Seleção Natural como agente aperfeiçoador

Não obstante os póstumos discípulos de Darwin ignorem o fato taxativamente, é certo que, para este naturalista inglês, o mecanismo de Seleção Natural deveria funcionar como um agente aperfeiçoador do processo evolutivo, atuando pela vida e pela morte, pela sobrevivência do “mais apto” e pela eliminação dos “menos aperfeiçoados”. A Seleção Natural, pois, de certa forma teria às mesmas credenciais de uma divindade onipotente, que, como um exímio oleiro, molda e dar forma à sua arte com extrema habilidade e perfeição. Em todo o livro “A Origem das Espécies”, Darwin faz menção do processo evolucionário como um evento de progressão contínua do “inferior” para o “superior”, do “menos apto” para o “mais apto” e do “imperfeito” para o "verdadeiro modelo de perfeição". Os trechos a seguir, todos extraídos desse referido livro, se não confirmam com perfeição, ao menos apontam com algum primor para esta tese “herética e antidarwinianamente suspeita”.
“Neste caso, ligeiras modificações, favoráveis em qualquer grau que seja aos indivíduos de uma espécie, adaptando-as melhor a novas condições ambientes, tenderiam a perpetuar-se, e a seleção natural teria assim materiais disponíveis para começar a sua obra de aperfeiçoamento” (p. 96).

“Se é vantajoso a uma planta que as suas sementes sejam mais facilmente disseminadas pelo vento, é tão fácil à seleção natural produzir este aperfeiçoamento como é fácil ao agricultor, pela seleção metódica, aumentar e melhorar a penugem contida nas cascas dos seus algodoeiros” (p.
100).

“Enfim, o isolamento assegura a uma nova variedade todo o tempo que lhe é necessário para se aperfeiçoar lentamente, e é este algumas vezes um ponto importante. Contudo, se a região isolada é muito pequena, ou porque seja cercada de barreiras, ou porque as condições físicas sejam todas particulares, o número total dos seus habitantes será também muito pouco considerável, o que retarda a ação da seleção natural, no ponto de vista da seleção de novas espécies, porque as probabilidades da aparição de variedades vantajosas são diminutas" (p.
119).

“Depois das alterações físicas, de qualquer natureza, toda a emigração deve ter cessado, de maneira que os antigos habitantes modificados devem ter ocupado todos os novos lugares na economia natural de cada ilha; enfim, o lapso de tempo decorrido permitiu às variedades, que habitavam cada ilha, modificar-se completamente e aperfeiçoar-se. Quando, após os elevamentos, as ilhas se transformaram de novo num continente, uma luta muito viva deve ter recomeçado; as variedades mais favorecidas ou mais aperfeiçoadas puderam então estender-se; as formas menos aperfeiçoadas foram exterminadas, e o continente estaurado mudou de aspecto com respeito ao número relativo dos habitantes. Aí, enfim, abre-se um novo campo à seleção natural, que tende a aperfeiçoar ainda mais os habitantes e a produzir novas espécies” (p.
122).

Resulta daí que as espécies raras se modificam ou se aperfeiçoam menos rapidamente num tempo dado; por conseqüência, são vencidas, na luta pela existência, pelos descendentes modificados ou aperfeiçoados das espécies comuns” (p. 123).

“Os descendentes modificados dos ramos mais recentes e mais aperfeiçoados tendem a tomar o lugar dos ramos mais antigos e menos aperfeiçoados, e por isso a eliminá-los; os ramos inferiores do diagrama, que não chegam até às linhas horizontais superiores, indicam este fato” (p.
132).

Mas, durante a marcha das modificações, representadas no diagrama, um outro dos nossos princípios, o da extinção, deve ter gozado um papel importante. Como, em cada país bem provido de habitantes, a seleção natural atua necessariamente, dando a uma forma, que faz o objeto da sua ação, algumas vantagens sobre outras formas na luta pela existência, produz-se uma tendência constante entre os descendentes aperfeiçoados de uma espécie qualquer para suplantar e exterminar os seus predecessores e a sua origem primitiva. É preciso lembrar, com efeito, que a luta mais viva se produz ordinariamente entre as formas que estão mais próximas umas das outras, em relação aos hábitos, constituição e estrutura. Por conseqüência, todas as formas intermediárias entre a forma mais antiga e a forma mais moderna, isto é, entre as formas mais ou menos aperfeiçoadas da mesma espécie, assim como a espécie origem própria, tendem ordinariamente a extinguir-se. É provavelmente da mesma maneira para muitas das linhas colaterais completas, vencidas por formas mais recentes e mais aperfeiçoadas" (p. 33).

"As espécies representativas,
em número de catorze para a décima quarta geração, têm provavelmente herdado algumas destas vantagens; e são, além disso, modificadas, aperfeiçoadas de diversas maneiras, em cada geração sucessiva, de forma a melhor adaptar-se aos numerosos lugares vagos na economia natural do país que habitam" (p. 34).

"Também a luta para a produção de descendentes novos e modificados se estabelece principalmente entre os grupos mais ricos que tentam multiplicar-se. Um grupo numeroso prevalece sobre um outro grupo considerável, reduzindo-o em número e diminuindo assim as suas probabilidades de variação e aperfeiçoamento. Num mesmo grupo considerável, os subgrupos mais recentes e mais aperfeiçoados, aumentando sem cessar, apoderando-se a cada instante de novos lugares na economia da natureza, tendem constantemente também a suplantar e destruir os subgrupos mais antigos e menos aperfeiçoados. Enfim, os grupos e os subgrupos pouco numerosos e vencidos acabam por desaparecer" (p. 137).

" Cada
ser, e é este o ponto final do progresso, tende a aperfeiçoar-se cada vez mais relativamente a estas condições. Este aperfeiçoamento conduz inevitavelmente ao progresso gradual da organização do maior número de seres vivos em todo o mundo. Mas referimo-nos aqui a um assunto muito complicado, porque os naturalistas ainda não definiram, de uma forma satisfatória para todos, o que deve compreender-se por «um progresso de organização». Para os vertebrados, trata-se claramente de um progresso intelectual e de uma conformação que se aproxime da do homem" (p. 138).

"Se adotamos, como critério de uma alta organização, a soma das diferenciações
e de especializações dos diversos órgãos em cada indivíduo adulto, o que compreende o aperfeiçoamento intelectual do cérebro, a seleção natural conduz claramente a esse fim" (p. 139).

"Dei o nome de seleção natural a este princípio de conservação
ou de persistência do mais apto. Este princípio conduz ao aperfeiçoamento de cada criatura relativamente às condições orgânicas e inorgânicas da sua existência; e, por conseguinte, na maior parte dos casos, ao que podemos considerar como um progresso de organização. Todavia, as formas simples e inferiores persistem muito tempo quando são bem adaptadas às condições pouco complexas da sua existência" (p. 145).

"A
seleção natural, como acabamos de fazer observar, conduz à divergência dos caracteres e à extinção completa das formas intermediárias e menos aperfeiçoadas" (p. 146).

"A seleção natural atua apenas pela conservação das modificações vantajosas;
cada nova forma, sobrevindo numa localidade suficientemente povoada, tende, por conseqüência, a tomar o lugar da forma primitiva menos aperfeiçoada, ou outras formas menos favorecidas com as quais entra em concorrência, e termina por exterminá-las. Assim, a extinção e a seleção natural vão constantemente de acordo. Por conseguinte, se admitimos que cada espécie descende de alguma força desconhecida, esta, assim como todas as variedades de transição, foram exterminadas pelo fato único da formação e do aperfeiçoamento de uma nova forma" (p. 185).

"Por conseqüência,
as formas mais comuns tendem, na luta pela existência, a vencer e a suplantar as formas menos comuns, porque estas últimas modificam-se e aperfeiçoam-se mais lentamente" (p. 189).

"A seleção natural atuando somente pela vida e pela morte, pela persistência
do mais apto e pela eliminação dos indivíduos menos aperfeiçoados, experimentei algumas vezes grandes dificuldades para me explicar a origem ou a formação de partes pouco importantes; as dificuldades são tão grandes, neste caso, como quando se trata dos órgãos mais perfeitos e mais complexos, porém são de uma natureza diferente" (p. 214).

"Constituindo o enrolamento o modo mais simples de subir por um suporte e
formando a base da nossa série, pode naturalmente perguntar-se como puderam adquirir as plantas esta aptidão nascente, que mais tarde a seleção natural aperfeiçoou e aumentou" (p. 262).

"Não há improbabilidade
alguma em acreditar que, nos numerosos insetos, que imitam diversos objetos, uma semelhança acidental com um objeto qualquer foi, em cada caso, o ponto de partida da ação da seleção natural, cujos efeitos deviam aperfeiçoar-se mais tarde pela conservação acidental das variações ligeiras que tendiam a aumentar a semelhança" (p. 265).

"Quando um grande número de habitantes de qualquer
região se modifica e aperfeiçoa, resulta do princípio da concorrência e das relações essenciais que têm mutuamente entre si os organismos na luta pela existência, que toda a forma que não se modifica e não se aperfeiçoa em certo grau deve ser exposta à destruição. E dá-se isto porque todas as espécies da mesma região acabam sempre, se se considera um lapso de tempo suficiente longo, por se modificar, porque de outra forma desapareceriam" (p. 383).

"Mas se supusermos a destruição da origem-mãe, o torcaz - e
temos toda a razão para acreditar que no estado de natureza as formas pais são geralmente substituídas e exterminadas pelos seus descendentes aperfeiçoados - seria pouco provável que um pombo-pavão, idêntico à raça existente, pudesse derivar da outra espécie de pombo ou mesmo de alguma outra raça bem fixa do pombo doméstico" (p. 384).

"Temos, até ao presente, falado apenas incidentemente do desaparecimento
das espécies e dos grupos de espécies. Pela teoria da seleção natural, a extinção das formas antigas e a produção das formas novas aperfeiçoadas são dois fatos intimamente conexos" (p. 385).

"A concorrência é geralmente mais rigorosa, como com exemplos o demonstramos
já, entre as formas que se semelham em todos os pontos de vista. Por conseguinte, os descendentes modificados e aperfeiçoados de uma espécie causam geralmente o extermínio da origem-mãe; e se muitas novas formas, provindo de uma mesma espécie, conseguem desenvolver-se, são as formas mais próximas desta espécie, isto é, as espécies do mesmo gênero, que se encontram mais expostas à destruição" (p. 389).

"As espécies antigas, vencidas
pelas novas formas vitoriosas, às quais cedem o lugar, são geralmente aliadas em grupos, conseqüência da herança comum de alguma causa de inferioridade; à medida pois que os grupos novos e aperfeiçoados se espalham na Terra, os antigos desaparecem, e por toda a parte há correspondência na sucessão das formas, tanto na sua primeira aparição como no desaparecimento final" (p. 393).

"Vimos, no quarto capítulo, que, em todos os seres organizados que atingiram
a idade adulta, o grau de diferenciação e de especialização dos diversos órgãos nos permite determinar o grau de aperfeiçoamento e superioridade relativa. Vimos também que, a especialização dos órgãos constituindo uma vantagem para cada ser, deve a seleção natural tender a especializar a organização de cada indivíduo, e a torná-la, em tal ponto de vista, mais perfeita e mais elevada" (p. 402).

"Parece-me, por outro lado, que todas as leis
essenciais estabelecidas pela paleontologia proclamam claramente que as espécies são o produto da geração ordinária, e que as formas antigas foram substituídas por formas novas e aperfeiçoadas, e elas mesmo o resultado da variação e da persistência do mais apto" (p. 412).

"Demonstrei
também que as variedades intermediárias, que têm provavelmente ocupado a princípio zonas intermediárias, devem ter sido suplantadas por formas aliadas existindo de uma parte e de outra; porque estas últimas, sendo as mais numerosas, tendem, por esta razão mesmo, a modificar-se e a aperfeiçoar-se mais rapidamente que as espécies intermediárias menos abundantes; de modo que estas devem ter sido, há muito, exterminadas e substituídas" (p. 527).

"As variedades novas e aperfeiçoadas devem substituir
e exterminar, inevitavelmente, as variedades mais antigas, intermediárias e menos perfeitas, e as espécies tendem a tornar-se assim mais distintas e melhor definidas. As espécies dominantes, que fazem parte dos grupos principais de cada classe, tendem a dar origem a formas novas e dominantes, e cada grupo principal tende sempre também a crescer cada vez mais, e ao mesmo tempo, a apresentar caracteres sempre mais divergentes" (p. 534).

"A extinção das espécies e de grupos completos de espécies,
que tem gozado um papel tão considerável na história do mundo orgânico, é a conseqüência inevitável da seleção natural; porque as formas antigas devem ser suplantadas pelas formas novas e aperfeiçoadas" (p. 539).

"Consideram-se as formas novas como sendo,
em conjunto, geralmente mais elevadas na escala da organização do que as formas antigas; devem-no ser, além disso, porque são as formas mais recentes e mais aperfeiçoadas que, na luta pela existência, têm devido sobrepujar as formas mais antigas e menos perfeitas; os seus órgãos devem ter-se também especializado muito para desempenhar as suas diversas funções" (p. 540).

"Como a
produção e a extinção das espécies são a conseqüência das causas sempre existentes e atuando lentamente, e não por atos miraculosos de criação; como a mais importante das causas das alterações orgânicas é quase independente de toda a modificação, mesmo súbita, nas condições físicas, porque esta causa não é mais que as relações mútuas de organismo para organismo, o aperfeiçoamento de um arrastando o aperfeiçoamento ou o extermínio de outros, resulta que a soma das modificações orgânicas apreciáveis nos fósseis de formações consecutivas pode provavelmente servir de medida relativa, mas não absoluta, do lapso de tempo decorrido entre o depósito de cada uma delas. Estas leis, tomadas no seu sentido mais lato, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade que implica quase a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da ação direta e indireta das condições de existência, do uso e não uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para trazer a luta pela existência, que tem como conseqüência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado direto desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o fato mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!" (p. 553, 554).

Fonte:
Charles Darwin: "
A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza". Tradução: Joaquim da Mesquita Paul. Lello & Irmãos Editores. Porto, 2003.

É isso!

Eu li isso...


"A noção de concorrência, de luta pela vida e de sobrevivência do mais forte deu nascimento a uma "sociologia da guerra" que prosperou sobretudo na Alemanha. Mas mesmo em França, no período anterior à Primeira Guerra Mundial, a exaltação emocional e romântica da luta e da morte caminhou conjuntamente com os ímpetos de révanche que iam contribuir para o genocídio bélico. Místico católico que morreria no insano massacre mútuo iniciado em agosto de 1914, Charles Péguy ruminou sobre os valores supremos do heroísmo guerreiro. Ouçam estes versos:

Heureux ceux qui sont morts dans une juste guerre!
Heureux lês épis mûrs, et lês blés moissonés...

Trinta milh
ões de "felizardos" foram sacrificados como trigo maduro, ceifados pela foice de Bellona, no conflito e em suas sequelas. Um milhão só nesse fatídico mês de agosto. Comandando um pelotão na primeira fila de um regimento de infantaria e observando o inimigo com binóculos, suas calças vermelhas facilitando a identificação pelas metralhadoras alemãs, o magnífico poeta recebeu em plena testa a bala dos boches... Centenas de milhões seriam abatidos no período de cinquenta anos que se seguiu - o preço cobrado pela horrenda ideologia coletivista do Estado-nação soberano e da fraternidade so cialista... O extraordinário nos versos de Péguy, que sempre gosto de citar, é que era um católico fervoroso e sua paranóia belicista coincidiu com a crise mística de que estava sofrendo. Mas duvido que muitos se sentissem felizes com os eventos...

Konrad Lorenz
é o mais renomado dos etólogos no domínio da agressividade humana. Não obstante terminar a obra Zur Naturgeschichte der Aggression confessando a esperança que o poder da seleção natural conduza a humanidade no caminho da obediência ao mandamento de amor e fraternidade, o Prémio Nobel austríaco estuda esse "instinto homicida" cuja história descreve como paralela no homem e na besta. Em sua autobiografia, Naturalist (Penguin, 1995), Edward Wilson confessa a impressão decisiva que, na Universidade de Harvard e sendo ele, Edward, ainda jovem estudante que trabalhava em seu doutoramento, causou o impacto das idéias de Lorenz sobre etologia na for mação de sua ideias, encaminhando-o para a criação da nova ciência da sociobiologia."

Fonte:
José Osvaldo de Meira Penna: "Polemos: Uma análise crítica do darwinismo". Editora UnB, p. 266, 267

É isso!

O "segredo do negócio" da paleontologia

Ou: A ciência das conveniências

É isso!

Ascensão e queda no darwinismo

É isso!

O darwinismo e suas "Penélopes"

Para quem já leu “Odisséia” de Homero ou já ouvir falar dela, deve lembrar-se da personagem Penélope, filha de Icário e mulher do herói grego Ulisses. Segundo a narrativa mitológica, por acreditar que Ulisses não estava mais no mundo dos vivos, o pai de Penélope aconselhou-lhe que contraísse novas núpcias. Inicialmente ela retrucou em seguir o conselho, no entanto, decidiu-se por acatá-lo depois de muita insistência por parte do velho. Porém impôs a condição de que isso acontecesse somente depois de terminar de tecer uma colcha de tricô. Contudo, enquanto durante o dia ela tecia a colcha à vista de todos, à noite, sozinha, ela a desmanchava.

O darwinismo é como uma grande Odisséia com suas muitas “Penélopes”. Enquanto durante o “dia” chegam algumas delas para tecer cuidadosamente a enorme “colcha da evolução”, na “calada da noite” vêm outras e a desfaz, talvez por simples ciúmes ou mesmo por birra de não terem sido as primeiras a terem iniciado o belo trabalho em honra do grande herói. É simplesmente espetacular o “sobe-e-desce” no mundo fossilizado de Darwin. No vaivém de “elos” o darwinismo formou uma “colcha” muito imprecisa e cheia de furos. A vontade exagerada de “virar manchete” ou de ser “a nova estrela de Darwin” tem conduzido um bom número de paleontólogos a manipular tendenciosamente os dados fósseis a fim de provar que o rígido e estrito gradualismo de Darwin é a expressão da mais pura verdade. E quando os fatos vêm à tona, junto com eles aparece também o velho e massacrado pretexto “de que é assim mesmo que se faz ciência”. E logo a história se repete como numa infinita Odisséia a la inglesa, na qual o herói em sua “superioridade natural” permanece sempre incólume a qualquer que seja a mácula.

Um caso recente, diz respeito ao famigerado Ardipithecus ramidus, apelidado carinhosamente de “Ardi”, que agora faz arder o inferno astral da galerinha de Darwin. Embora as pesquisas ainda não estejam conclusivas, tudo parece conduzir ao rebaixamento de mais um ancestral humano. Pelo menos é o que andam noticiando por aí, por exemplo, o jornal Folha de São Paulo:

Estudo diz que Ardi, de 4,4 milhões de anos, não é ancestral do homem
“Ironicamente, o "rebaixamento" da espécie de Ardi está sendo proposto nas páginas da prestigiosa revista especializada "Science", a mesma que alçou a suposta fêmea de hominídeo (ancestral humano) à categoria de descoberta do ano em 2009.” E mais adiante:

Paleoantropólogos ouvidos pela Folha disseram que a crítica tem fundamento.
"Embora o Dr. White e seus colegas tenham descoberto um fóssil fabuloso de grande macaco, tentaram forçar a mão e transformá-lo num hominídeo, coisa para a qual não há base nenhuma", diz o americano Lee Berger, da Universidade do Witwatersrand (África do Sul)”.

É como costumo dizer: “darwinista é como corintiano: sofre muito mas ainda assim continua vestindo a camisa”.

E viva sexta-feira, porque ninguém é de ferro! ((rs))

É isso!

O darwinismo ilustrado ((rs))

Fonte das imagens:
Pequeno Dicionário Ilustrado de Expressões Idiomáticas, dos fotógrafos Everton Ballardin e Marcelo Zocchio, publicado pela Editora DBA em 1999.

"QUEBRAR O PAU"
É como se comporta os zeladores de Darwin quando um cientista não-darwinista contesta ou refuta os santos dogmas da imaculada evolução.

"PÔR AS BARBAS DE MOLHO"
É o que devem fazer todos aqueles que ainda esperam que a Seleção Natural seja posta num tubo de ensaio ou que seja testada empiricamente.

"CHORAR O LEITE DERRAMADO"
Os neodarwinistas arrependidos por não terem se agarrados na salvação epistêmica oferecida por Stephen Jay Gould, com seu Equilíbrio Pontuado.

"ENCHER LINGÜIÇA"
Os sociobiólogos darwinistas com suas estorinhas inverificáveis e não suscetíveis de experimentações.

"ENTRAR PELO CANO"
O darwinista ao apostar todas suas fichas na última "novidade fossilizada" divulgada pela imprensa e alardeada mídia à fora.

"ACERTAR NA MOSCA"
A galerinha de Darwin usando como exemplo de evolução em tempo real as famosas moscas-de-frutas (Drosophila melanogaster).

"SEM PÉ NEM CABEÇA"
O slogan darwinista "sobrevivência do mais apto".

"CHUTAR O BALDE"
Os ouriçados discípulos de Darwin ao saber que o famigerado Darwinius masillae não era lá a 8ª maravilha do mundo.

"ENGOLIR SAPO"
É como os intolerantes darwinistas querem que estejam todos aqueles que se recusam a reconhecer a Seleção Natural como a deusa maior das ciências biológicas.

"COM A CORDA NO PESCOÇO"
Os darwinistas com suas dívidas epostemológicas.

"PENDURAR AS CHUTEIRAS"
O darwinista que cessou de esperar a "prova definitiva" da Teoria da Evolução de Darwin.

"COM O PÉ ATRÁS"
É como deveria permanecer toda pessoa sensata ao ler sobre a última novidade evolutiva divulgada pela imprensa, principalmente pela Revista Veja, a Rede Globo e a Folha de São Paulo, para ficar só no Brasil.

"PEDRA NO SAPATO"
Os antidarwinistas são a "pedra no sapato" dos fiéis defensores do naturalista inglês.

"PISAR NA BOLA"
É o que faz a imprensa comprometida ideologicamente na sua precipitação por noticiar a última novidade científica.

É isso!

Dawkins: "o exterminador dos vírus da mente"

Richard Dawkins e o Nascimento dos Memes:
"Dawkins gosta de discutir a religião como um memeplexo simplesmente porque ele gosta de criticar a religião. Mas duas coisas devem ficar claras: em primeiro lugar, tratar a religião como um meme não é uma crítica por si só, pois a ciência, e tudo mais que Dawkins escreve, também seriam memes. Em segundo lugar, e mais importante, há aqui uma clara retórica enganosa, pois Dawkins não nos dá uma análise consistente o suficiente para aceitar sua proposta, ele apenas
constrói um ótimo exemplo de uma just so story. O problema com este modo de argumentação é que as just so story são enganosamente interessantes, mesmo sem nenhuma evidência que as provem. Poderíamos dizer que elas são memes muito eficazes! É exatamente por causa destas “narrativas sagazes sem fundamento empírico” que, como vimos no segundo capítulo, Gould critica o panglossianismo dos chamados “adaptacionistas”. É esta saída do adaptacionismo de dentro da biologia para outras áreas que ele considera ainda mais perigoso, e está certo. Não podemos aceitar explicações meméticas só porque elas nos parecem interessantes, sagazes, criativas ou simples. É uma “simplicidade enganosa”, como disse Gould. Uma boa narrativa memética necessita ter, como pano de fundo, uma análise empírica mais detalhada, bem como análises psicológicas explicando o motivo de certos memes terem mais sucesso do que outros. Não basta construir uma história interessante, pois uma história assim é apenas uma estória" (p. 149, 150).

Fonte:
Gustavo Leal Toledo. "Controvérsias Meméticas: a ciência dos memes e o darwinismo universal em Dawkins, Dennett e Blackmore". Tese de Doutorado, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia do Departamento de Filosofia do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. Rio de Janeiro, março de 2009.

É isso!

O século XIX e a naturalização das diferenças

Por: Eni de Mesquita Samara: *

"Sobretudo a partir de 1859, com a publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin, colocava-se um ponto final na disputa entre monogenistas e poligenistas, além de se estabelecerem as bases para a afirmação de uma espécie de paradigma de época, com o estabelecimento do conceito de evolução. A novidade não estava tanto na tese anunciada, como no modo de explicação e na terminologia accessível utilizada pelo naturalista inglês. Dessa maneira, rapidamente, expressões como “sobrevivência do mais apto”, “ adaptação”, “luta pela sobrevivência” escapavam do terreno preciso da biologia e ganhavam espaço nas demais ciências.

No que se refere às humanidades, a penetração desse tipo de discurso
foi não só ligeira como vigorosa. Herbert Spencer, em Princípios de sociologia (1876), definia que o que valia para a vida servia para o homem e suas produções. O passo seguinte era determinar que, assim como a natureza, a sociedade era regida por leis rígidas e o progresso humano era único, linear e inquebrantável.

Paralelamente, tomava força a escola “evolucionista social”, que marcava, nesse contexto, os primórdios e o nascimento de uma disciplina chamada Antropologia. Representada por teóricos como Morgan (1877), Frazer e Tylor essa escola concebia o desenvolvimento humano a partir de etapas fixas e pré-determinadas e vinculava de maneira mecânica elementos culturais, tecnológicos e sociais. Dessa forma, tendo a tecnologia como índice fundamental de análise e comparação, para os evolucionistas, a humanidade aparecia representada tal qual uma imensa pirâmide – dividida em estágios distintos, que iam da selvageria para a barbárie e desta para a civilização –, na qual a Europa aparecia destacada no topo e povos como os Botocudos na base, a representar a infância de nossa civilização. Apresentando uma forma de saber comparativa, os evolucionistas sociais pareciam dialogar com seu contexto, enquanto imperialistas, como Cecil Rhodes, afirmavam que pretendiam tudo dominar – de países a planetas –, a utopia desses etnólogos sociais era tudo classificar.

Como dizíamos, a partir da afirmação de uma visão evolucionista tão majoritária, até no campo da religião e da filosofia as influências são evidentes. Esta é a época do positivismo francês de Auguste Comte, o qual pretendia uma subordinação da filosofia à ciência da imutabilidade. Com efeito, a partir dos três métodos de filosofar – teológico, metafísico e positivo – assumia-se que a humanidade evoluia de formas pré-determinadas de pensar, revelando-se, assim, uma clara correlação com as teorias hegemônicas da época.

No entanto, se por um lado é possível visualizar a afirmação do evolucionismo como um paradigma de época, de outro é necessário reiterar que essas escolas reafirmavam a noção iluminista da humanidade una e inquebrantável. Muito diferente eram, no entanto, as teorias que, seguindo as pistas de detração – deixadas por C. de Pauw e pelo conde Buffon –, passaram a utilizar a idéia da diferença entre os homens, dessa feita com a respeitabilidade de uma ciência positiva e determinista.

Longe de estar esgotada, a corrente poligenista tomava, nesse contexto, uma nova força. Autores como Gobineau e Le Bon19 recuperavam as máximas de Darwin, porém destacando que a antiguidade na formação das raças era tal que possibilitava estudá-las como uma realidade ontológica. Partindo da afirmação do caráter essencial das raças – o qual as fariam diferir assim como as espécies –, uma série de teóricos, mais conhecidos como “darwinistas sociais”, passam a qualificar a diferença e a transformá-la em objeto de estudo, em objeto de ciência" (p. 16-18).

* Fonte:
“RACISMO & RACISTAS: TRAJETÓRIA DO PENSAMENTO RACISTA NO BRASIL”. Por: Eni de Mesquita Samara.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS, 2001.

É isso!