por Darwin em A Origem do Homem em 1871. Neste livro, Galton, que era primo de Darwin, busca demonstrar a partir de um método estatístico e de análise genealógica, que a capacidade humana era função da hereditariedade e não da educação. O estudo da hereditariedade iria tornar-se a obsessão de Galton durante sua vida inteira, uma vez que ele não conseguia imaginar nenhum meio melhor de aprimorar o destino, o caráter ou as habilidades dos seres humanos (Rose, 2000).

A associação entre a lei natural proposta por Darwin e as conclusões construídas por Galton eram “compatíveis epistemologicamente”, pois partiam dos mesmos princípios de luta pela vida, sobrevivência dos mais aptos e hereditariedade. Darwin “determina” em A Origem do Homem que

No que tange o intelecto, os indivíduos da mesma espécie são graduados da absoluta imbecilidade à excelência (Darwin, 2002, p. 99).

De onde se abstrai que as características intelectivas eram inatas. Seguindo o curso natural, deve-se esperar que em todos os indivíduos de uma espécie, no caso a humana, existam “variações intelectivas”. Assim sendo, não se podem traçar grupos mais inteligentes ou mais imbecis, já que se espera que os grupos apresentem uma freqüência regular entre “gênios” e “idiotas”. O problema é que Darwin abre um precedente. Ele considera as raças como subespécies e, desta forma, as freqüências de imbecis ou gênios podem variar entre as populações de forma diferenciada. Ele prevê que,

No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo mundo (Darwin, 2002, p. 88)."

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É isso!


Fonte:
EDUARDO PAIVA DE PONTES VIEIRA: “BIOLOGIA, DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS NECESSÁRIOS. (Dissertação apresentada à comissão Julgadora do Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico da Universidade Federal do Pará, sob a orientação da Professora Doutora Silvia Nogueira Chaves, como exigência parcial para Obtenção do título de MESTRE EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS, na área de concentração: Educação em Ciências). Universidade Federal do Pará. Belém, 2006.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Popper condenado por radicalismo

"Se há antiindutivismo e antipsicologismo extremos em Popper, Susan Haack terá tido sucesso em condenar sua proposta epistemológica, bem como a tentativa de complementaridade que Watkins elaborou para tal proposta; se não há, Haack terá errado o alvo por ela mesma armado no horizonte teórico.

Susan Haack filia sua análise ao que chama “epistemologia dominante”, acusa Popper de ter atitude desdenhosa ao tratar tal epistemologia como crença filosófica e salienta que a divergência teórica “é menor, e muito menos simples, que parece”. Enquanto Popper procura focar o conhecimento científico como alvo e, assim, distinguir ciência e não-ciência, a epistemologia de Haack tem um recorte que inclui o conhecimento empírico em geral e, por isso, abre mão da demarcação popperiana, apesar de considerar o conhecimento científico parte do conhecimento empírico em geral. A demarcação de Popper ocorre em relação à ciência/pseudo-ciência e não à filosofia/ciência. Para ele, estes têm o mesmo método; Haack, contudo, parece, como veremos a seguir, negligenciar o objeto da demarcação popperiana.

Ela reconhece que o falibilismo, na filosofia da ciência de Popper, ao sustentar que teorias científicas não podem ser verificadas, confirmadas ou justificadas, mas somente falsificadas ou refutadas, estabeleceu um sentido distintivo que é objetivista, preocupado somente com o conteúdo objetivo das teorias e suas relações lógicas. Segundo essa visão, “cientistas não crêem, nem devem crer em suas teorias; o que importa não é os cientistas acreditarem – isso é uma matéria subjetiva – mas teorias abstratas, proposições, problemas. Isso é, algo ‘objetivo, conhecimento científico’, como Popper usa a frase, para referir”.

Haack toma Popper por cético sigiloso que, ao não aceitar crenças verdadeiras, nega também o conhecimento. O que ele chama de conhecimento objetivo, científico, não é nunca justificado, não deve ser objeto de crença e pode não ser verdadeiro. Segundo Haack, ele não se interessou pelo conceito por pensar que não há crença justificada, e isso por sustentar que ciência é um empreendimento crítico racional, na qual, sempre as teorias estão sujeitas a contestação racional. A crítica negativa demonstra não que a teoria científica verdadeira é verdadeira, mas que a falsa é falsa; e na primeira parte da epistemologia de Popper, “depende da solução ao ‘problema da base empírica’, isto é, o problema do papel da experiência na falsificação”.

Haack argumenta que o problema da base empírica tem solução na proposta funderentista como um estágio adiante do fundacionalismo e que uma meta-epistemologia implica a proposta de uma epistemologia com um sujeito conhecedor. Também pretende traçar as linhas “de uma contribuição relevante para a epistemologia das ciências cognitivas”. Deste modo, apresenta um “naturalismo modesto” que articula uma “concepção gradualista da relação entre filosofia e ciência”. Esta proposta, contudo, terá sua apresentação subordinada a nossa pretensão de debater o problema da base empírica.

Embora Popper tenha deixado margem para o entendimento de que The logic of scientific discovery
propunha que teorias científicas são testadas contra a experiência, depois ele esclareceu ter sustentado a tese de que teorias científicas são testadas, não contra a experiência, mas contra as “proposições básicas”. No contexto da epistemologia popperiana, estas proposições são singulares e reportam à ocorrência de um evento observável em um lugar e tempo específicos. Até aqui Haack descreve Popper, mas sua divergência está na seqüência do argumento, quando este afirma que:

a decisão para aceitar uma proposição básica (...) é causalmente conectada com nossa experiência (...) Mas nós não tentamos justificar proposições básicas com suas experiências. Experiências podem motivar uma decisão e, por isso, uma aceitação ou rejeição de uma proposição, mas uma proposição básica não pode ser justificada por ela – não mais do que batendo na mesa
.

Haack estranha e contesta a afirmação de que proposições básicas não podem ser justificadas ou sustentadas com a experiência, uma vez que Popper afirmou que elas possuem conteúdo observacional e que a decisão científica de aceitá-las pode ser causada pela experiência. É possível, segundo Haack, identificar dois argumentos no texto de Popper, que pretendem sustentar a tese de que “a experiência não pode justificar a aceitação de proposições básicas”. O primeiro afirma que proposições básicas são impregnadas de teorias e que, portanto, o conteúdo da proposição não se esgota na observação, pois sempre há termos universais em relações circunstanciais e hipotéticas. Ex: “aqui está um copo de água”. A justificação de tal proposição implicaria inferências ampliativas com caráter observável para seu futuro; portanto, incorrer-se-ia em indução, condenada por Popper. Tal formulação Haack chama de argumento anti-indutivista por entender que Popper reconhece a existência de evidências não dedutivamente conclusivas. O segundo argumento é identificado, por Haack, como “uma versão da familiar irrelevância do argumento causacional”. A relação causal ocorre entre uma experiência e a aceitação ou rejeição de uma proposição básica, mas não entre a experiência e a proposição básica. Assim, ao vermos um cisne negro, rejeitamos a proposição, mas não faz sentido afirmar que há uma relação de incompatibilidade lógica entre a experiência de ver um cisne negro e a proposição “todos os cisnes são brancos”. Se “a justificação não é uma noção causal ou psicológica, mas lógica”, então, “proposições básicas não podem ser justificadas pela experiência”. Haack nomeará esta defesa como “argumento antipsicologista”.

Apesar de reconhecer que os argumentos são válidos, Haack afirma que “sua conclusão, contudo, é simplesmente inacreditável”. Ela defende que uma proposição do tipo “o homem está com o cachimbo na boca” é aceita no universo científico como sustentada por todos aqueles que vêem o cachimbo na boca do homem. Entretanto, em uma análise epistemologicamente relevante, ela afirma que as experiências perceptuais científicas são consideradas completamente irrelevantes. E isso é um problema. Se uma teoria científica é considerada refutada ou falsificada ao se demonstrar ser incompatível com uma proposição básica aceita, seria o caso de considerar que a aceitação de uma proposição básica no universo científico apoiada em experiências científicas, refuta a epistemologia incompatível. A relevância dessa defesa de Haack é reforçada pela proposição “não existe razão para supor que proposições básicas aceitas são verdadeiras, nem, conseqüentemente, que uma teoria ‘refutada’... é falsa. A ciência não é, afinal de contas, nivelada negativamente sob o controle da experiência”.

Mas Popper sustenta que a aceitação ou rejeição de sentenças básicas não ocorre por elas estarem sustentadas em experiências, mas sim por “decisão” ou “convenção”, da qual participam os membros da comunidade científica. Isso, contudo, não é plausível com a posição popperiana de que o convencionalismo é observacional e não-arbitrário, mesmo tratando a aceitação ou rejeição de sentença básica como conjectural e reversível, de tal forma que, em havendo desacordo, a proposição em questão pode ser testada contra outra proposição básica. Haack acha que, quando Popper apela ao ‘testável’ como relevante para decisão de que são tanto injustificadas quanto injustificáveis, ele é tendencioso, tanto que “Ayer protesta [dizendo] que a tese de Popper é difícil de acreditar, e insiste (...) que a aceitação de proposições básicas pode ser justificada, talvez não por inteiro ou incorrigivelmente, pela experiência.

Segundo Haack, a resposta de Popper a Ayer, asseverando sua negação de que a decisão para aceitar ou rejeitar uma sentença básica é arbitrária ou imotivada permite interpretar que as experiências não oferecem só motivos, mas também a razão inconclusiva para aceitar ou rejeitar proposições de base. Então Haack avança. E, se conforme a resposta a Ayer, Popper entende que a confiança caracteriza nossas observações, ela afirma: “Isso não é defender, mas abandonar a posição radical adotada em A lógica da pesquisa científica; Popper admite que experiências possam constituir razão para, não só causas, da aceitação ou rejeição de proposições básicas, e que podem ser razões inferidas de dedução conclusiva”. A incongruência agora está, segundo Haack, no fato de Popper ter respondido à objeção de Ayer fazendo o uso do termo “motivação” que se menciona “causalidade pontual” e contrasta com “justificação”, não responde às objeções de Ayer; se menciona “justificação” ou “sustentado com razões”, “constitui a capitulação à objeção” de Ayer.

Poder-se-ia dizer, contudo, como alguém que não entende o debate teórico como cabo-de-guerra, que Popper se deu conta, no debate com Ayer, de certas implicações de sua epistemologia que até então ele não havia percebido, precisamente, que as motivações fornecidas pela experiência são razões para a decisão convencionalista. Mas Haack extrai daí um ponto de acordo entre a posição de Ayer, que não ofereceu resposta aos argumentos contra a justificação, e a de Popper: as conclusões dos dois argumentos popperianos de que a experiência não pode justificar a aceitação de proposições básicas são falsas. Para serem válidos, como foi asseverado por ela, eles devem ter, cada um, pelo menos uma premissa falsa. Segundo Haack,

as premissas do argumento antipsicologista são: [1] que pode ser somente causal, não-lógica, a relação entre uma experiência subjetiva e a aceitação ou rejeição de uma sentença básica e [2] que somente a relação lógica é relevante para a racionalidade da aceitação/rejeição de proposições. A primeira é verdadeira; a segunda é falsa; [enquanto] as premissas do argumento anti-indutivista são: [1] que proposições básicas são carregadas de teoria e [2] que não existe relação de sustentação não-dedutiva, ampliativa. A primeira é verdadeira; a segunda é falsa
.

Essa configuração, contudo, somente aparece porque Haack distinguiu o que Popper tinha tratado como indistinto. Ela supõe que a causa para Popper não ter distinguido os argumentos contra o psicologismo e contra o indutivismo estaria no fato de tal procedimento fragilizá-los. No entanto, devemos lembrar que Popper afirmou a irrelevância da observação para a justificação, ele não afirmou que a convenção não observa logicidade no procedimento de aceitação ou rejeição de uma sentença. Haack, entretanto, parece considerar toda justificação como sendo lógica e toda lógica justificacionista, o que perturba a análise. Mesmo assim, os argumentos que apresenta, parece, devem ser avaliados. Ocorre que as segundas premissas, tanto do primeiro como do segundo argumentos não condizem com a proposta popperiana. Corretamente, Haack identifica-as como falsas, mas elas não representam uma síntese adequada da epistemologia de Popper e, assim, ela está distante de impor o pretensioso xeque-mate ao autor.

Popper teria preferido tratar psicologismo e indutivismo como “dois lados da mesma moeda (verificacionista)”, o que redundou no seguinte raciocínio: “a suposição antipsicologista considera que somente relações lógicas são epistemologicamente relevantes, a suposição antiindutivista considera que somente relações dedutivas são lógicas; juntamente, portanto, isso implica que somente relações logicamente dedutivas são epistemologicamente relevantes”.

A formulação do argumento é válida e, também corretamente, Haack lembra que o antipsicologismo e o antiindutivismo são a condição de sustentabilidade de todo o discurso epistemológico do falibilismo de Popper. Segundo ela, a distinção entre descoberta e justificação e a difamação do contexto da descoberta como envolvendo questões que podem interessar à psicologia ou à sociologia, mas não à filosofia da ciência, bem como sua proposta de “Epistemologia sem um sujeito conhecedor”, evolucionária, em um mundo três, habitado unicamente por proposições e suas relações lógicas, confirmam essa posição.

Ao considerarmos válido o argumento de Haack, cujas premissas do antipsicologismo e antiindutivismo permitem inferir legitimamente que “somente relações logicamente dedutivas são epistemologicamente relevantes”, nos colocamos na obrigação de aceitar sua conclusão; pelo menos, se aceitarmos que suas premissas são verdadeiras. Temos um silogismo categórico que afirma: 1a premissa: Toda relevância epistemológica é lógica; 2ª premissa: Toda lógica é dedutiva; Conclusão: Toda relevância epistemológica é dedutiva. Representada em conjuntos, mais claramente se demonstra a impossibilidade de duvidar da conclusão.

Permanece, porém, a possibilidade de questionar a verdade das premissas, eis o que tentaremos agora, sob pena de concordarmos com Haack de que não há solução ao problema da base empírica nos limites popperianos. A proposta epistemológica de Popper, estando suscetível ao ceticismo profundo, para o qual a ciência não está “nivelada negativamente” ao “controle da experiência” conduz, segundo ela, “a que teorias científicas não podem mais ser demonstradas falsas do que demonstradas verdadeiras”, o que significa um “profundo fracasso” dessa filosofia.

Ocorre que a primeira premissa do argumento de Haack é falsa, ela foi extraída da inadequada formulação do primeiro argumento, e agora o erro se aprofunda. Popper não trabalha com absolutos, suas conjecturas não pretendem totalidades e sua consciência da fragilidade de qualquer proposição não pode ser compreendida senão como um apelo à modéstia. Ele não concordaria com a formulação da primeira premissa do argumento anterior.”

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É isso!


Fonte:
REMI SCHORN: “O PROBLEMA DA VERDADE DO CONHECIMENTO NO RACIONALISMO CRÍTICO”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul como requisito para a obtenção do grau de Doutor em Filosofia. Área: Filosofia do Conhecimento e da Linguagem Orientador: Prof. Dr. Eduardo Luft). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Entre dentes e conveniências

A Teoria da Evolução é, por sua própria lógica e estrutura, a teoria das incertezas. Evolutivamente falando, um “fato” nunca é, na acepção cabal da palavra, um “fato” realmente conclusivo”. Os “fatos evolutivos” geralmente costumam se esvair por entre as nuvens de um novo “fato”, numa eterna e inconclusiva secessão de “fatos”, como numa história sem.

Recentemente divulgou-se que um f
óssil de dentes em Israel poderia mudar a teoria da evolução humana. Embora o achado em si não seja uma ameaça à base gradualista da teoria, ao menos lançaria por terra um “fato”, que durante décadas fora proclamado como fiel e digno de toda aceitação: a origem africana do homo sapiens.

Obviamente que tal notícia desagradou a muitos dos devotos de Darwin. Um deles, por exemplo, expressou-se da seguinte forma:
Morfologia dos dentes pode não ser lá muito segura pra indicar que se trata de H. sapiens - ainda mais que há características distintas”.

Ora, se morfologicamente um fóssil de dente não é lá muito confiável, por que então ele já foi utilizado em muitas ocasiões para corroborar outros "fatos evolutivos", como nos exemplos a seguir, que extrair numa ligeira pesquisa pela Internet?

Não que o “dente de Israel” tenha lá alguma relevância para mim, porém, como perguntar não ofende...

Exemplo 1:
O fóssil de ancestral humano mais controverso do mundo volta a causar polêmica. Um estudo publicado hoje afirma que o Orrorin tugenensis já andava sobre dois pés há 6 milhões de anos. Se confirmada, a descoberta recuará em 1,5 milhão de anos a origem da família humana. Mas há cientistas que duvidem dela. [...] A espécie, representada por fragmentos de dente, ossos da perna e mandíbulas, seria o ascendente mais antigo da humanidade” (Vide).

Exemplo 2:
“Cientistas australianos anunciaram hoje a descoberta do fóssil de um dente de tubarão gigante, animal que desapareceu há vários milhões de anos e media 15 metros de comprimento. O dente foi recuperado por cientistas australianos e neo-zelandeses durante uma expedição no mar da Tasmânia [...] “"O dente está num notável estado de conservação e tem um importante valor científico para compreender melhor a população e a idade destes antigos tubarões", disse Williams. (Vide)

Exemplo 3:
“Um conjunto de dentes pertencente a um réptil pré-histórico indica uma possibilidade sobre como as presas venenosas das cobras evoluíram.” (Vide)

Exemplo 4:
"Paleontólogos espanhóis anunciaram nesta sexta-feira (29) a descoberta de um dente que teria pertencido ao hominídeo mais antigo descoberto na Europa ocidental, há mais de um milhão de anos [...] Este dente, um pré-molar inferior um pouco gasto, pertencia provavelmente a um indivíduo de entre 20 e 25 anos, segundo José María Bermúdez de Castro, um dos três paleontólogos que dirigem os trabalhos.” (Vide)

Exemplo 5:
“Nunca é tarde para ir ao dentista pela primeira vez. Que o digam os mamíferos de 60 milhões de anos da bacia de Itaboraí (RJ), cujo esmalte passou por um check-up completo nas mãos de um dentista e de uma paleontóloga. O diagnóstico: os bichos criaram um sistema eficiente para comer plantas, permitindo que eles começassem a ocupar o papel de grandes herbívoros, vago por causa da extinção dos dinossauros.” (Vide)

Exemplo 6:
Um dente de 40 mil anos encontrado na Grécia sugere que os neandertais eram mais móveis do que se imaginava. A composição química do fóssil, estudada por cientistas da Sociedade Max Planck (Alemanha), mostra que o indivíduo passou ao menos parte da sua vida longe de onde morreu.” (Vide)

Exemplo 7:
“Pesquisadores costarriquenhos descobriram um pequeno dente fossilizado de um mamífero marinho que viveu há mais de cinco milhões de anos, o Desmostylus hesperus. Segundo um dos especialistas responsáveis pelo trabalho, o animal é o vertebrado terrestre mais antigo já descrito na Costa Rica [...] O dente do Desmostylus hesperus surpreendeu os geólogos porque, pela primeira vez, restos deste animal foram encontrados em uma região tropical. Os poucos fósseis do mamífero achados até agora no mundo estavam no Japão, na Rússia, nos Estados Unidos e no México.” (Vide)

Exemplo 8:
"Um punhado de fragmentos fossilizados, vindos do Acre, podem ajudar a quebrar uma estranha escrita: o Brasil, país com maior número de espécies de macacos do mundo, não tem praticamente nenhum registro da evolução desses bichos. A simples descrição dos caquinhos acaba de revelar dois novos símios fósseis, os mais antigos já descobertos em território brasileiro [...] Pode parecer exagerado designar uma nova espécie com base em tão poucos restos, mas a anatomia dos dentes e do maxilar (no caso do Solimoea, um molar e dois pré-molares encravados num caco da parte da frente da bochecha direita) costuma ser específica o suficiente para trazer um caminhão de informações." (Vide)

Exemplo 9:
"Nós achamos restos de dente e osso de um recém-nascido num dos coprólitos", conta Souto. "Aparentemente, quem cuidava dos diferentes ninhos competia entre si comendo os filhotes do outro -um comportamento que existe ainda hoje entre crocodilos", afirma o pesquisador." (Vide)

Exemplo 10:
"Um fóssil contrabandeado do Ceará para a França deu a um grupo de paleontólogos europeus a oportunidade rara de flagrar um momento da vida privada dos dinossauros: a hora do almoço. Os ossos indicam que uma espécie de dino que habitou a chapada do Araripe há 100 milhões de anos incluía répteis alados na sua dieta [...] Enterrado em uma delas está um dente quebrado que a equipe liderada por Eric Buffetaut, do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Científica), em Paris, identificou como pertencente a um espinossauro. E aí está a surpresa: achava-se que esse tipo de dinossauro fosse um inveterado comedor de peixes." (Vide)

Exemplo 11:
Os dinossauros cuspidores de veneno do filme "Parque dos Dinossauros" eram pura invenção de Hollywood, mas alguns desses animais podem realmente ter tido uma mordida venenosa. A revelação vem de um dente de dois centímetros encontrado no México que tinha um canal como os existentes nos dentes de algumas cobras. É a primeira evidência de que um dinossauro possa ter sido venenoso." (Vide)

E por aí vai...

É isso!

O aperfeiçoamento humano nos movimentos eugênicos nos séculos XIX e XX

“Domingues e Sá (2003) avaliaram que a recepção das idéias de Darwin no Brasil foi controversa, principalmente aquelas sobre origem e evolução dos humanos. Esses estudos se basearam em fontes historiográficas disponíveis no Museu Nacional.

Segundo elas, em 1870 surgiram os primeiros posicionamentos de brasileiros sobre o trabalho de Darwin, tanto defensores quanto contestadores. A idéia de evolução se apresentava ligada a dois sensos: um grupo que se remetia exclusivamente ao darwinismo, e outro formado por evolucionistas contrários a esse referencial teórico-metodológico.

As controvérsias se colocavam diante de três influências pricipais: 1- o imperador Pedro II, que se comunicava com cientistas renomados. Ele teria sido admitido na academia de ciências de Paris, pelas suas contribuições financeiras em trabalhos de pesquisa; 2- Cientistas brasileiros, em geral formados na Europa; 3- Influência de contatos europeus, inclusive Darwin e um de seus grandes opositores, Quatrefages (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Pedro II e Quatrefages trocaram correspondências. Aquele concordava com as teses antidarwinistas deste. O imperador rejeitava principalmente a idéia da ascendência humana e o fato de que o primeiro ser humano seria negro. Esses eram os temas mais combatidos e se cruzaram nas discussões, com os da origem tanto dos seres humanos quanto da sociedade. Os evolucionistas antidarwinistas acabaram por buscar explicações para diferenças raciais e culturais usando os métodos franceses da craniometria e antropometria de Paul Broca e Quatrefages (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Os pesquisadores brasileiros João Batista Lacerda e Rodrigues Peixoto chegaram a analisar crânios de botocudos, colocando-os em grau de inferioridade intelectual. Seus trabalhos foram elogiados por Quatrefages em 1883. As práticas desses pesquisadores estavam completamente de acordo com os estudos parisienses. Eles não cogitavam a idade das culturas nativas do país. Gradação, para eles, significava hierarquizar representantes da espécie, das formas simples até as mais sofisticadas (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Ladislau Neto, então diretor do Museu Nacional, desenvolveu trabalhos de craniometria e manifestava-se ambiguamente sobre a questão. Seu foco de trabalho era a evolução morfológica de plantas. Ele chegou a conclusões próprias recebendo influências de botânicos antidarwinistas, como Nägeli, e favoráveis, como Julius Sachs, além de ter referenciado o trabalho do próprio Darwin de 1865, sobre plantas trepadeiras (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Posteriormente, em 1876, Neto teria se mostrado adepto das idéias de Haeckel. Primeiramente, ele se pronunciou sobre o domínio do meio físico na evolução, e depois sobre nutrição e clima. Em 1880, ele passou a dedicar-se aos estudos arqueológicos, denunciando o desaparecimento dos indígenas (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Em 1873, Augusto Cezar de Miranda Azevedo teria feito defesa de uma visão do Darwinismo, baseada em Haeckel, nas conferências populares da Glória. Também teria elaborado uma tese cujo título era “Do darwinismo é aceitável o aperfeiçoamento cada vez mais completo das espécies, até o ser humano?”. Segundo esse autor republicano, as teorias de Darwin deveriam ser conhecidas pelos legisladores, porque haveria um problema social. Os homens mais fortes eram enviados para a guerra, e a reprodução, bem como a organização da sociedade, ficavam por conta dos fracos e imperfeitos (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Outras teses foram desenvolvidas na faculdade de Direito de Recife. Sylvio Romero, em 1888, spenceriano, teria discutido a genealogia da sociedade brasileira seguindo as diretrizes de Darwin. Ele criticou teses de pesquisadores haeckelianos sobre a recapitulação genética, hipótese segundo a qual os povos recapitulariam a história evolutiva da espécie humana ao se desenvolverem. Para os haeckelianos, o processo de miscigenação de povos “civilizados” com os “inferiores” atrasaria em séculos o desenvolvimento da humanidade (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Para Romero, ao longo do tempo e do processo de mestiçagem a sociedade brasileira se tornaria branca. Ele se identificava com analogias entre animais e vegetais. Para ele, analisando a própria história evolutiva, os povos poderiam identificar similitudes com outros: em alguns casos, por influência de uma natureza humana universal; em outros, devido aos contextos ambientais semelhantes que os envolve; e por fim, mediante o contato com outros grupos e a adoção de concepções estrangeiras. As similitudes poderiam ser mais ou menos profundas, mas não significariam repetições, apenas desdobramentos (DOMINGUES; SÁ, 2003).

Domingues e Sá (2003) explicaram que os debates e as polêmicas no século XIX giraram em torno dessas duas frentes principais: de um lado, os adeptos da teoria craniométrica; do outro, pesquisadores tidos como darwinistas, mas que se embasaram em variantes hackerianas e spencerianas da teoria. Embora de menor influência, algumas outras concepções foram apresentadas na Revista Brasileira e no Jornal do Comércio.

Domingues e Sá (2003) destacam o trabalho de Emmanuel Liais, de 1881, à luz das teorias de Darwin e Lyell, que buscou mapear a geografia climática, botânica, zoológica e geológica do Brasil. As explicações de Liais sobre a teoria da seleção natural refletiam-se na questão racial. Elas contrariavam as explicações da antropologia craniométrica, que explicava que as culturas mais antigas seriam as superiores.

Avaliando as idéias apresentadas por Domingues e Sá (2003), é possível compreender que, para elas, no Brasil do século XIX, o evolucionismo e a teoria racial orientaram as ciências naturais e os pensamentos de intelectuais que idealizavam a nação. Esse grupo buscava inserir o país na marcha temporal da civilização e via a escravidão como um empecilho. Estudos craniométricos justificavam a inferioridade dos grupos indígenas que eram vistos como substitutos para a mão-de-obra escrava. A superioridade de uma cultura, para eles, era medida pelo tempo de sua existência. Teorias de fundo darwinista contrariavam tais estudos.

Além disso, até 1888 a escravidão era legal e relevante nos processos de produção. As teorias darwinistas atacavam fortemente esse tipo de organização social. Se a opressão do negro se justificava por uma superioridade da raça branca, pensada como a cultura mais antiga, a idéia de que os primeiros humanos teriam surgido na África colocaria em cheque a visão de mundo da época. Assim, o contexto político foi um importante fator limitante das recepção das idéias de Darwin.

Chama-se atenção para o fato de que no texto de Dominguez e Sá (2003) as teorias raciais e os critérios de categorização humana entre grupos mais ou menos evoluídos, com base em estudos craniométricos, serviram de fatores limitantes à penetração das teorias darwinistas no Brasil. No entanto, essas mesmas visões de mundo que serviram para justificar a categorização racial e o aperfeiçoamento de grupos humanos no século XX, se basearam nas teorias de Galton sobre eugenia, que recebeu forte influência do paradigma darwinista, conforme apresenta-se nas discussões de Bizzo (1994; 1998).

Segundo Bizzo (1998) a eugenia está ligada a práticas sociais que visam o controle do tipo de características transmitidas às futuras gerações. Podem ser consideradas no rol das práticas eugênicas, por exemplo, a seleção sexual, quando animais escolhem parceiros com determinadas características para fins de reprodução, e a domesticação, quando se busca garantir ou impedir a reprodução de portadores de determinadas características preestabelecidas. Nesse sentido, as ferramentas bioquímicas desenvolvidas por estudos em biologia molecular têm fornecido condições para manipulação da espécie humana. Contudo, a bioética se coloca, nesse contexto, como disciplina que visa a compreender e analisar os princípios que regem a utilização de tal conhecimento. Cabe a ela normatizar os procedimentos adotados pelos cientistas.

No entanto, para Bizzo (1994; 1998) as concepções e as ações voltadas à reconstrução de um padrão genético humano não estão ligadas apenas ao contexto científico. Ao olhar para a história do processo de pensamento eugênico do início do século XX, é possível observar um retrato de disputa política em diferentes campos recheados de ideologias. Analogias entre melhoramento de plantas e animais domésticos e a humanidade foram largamente estabelecidas em diferentes contextos sociais. Melhorar o conjunto gênico humano significaria a ampliação das possibilidades de permanência dessa espécie na Terra.

Certamente, qualquer movimento nesse sentido colocaria em cheque a cidadania, que se liga ao direito à liberdade e ao livre-arbítrio, porque pré-selecionar determinadas características no sujeito significaria, ao mesmo tempo, limitar a sua performance social (BIZZO, 1994).

Bizzo (1994) buscou traçar um perfil histórico do desenvolvimento das idéias eugênicas, inclusive da sua formalização em teoria científica. Em um segundo momento, procurou contextualizar as primeiras manifestações desse movimento no Brasil, bem como descrever o tipo ideal que deveria ter sua reprodução controlada, segundo as representações presentes no país, por volta dos anos de 1920.

Ele explica que os atos eugênicos não se iniciaram com a teorização científica, mas fizeram parte das práticas de diversas culturas há séculos. Dentre seus exemplos, destaca-se o abismo de Taígeto, em Esparta, onde bebês tidos como inaptos para a guerra eram arremessados. Também podem ser citados os acordos da aristocracia européia, que incentivavam o casamento entre nobres e, também, o totalitarismo nazista alemão de Hitler, que por argumentos nacionalistas, visava criar uma raça ariana pura (BIZZO, 1994).

Francis Galton, em 1869, publicou o livro Hereditary Genius, um marco nessa discussão. Ele tentou provar que as aptidões para determinadas carreiras eram características transmitidas geneticamente. Em um estudo com 400 famílias aristocráticas inglesas, percebeu que filhos de magistrados, políticos, escritores, etc. também se tornavam profissionais de sucesso em carreiras semelhantes (BIZZO, 1994; 1998).

Matematicamente, ele buscava provar maneiras de identificar diferentes raças na população geral e correlacionar tais resultados com atuações de “sucesso”. Seu objetivo era melhorar características humanas garantindo a reprodução de pessoas bem-sucedidas em detrimento daqueles tidos como desviantes de um padrão que coincidia com as características da sociedade abastada (BIZZO, 1998).

Essa pesquisa, portanto, se constituía por dois caminhos. Por um lado, Galton tentava explicar a hereditariedade do desempenho social “acertado” e, por outro, utilizava um referencial matemático que delimitava categorias de classificação raciais. Esses instrumentos foram amplamente utilizados ao redor do mundo na justificação de práticas de esterilização compulsória e, nos casos mais extremos, no extermínio em massa de grupos sociais concebidos como inferiores (BIZZO, 1994; 1998).

O argumento de Galton não era inédito, mas o livro publicado por esse pesquisador contribuiu fortemente para que o debate sobre a questão ganhasse espaço no meio científico, principalmente nas discussões de Darwin. A “hipótese provisória da pangênese”, de Darwin, se colocava em um espaço central na teoria do Hereditary Genius. Darwin recebeu essas idéias com assentimento. Tratava-se de uma aplicação prática para a referida hipótese. Ela prescrevia que as modificações ocorridas no corpo eram transmitidas para os órgãos reprodutores e assim, transmitidas para as gerações seguintes (BIZZO, 1994; 1998).

Bizzo (1991; 1992) discutiu que algumas circunstâncias pessoais podem ter contribuído para que o jovem Darwin repensasse a discussão sobre os seres humanos no livro Origem das Espécies. Dentre elas, destaca-se a morte de Charles Waring, filho de Darwin, que apresentava variações psicossomáticas bastantes semelhantes àquelas descritas para a síndrome de Down.

Tais variações seriam o cerne do texto de Darwin sobre a reversão humana ao tipo selvagem. Essa parte do livro teria sido iniciada an tes que ele soubesse sobre as características do próprio filho, e estas possivelmente o teriam influenciado a repensar o espaço do ser humano em suas teorias (BIZZO, 1991; 1992). As discussões de Galton teriam incentivado Darwin a retomar a questão quando, em 1871, publicou Descent of Man (BIZZO, 1994).

As teorias de Galton se baseavam em duas premissas principais: a idéia de raça humana, que deveria ser melhorada, e a perpetuação das aptidões de sucesso, explicadas pelas hipóteses pangenéticas. Em novas edições do livro de Galton, as propostas abordavam idéias de repovoamento e colonização de uma “raça” superior, algo bastante difundido na América recém-colonizada.

Após a retomada dos trabalhos de Mendel, bem como a publicação dos de Thomas Morgan, em 1909, realizados com drosófilas, e a morte de Galton em 1911, os paradigmas eugênicos, na ciência, foram abandonados. Entretanto, no campo político essas idéias teriam ganhado força e continuaram a justificar práticas de seleção sob uma nova roupagem (BIZZO, 1998).

Se os objetivos de Galton eram a busca pela “melhora” dos grupos humanos, os novos eugenistas imprimiam um caráter nacionalista em seus trabalhos. Na década de 1920 e nos anos daí decorrentes, as idéias eugênicas visavam “salvar civilizações delimitadas por fronteiras nacionais, edificar exércitos, qualificar, inclusive fisicamente, a mão-de-obra de países particulares” (BIZZO, 1998, p. 177).

Instaura-se o que Bizzo (1994; 1998) denominou de “paradoxo social-eugênico”, segundo o qual as idéias de melhoramento da espécie humana se tornam propostas políticas de organização estatal, desprovidas de amparo científico.

Depois das inovações na produção determinadas pela revolução industrial, a população européia vinha aumentando consideravelmente. Houve um drástico processo de migração da zona rural para pólos urbanos onde famílias numerosas, acostumadas à vida e à divisão de trabalho no campo, se viam em situações de privação. Além disso, as novas formas de produzir geravam crises econômicas cíclicas (BIZZO, 1998).

A explosão demográfica nas cidades, agregada à desestruturação dessas famílias e a crise econômica, ampliava o número de pedintes e mendigos, o que na visão da maioria dos aristocratas se mostrava um fator de degeneração da raça. Além disso, tratava-se de um período posterior à primeira guerra mundial, que gerou um número relevante de mutilados sem perspectiva de emprego. Embora esses fatores não esgotem as possibilidades de explicação para o paradoxo eugênico, pelo menos tocam pontos fundamentais (BIZZO, 1994).

Tais fatores devem ser considerados pelos interessados em estudar com maior profundidade os fatores desencadeantes dessa situação verdadeiramente paradoxal: a radicalização do discurso eugênico não foi abalado pela absoluta falta de argumentos científicos para ampará-lo. Sendo de início um discurso semi-acadêmico, logo passou a ser visto como uma disciplina científica, aguardando a confirmação de certas teorias acessórias, como a pangênese. Mas sua capacidade de produção de novos métodos de produção de conhecimento, ferramentas matemáticas como a
regressão, sua fecundidade heurística, acabou por ofuscar a falta de amparo científico. Isso pavimentou o caminho dos biométricos, e suas ferramentas matemáticas geniais. O resultado foi o retorno da eugenia, não mais como discurso semi-acadêmico, ou como paradigma científico, mas como programa político-institucional, cuja aplicação prática passava a ser imprescindível para a “salvação da nação” (BIZZO, 1994, p. 86).

Em 1918, foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo. O primeiro ato desse grupo foi publicar o livro Problema Vital, de Monteiro Lobato, cuja discussão central versava sobre o enfraquecimento do brasileiro com relação aos seus ancestrais portugueses, vítima de verminoses em sucessivas gerações. Assim, o saneamento básico e a higiene racial trabalhariam juntos na busca de gerações mais sadias. “Pais sadios teriam filhos mais sadios. Filhos eugênicos estariam menos sujeitos a pragas e verminoses” (BIZZO, 1998, p. 181).

Algumas medidas foram sugeridas pela Comissão Central Brasileira Para o Estudo e Propaganda da Eugenia. Dentre elas, a título de exemplo, destaca-se o incentivo para a colocação de candidatos eugenizados em cursos superiores e cargos públicos, bem como a implantação da educação eugênica em todos os níveis de ensino (BIZZO, 1994).

Segundo Bizzo (1994; 1998), ações eugênicas no Brasil teriam sido tácitas, principalmente por conta da pressão exercida pela Igreja Católica, que se posicionou contrária a tais práticas, em 1930, por orientação do papa Pio XI. Entretanto, séries de trabalhos começaram a ser publicadas na tentativa de estimular os professores a convencerem seus alunos dos benefícios que o melhoramento eugênico poderia proporcionar.

Diferentemente da abordagem em outros países, o movimento eugênico no Brasil não se preocupou com a hegemonização de uma raça, segundo um determinado padrão genético, mas buscou limitar as possibilidades reprodutivas da população menos favorecida, menos esclarecida e miserável. A falta de alimentação adequada, de escolarização e de recursos em saúde era escamoteada frente ao argumento de que a culpa pela miséria repousava no próprio sujeito. Segundo Bizzo (1994).

Embora não se reconhecesse uma ‘raça brasileira’ a preservar, com certeza havia uma imagem do que se queria evitar, ou evitar de perpetuar, de um conjunto de taras a ser ex tirpado da identidade brasileira a fim de remover obstáculos ao desenvolvimento nacional [...] (BIZZO, 1994, p. 99).

Bizzo (1998) discute que muitas das possibilidades trazidas por novas técnicas de manipulação genética podem representar sérios problemas éticos no que diz respeito a decisões reprodutivas. É possível que o século XXI remeta a humanidade a um novo paradoxo social-eugênico com as maiores possibilidades de se rastrear genes responsáveis por diversas síndromes humanas. Por outro lado, diversas chacinas de presidiários e moradores de rua têm passado cada vez menos percebidas. Isso se remete ao fato de que as práticas eugênicas estão relacionadas com a imagem que a comunidade tem de si. O desvalor prestado aos grupos minoritários passa, portanto, a justificar o extermínio daqueles tidos como diferentes ou desviantes. O padrão de normalidade se volta ao potencial de consumo (BIZZO, 1998).

O ‘consumidor’ passa a ser novo crivo de cidadão, merecendo até mesmo um código de leis, o ‘Código do Consumidor’. Diante de tamanha exclusão é necessário convencer as massas de que continuamos na ‘normalidade’. Muitos professores já convencem seus alunos, preparando-os para aceitarem argumentos eugênicos. Livros escolares, TVs, jornais e revistas já estão ativamente colaborando nesse sentido. Esse processo não é auto-evidente, mas se camufla entre argumentos técnicos e conteúdos escolares (BIZZO, 1 998, p. 184 ).

Na relação entre uma pré-determinação genética interna e sua manifestação externa é que o argumento eugênico se coloca. Para a maioria dos eugenistas, pouco importam as influências ambientais. Os professores e os livros didáticos têm sido grandes responsáveis na divulgação de informações desse tipo. Na tentativa de mostrarem, por exemplo, conteúdos escolares de genética aos seus alunos, os professores se esquecem de mencionar a interação ambiental com a expressão gênica (BIZZO, 1998).

Usando o termo cunhado por Richard Lewontin, ‘ideologia do DNA’, Bizzo (1998) explica outras formas de convencimento do aluno em favor da eugenia. Por exemplo, a tendência em reduzir uma espécie biológica a um par de moléculas, como se, ao usar um pouco de DNA específico, fosse possível reproduzir um determinado ser, até mesmo o ser humano.

Essa importância exacerbada na discussão sobre os genes é denominada por Bizzo (1998) como genecentrismo. Tal abordagem pode dar margem, por exemplo, a qualificações como gene bom e gene ruim, como se a interação da expressão com o ambiente não fosse relevante. Quando aparece o discurso sobre clonagem, também se iniciam especulações sobre personalidades clonáveis, o que significaria a perpetuação de indivíduos com determinadas características que lhe garantissem algum tipo de sucesso.

Para Bizzo (1998), os professores têm uma grande responsabilidade na discussão da temática reprodutiva, no sentido de evitar que novos preconceitos eugênicos sejam difundidos, principalmente pela contribuição das novas tecnologias ao ideal eugênico."

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É isso"

Fonte:
Acácio Alexandr e Pagan: “Ser (animal) humano: evolucionismo e criacionismo nas concepções de alguns graduandos em Ciências Biológicas”. (Tese apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em Educação. Área de concentração: Ensino de Ciências e Matemática. Orientador: Prof. Dr. Nelio Bizzo Co-orientador: Prof. Dr. Charbel El-Hani). Universidade de São Paulo. São Paulo, 2009.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

A volta de Lamarck

“Nos últimos anos alguns acontecimentos fizeram com que as teorias de Lamarck fossem retomadas no meio científico. A herança dos caracteres adquiridos, proposta por Lamarck, parece ocorrer em algumas situações especiais. Nada que ameace a hegemonia das idéias de Darwin, no entanto, deixa os estudos dos mecanismos evolutivos ainda mais interessantes e complexos.

O que tem sido mostrado é que alguns fenômenos de variações genéticas não se devem aos mecanismos de mutação e seleção natural, mas dependem de modificações em bases nitrogenadas do DNA ou em proteínas associadas a ele. Essas modificações recebem o nome de metilações, e fazem parte de um conjunto de
mecanismos conhecidos como epigenéticos.

Um estudo recente com camundongos envolvendo metilações de bases nitrogenadas trouxe de volta a desacreditada teoria da herança dos caracteres adquiridos proposta por Lamarck. Nesta pesquisa os cientistas chegaram a resultados surpreendentes: camundongos que adquiriram determinadas características durante suas vidas podem transmiti-las a seus descendentes. (PENA, 2006).

Outro indício demonstrando a possibilidade da herança dos caracteres adquiridos ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial (1944-1945). Na Holanda, durante o inverno, houve um período de intensa fome, e muitas mulheres grávidas nessa época sofreram de desnutrição. Seus filhos nasceram com o peso bem abaixo do normal. Mais tarde, nas próximas gerações, mesmo com uma alimentação adequada, as mulheres que haviam nascido desnutridas também geraram crianças com peso abaixo da média esperada. Então, provavelmente a subnutrição dessas mulheres durante a guerra, além de ter afetado a saúde de seus filhos, também se manifestou em seus netos (PENA, 2006).

A partir dos resultados obtidos nestas pesquisas é importante retomar as idéiasde Lamarck e incluir esses novos conhecimentos no ensino da evolução. Desta forma, é possível estabelecer ligações entre os estudos recentes e as teorias desenvolvidas em outras épocas, demonstrando o caráter dinâmico da ciência e contribuindo para o
desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes.”

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É isso!

Fonte:
Aline de Castilhos Mello: “Evolução Biológica: Concepções de alunos e reflexões didáticas”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Educação em Ciências e Matemática. Orientadora: Profa. Dr. Regina Maria Rabello Borges). Porto alegre, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

Como Freud se aproveitou de Darwin

“Em 1875 Freud viajou a Manchester para fazer uma visita aos seus meio-irmãos. Desde sua infância Freud lia e apreciava bastante a literatura inglesa. Ao retornar de sua viagem, Freud trouxe em sua bagagem mais do que souvenires e recordações agradáveis, havia entrado em contato com vários livros científicos ingleses: Tyndall, Huxley, Lyell, Darwin, Thomson, Lockyer, etc. Além disso, o empirismo inglês e sua aversão à metafísica o haviam encantado, e ajudado a afastar seus interesses das especulações filosóficas. Em seu retorno à universidade, concentrou-se em seu trabalho no laboratório de Carl Claus – que era um dos mais eficientes e prolíficos divulgadores de Darwin em língua alemã . Foi por essa época, sob a tutela de Carl, que Freud viajou ao mediterrâneo para pesquisar as gônadas das enguias, tendo dissecado um número enorme delas. “A busca das gônadas da enguia contribuiu para ensinar a Freud a observação paciente e exata, o tipo de atenção concentrada que mais tarde julgaria tão indispensável ao ouvir seus pacientes”. (GAY, 2004, p.46).

Depois de trabalhar com Carl Claus, Freud juntou-se ao laboratório de fisiologia de Brücke. Foi uma época singularmente feliz para Freud, que adorava seu trabalho junto ao fisiologista, explorando os mistérios do sistema nervoso, bem como adorava ao próprio Brücke, tendo afirmado que ele foi “a maior autoridade que agiu sobre mim”. Em 1892, após a morte de Brücke, Freud deu ao seu quarto filho o nome de Ernst, em homenagem ao seu falecido mentor. Foi também junto ao círculo de dele que Freud conheceu um amigo que desempenharia papel decisivo e talvez indispensável na formação da psicanálise: Josef Breuer, importante fisiologista e médico bem sucedido, homem de grande erudição, rico e quinze anos mais velho que Freud. A influência de Breuer sobre a formação da psicanálise e sua relação com Freud serão tratadas em pormenor no próximo capítulo.

A filosofia da ciência de Brücke foi tão formativa para Freud quanto seu profissionalismo. Era um positivista por temperamento e convicção. O positivismo não era tanto uma escola organizada de pensamento, e sim uma atitude difusa em relação ao homem, à natureza e aos métodos de investigação. Seus partidários tinham a esperança de trazer o programa das ciências naturais, suas descobertas e métodos, para a investigação de todo o pensamento e ação humanos, públicos e privados. Típico dessa tendência intelectual é que Auguste Comte, o profeta do positivismo do começo do século XIX em sua forma mais extremada, tenha considerado possível dar bases sólidas ao estudo do homem em sociedade, inventando o termo “sociologia” e definindo-a como uma espécie de física social. Nascido do iluminismo do século XVIII, rejeitando a metafísica de maneira apenas ligeiramente menos categórica do que a teologia, o positivismo havia prosperado no século XIX, com as vitórias espetaculares da física, da química, da astronomia – e da medicina. Brücke era seu representante mais eminente em Viena. (GAY, 2004, p.48).

Brücke havia trazido seu estilo de fazer ciência de Berlim. Ainda acadêmico de medicina, havia se juntado a seu colega Emil Du Bois-Reymond para difundir o ideário positivista e combater sem tréguas todo tipo de superstição, misticismo e panteísmo. Ambos materialistas convictos acreditavam que apenas as forças físico-químicas agiam no organismo, e que qualquer força atuante na matéria deveria ser redutível a componentes da atração e repulsão. A dupla, Brücke e Du Bois-Reymond, se uniu ao admirável Hermann Helmholtz - personalidade renascentista que deu contribuições de grande valor nas mais diversas áreas da ciência – juntos, seu prestígio intelectual era enorme. (GAY, 2004).

Helmholtz foi médico militar, professor de fisiologia e, a partir de 1871, professor
de física em Berlim. (ASSOUN, 1983).

O duplo interesse pela física e pela fisiologia, dado da época, indica por si só o sentido do empreendimento de Helmholtz. Este afirma seu projeto, desde seu trabalho Da conservação da energia (1847), onde aplica o princípio da conservação da energia aos fatos fisiológicos. Eis o enorme papel histórico que, a partir de então, recomenda Helmholtz como autoridade aos sábios de sua época: é ele quem, apenas cinco anos depois da introdução da conservação de energia por Mayer no domínio da física, a estabelece como postulado para a fisiologia. Dessa forma, a fisiologia funda sua pretensão de seguir os passos de sua irmã mais velha, a física. (ASSOUN, 1983, p. 180).

As concepções desses três luminares do positivismo deitaram raízes profundas no
espírito de Freud, que mesmo na formulação de sua ciência, a psicanálise, nunca se afastou completamente dos principais postulados de seu admirado mestre Brücke. O trio de médicos positivistas, que tanto inspirou Freud em seus anos de estudante, encontrou ainda maior fôlego na obra de Darwin, no início dos anos de 1870. A teoria evolucionista ainda era uma novidade extremamente controversa, mas que surgia no cenário intelectual como mais um argumento para o agnosticismo defendido por Helmholtz. Não havia a necessidade de se apelar para uma divindade criadora para se compreender a ordem natural dos seres vivos, tudo podia ser remetido a um entrechoque de forças, a “struggle for life” defendida por Darwin. (GAY, 2004).

O grande naturalista inglês teve profunda influência no pensamento de Freud. Principalmente em suas pesquisas voltadas para a compreensão da religião e da cultura em geral. Em 1913, ao escrever Totem e Tabu, Freud se inspirou no trabalho de um número considerável de autores, entre eles Darwin.

Embora de início estimulado pelo trabalho de Wilhelm Wundt e Carl Gustav Jung, Freud tem como principais fontes The Descent of Man (1871), de Darwin, as Palestras sobre a religião dos semitas (1889), de W. Robertson Smith, A lei primal (1903), de J. J. Atkinson, e os dois volumes de Sir James Frazer, O ramo de ouro (1903) e Totemismo e exogamia (1910). (PALMER, 2001).

A teoria de Darwin influencia o conteúdo de Totem e Tabu, não tanto a teoria evolucionista, mas a tese de Darwin sobre a “horda primitiva”. Segundo essa teoria, a vida dos homens primitivos era muito similar a dos símios superiores: eles viviam em pequenas “hordas” comandadas por um pai poderoso que possuía muitas mulheres e muitos filhos. Para manter seu poder, esse macho alfa os impedia de cruzar com as fêmeas do grupo, o que obrigava os jovens machos a procurar fêmeas fora da tribo, enquanto as jovens fêmeas podiam acasalar somente com ele. A essa teoria Freud acrescentou duas outras descobertas. A primeira de Atkinson; como conseqüência da horda primitiva os jovens machos se tornaram exógamos. A segunda idéia veio de Roberson Smith; ele sugeriu que parte do sistema totêmico envolvia uma cerimônia de “refeição totêmica”. Neste referido ritual o animal totem era sacrificado e devorado por toda a tribo, em seguida era pranteado. Esse ritual estabelecia um vínculo sagrado entre a comunidade e sua divindade. (PALMER, 2001).

Freud usa as teorias de Darwin, de Atkinson e de Smith para apresentar a seguinte reconstrução: a posição do macho dominante no âmbito da horda primitiva não era garantida de uma vez por todas. Um dia, os filhos combinaram matar e devorar o pai, que fora tanto o seu inimigo quanto o seu ideal, e, assim, não só se identificaram com ele e adquiriram uma parcela de sua força como, ao fazê-lo, levaram ao fim a horda patriarcal. A partir de então, contudo, os filhos, tomados pela culpa daquilo tinham feito e incapazes individualmente de assumir a posição do pai, formaram um cã de irmãos, passaram a praticar a exogamia – removendo assim o motivo original do assassinato do pai – e criaram um substituto do pai na forma do totem. Dessa maneira, a celebração anual da refeição totêmica não passava da comemoração solene do crime original do assassinato do pai. (PALMER, 2001, p.39).

Para justificar que esse ato diacrônico engendre uma marca “atávica” sobre a
humanidade, Freud utiliza uma teoria muito vaga sobre um mecanismo de herança, ou de memória herdada de franca inspiração Lamarkista. Para explicar tal coisa ele faz uso de dois termos amplamente aceitos à época, introduzidos pelo biólogo alemão Ernst Haeckel e já empregados por Frazer: ontogenia e filogenia. (PALMER, 2001). Essa teorização de Freud encontrou inúmeros críticos, entre eles A. L. Kroeber, Malinowski, e mais recentemente, Evans-Pritchard.

[...] A teoria da horda primitiva de Freud é uma hipótese insubstanciada, baseada nas especulações de Darwin, elas mesmas escritas numa época em que não se dispunham de dados confiáveis. Mas pesquisas subseqüentes revelaram uma ampla variação em termos dos agrupamentos sociais dos primatas, tendo o autor, Paul Simonds, assinalado organizações baseadas em indivíduos solitários, pares acasalados, grupos isolados de um só macho e bandos de machos e fêmeas adultos com filhotes. Os gorilas têm
reconhecidamente uma estrutura social semelhante a uma horda primitiva; não obstante, como nos lembra Zuckermen, “o fato de os macacos viverem em grupos familiares não é em si prova de que os primeiros homens tenham feito o mesmo...; não há uma razão clara para que o comportamento social dos ‘pré-humanos’ seja considerado semelhante ao dos macacos de grande porte e não ao dos macaquinhos. (PALMER, 2001, p.85)."

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É isso!

Fonte:
Heráclito Aragão Pinheiro: “O fantasma no castelo do materialismo: uma história do inconsciente freudiano”. (Dissertação apresentada ao Departamento Psicologia do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Ceará como requisito para a obtenção do título de Mestre em Psicologia. Orientador: Prof. Dr. Ricardo L. L. Barrocas). Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2009.

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.

A influência de Darwin e Feuerbach sobre Freud

“Dentre os inúmeros nomes ligados ao iluminismo e que exerceram forte influência sobre Freud, podemos mencionar alguns: Spinoza, Voltaire, Diderot, Darwin , Feuerbach, todos pensadores que já haviam se dedicado ao estudo do fenômeno religioso. Dentre esses, destacamos dois especificamente; Darwin e Feuerbach. Em 1859, Darwin publica A evolução das espécies, com seus estudos sobre a seleção natural e sobre a teoria da evolução, que colocaram em cheque a doutrina religiosa, a qual explicava o universo e tudo que nele habita, como uma criação divina.

O evolucionismo além de ser uma teoria científica revolucionária, foi alçado como um estandarte na luta contra o conservadorismo religioso, ao assestar duros golpes contra doutrinas tradicionais
como as da providência divina ou da bondade intrínseca da criação (DRAWIN, 2005, p.45)

A teoria de Darwin questionou as concepções mais arraigadas sobre a criação, especialmente aquela exposta no conhecido livro do Gênesis. Podemos constatar a influência darwiniana, nos escritos de Freud, especialmente no seu livro Totem e Tabu, onde utiliza o mito da horda primitiva, inspirado cientificamente por Darwin, para compreender as raízes mais arcaicas do sentimento religioso. Freud explicitamente confessa a grande admiração que tinha por Darwin.

Já Feuerbach, cujo pensamento filosófico foi marcado pelo interesse por Deus e pela religião, causou grande impacto em Freud. A seu respeito, ele declarou ao seu amigo Silberstein em 1875, "entre todos os filósofos este é o homem que mais venero e admiro" (GAY, 1989, p. 43). Não é de estranhar que nutrisse tamanha admiração por Feuerbach, afinal a essência da sua filosofia consistia em afirmar que toda manifestação religiosa não passava de uma ilusão; sendo que Deus não criou o homem, foi o homem que criou Deus. Para Feuerbach, toda consciência que o homem tem de Deus nada mais é do que a consciência de si mesmo. Não é, pois, de estranhar que defina religião como "o conjunto de relações do homem consigo mesmo, ou, melhor, com o próprio ser, considerado como um outro ser" (NICOLA, 2005, p. 367). Em sua obra mais importante, "A essência do Cristianismo", publicada em 1845, Feuerbach expõe a relação da imagem de Deus com o intelecto humano; "como pensas Deus assim pensas a ti mesmo" (FEUERBACH, apud NICOLA, 2005, p.368). Ainda sobre o pensamento desse filósofo Marilena Chauí resume:

No século XIX, o filósofo Feuerbach criticou a religião como alienação. Os seres humanos vivem, desde sempre, numa relação com a natureza e, desde muito cedo, sentem necessidade de explicá-la e o fazem analisando a origem das coisas, a regularidade dos acontecimentos naturais, a origem da vida, a causa da dor e da morte, a conservação do tempo passado na memória e a esperança de um tempo futuro. Para isso, criam os deuses. Dão-lhes forças e poderes que exprimem desejos humanos. Fazem-nos criadores da realidade. Pouco a pouco, passam a concebê-los como governantes da realidade, dotados de forças e poderes maiores dos que os humanos. (CHAUI, 2003, p.264)

Eis, portanto, a síntese da construção filosófica de um dos pensadores, cuja influência sobre o estudo freudiano do fenômeno religioso, é inegável. Veremos, posteriormente, como a construção freudiana acerca das ilusões religiosas se assemelha a essa postura de Feuerbach.

Desse modo, entendemos que é exatamente no período em que Freud se debruça sobre a elaboração da teoria psicanalítica que explode, sob a pressão do Iluminismo, o movimento humano de libertação das amarras religiosas. É aqui que o apogeu da ciência positivista declara a inexistência de um ser superior e põe em cheque qualquer crença que se oponha aos seus parâmetros. Sendo assim é atribuída à religião uma significação de origem repressora, aprisionadora e até castradora. O simples ato da crença passa então a ser percebido enquanto um
empecilho ao desenvolvimento da razão e, conseqüentemente à construção científica. As respostas para os mais diversos enigmas da vida, que durante a Idade Média, eram buscadas e encontradas no contexto místico-religioso, são agora dependentes da luz da razão, cabendo ao homem responder a tudo. Sendo assim a religião passa a ser vista sob a perspectiva crítica: deixava o homem em total ignorância e impedia o avanço científico e tecnológico. A respeito dessa crítica Eugenio Trias (2000, p:113) analisando o papel da razão iluminista, escreve: "A religião, na medida em que é cobaia da razão, é conduzida até o tribunal da ciência, da razão (ou da genealogia da vontade de poder), com o objetivo de ser examinada, interrogada, experimentada e questionada".

E prossegue em sua análise: Toda a riqueza e variedade da experiência religiosa e dos “jogos lingüísticos” por ela promovidos é então reconduzida, seguindo sua inconsciente verdade, até essa via de mão única que, de maneira autoritária, se estabelece em tais discursos da razão exclusiva. (op.cit.)

Os ideais iluministas, sem dúvida, fizeram parte da formação do cientista Freud, instigaram-no para a pesquisa, sendo que suas marcas e indícios parecem estar presentes em toda sua obra. Conforme Drawin (2005, p.36) "a influência cientificista na formação e na obra de Freud salta aos olhos". Tamanha influência aparece em vários dos seus escritos acerca da religião, porém, de modo mais nítido e veemente, em dois deles: O futuro de uma Ilusão (1927) e, uma das Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1933) denominada A questão de uma Weltanschauung. Nesses escritos, podemos constatar de maneira mais nítida, a grande influência que a ideologia cientificista exerceu sobre o pensamento de Freud, posicionando-o, na linha de frente, contra os ideais religiosos e a favor da ciência. Posteriormente retomaremos a temática da influência positivista sobre o pensamento freudiano; incluindo um comentário mais detalhado sobre essas obras.

Estamos cientes de que Freud foi marcado pelos ditames da ciência positivista de sua época, em busca da compreensão do aparelho psíquico, mas essa não foi, de modo algum, a única influência a qual recebeu ou que esteve sobre ele. Que Freud foi um filho do iluminismo por ter absorvido muitos dos seus ideais, especialmente a crítica à religião, não resta dúvida. "É muito compreensível, portanto, que, sob vários aspectos, Freud possa e deva ser considerado como um
verdadeiro Aufklärer. O seu espírito iluminista transparece do modo como olha a razão, concebe a ciência e critica a religião" (ROCHA, 1994, p.466).

Todavia não podemos deixar de mencionar que ele também foi um crítico desse mesmo movimento, quando descobriu que a maior parte da vida psíquica é inconsciente e que a razão não tem tanto controle assim, como se pensava. De acordo com Rocha (1994, p.466) "... este filho da modernidade é igualmente um dos seus críticos. [...] quando descobre que grande parte da vida psíquica tanto das pessoas sadias quanto dos doentes mentais é regida por forças que não são controladas pela razão". Tal descoberta lhe custou caro e colocou a psicanálise sob a feroz crítica dos cientistas mais arraigados. De certo modo, Freud subverteu a cultura filosófica de seu tempo ao declarar que a razão, na verdade, não domina todas as instâncias da vida psíquica. O feixe de luz da razão, até então venerado, não conseguia anular a importância que tinha o lado sombrio do psiquismo, sobretudo na elucidação do conflito psíquico que estava na base dos distúrbios e das doenças psíquicas. Nas palavras do próprio Freud (1917, p. 336): "o ego não é senhor nem mesmo da sua própria casa".

No que diz respeito à religião, especificamente, o que nos chama a atenção em Freud, é o fato de que mesmo sob a influência cientificista de sua época, conseguiu dar um passo à frente, elaborando a teoria psicanalítica, demonstrando independência de tal influência. O que fica inquestionável em Freud é a sua grandeza em ser um filho do seu tempo e, igualmente, um homem além do seu tempo.

Acreditamos que a partir de seu tempo e de sua vida, Freud começou a tecer sua construção sobre o estudo da religião em toda complexidade e grandeza, ou mesmo, foi sob essas influências que ele pôde elaborar seus possíveis discursos utilizados na elucidação de tão importante tema.”

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É isso!

Fonte:
Karla Daniele de Sá Araújo Maciel: “O percurso de freud no estudo da religião: Contexto histórico e epistemológico, Discursos e Novas Possibilidades”. (Dissertação entregue ao Mestrado em Psicologia Clínica, da Universidade Católica de Pernambuco, como requisito à obtenção do título de Mestre em Psicologia. Orientador Profº Drº Zeferino de Jesus Barbosa Rocha). Universidade Católica de Pernambuco. Recife , 2007 .

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.

O positivimo, o darwinismo e Nietzsche

“Pensar também que os melhores são os que continuam existindo no meio é uma forte influência do darwinismo no positivismo. O darwinismo valoriza a existência de maneira medíocre, pois considera a mera sobrevivência de uma espécie em relação a uma outra que tenha se extinguido como um aperfeiçoamento e melhora. Isto, para Nietzsche, é um valorar de uma maneira que privilegia o simples viver, que privilegia o simples vagar de um ser pelos limites da Terra. Ao contrário, o valorar nobre é aquele que atribui a qualidade de bom ao ser que se lança, ao ser que não se contenta só com o sobreviver, mas que busca mais, que quer o diferente.

É certo dizer que o positivismo e o darwinismo atribuem às diferenças ocorridas na humanidade através dos tempos um caráter positivo, e que Nietzsche vê também na mudança do humano (no sentido em que ele espera) uma positividade. Mas, em primeiro lugar, Nietzsche não pensa que o simples estar de uma espécie ou de homem o caracteriza como melhor, isto de maneira alguma é motivo para uma classificação qualitativa. Mais tarde, ele chamará “superação” o estado próprio do mundo sensível. Darwin será criticado por descrever o vivo como aquele que busca a conservação e a preservação. Em Humano, demasiado humano, O bom, o nobre, o espírito livre, é aquele que não se acomoda. Do mesmo modo, o espírito científico não considera a estabilidade uma meta natural do vivente. Mais tarde, esta visão será ainda mais enfatizada, o que de certa maneira afasta Nietzsche ainda mais da ciência tal como praticada em sua época. Olhar o mundo sensível como o mundo marcado pela vontade de superação – e o próprio homem como marcado por ela, na medida em que ele pertence a este mundo - já é um dos legados de Humano, demasiado humano, como Fink parece dizer:

Ele manobra a barca do homem para novos mares, afasta-se de todas as costas e ruma ao infinito, que já não se encontra por cima do homem, como Deus, como a lei moral ou a coisa em si; o infinito é agora descoberto dentro do próprio homem – ele é o ser que se supera a si próprio, as estrelas da idealidade são apenas as perspectivas da superação de si mesmo, perspectivas que ele próprio abriu.! (FINK, 1983, p. 56)

Em segundo lugar, o positivismo vê a evolução do homem como uma linha contínua e ininterrupta de melhoramento; não é dessa forma que Nietzsche pensa. É só pensarmos que o advento do cristianismo no Ocidente é visto por Nietzsche como uma piora, um adoecimento do homem, em relação ao homem da antiguidade. Nada garante que tempos vindouros serão melhores que os de hoje, pois não basta a simples sobrevivência dos indivíduos para afirmamos a melhora dos mesmos. Em Nietzsche, temos uma medida qualitativa diferente dos movimentos em voga no século XIX – a medida, em Humano demasiado humano, é a disposição para o espírito crítico.”

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É isso!

Fonte:
Victor Tartas “A noção de ciência de Nietzsche em Uumano, Demasiado Humano: Os primeiros passos da genealogia”. (Dissertação apresentada à linha de pesquisa da área de ontologia, mestrado, programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina.Orientador (a): Profa. Dra. Cláudia Drucker). Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2007 .

Nota:
O título e a imagem inseridos no texto não se incluem na referida tese.